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Bora falar de EDM

Bora falar de EDM

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Com o desaparecimento recente de Erick Morillo, engrossa o obituário de profissionais de EDM que partem antes da hora.

Um look rápido e sem pesquisa orgânica e paga revela tão-só aquilo que não se vê nem ouve quando se escuta uma malha de tribal house ou de drum n’bass: isto é gente que efectivamente suga a vida para além do tutano.

AVICII

O sueco, de 28 anos, matou-se mas ninguém pode acusá-lo de não ter extraído os possíveis e impossíveis do seu quarto de século de existência (mais uns pozinhos).

Falamos de alguém que dava uma média de 1000 espectáculos por tourné (aproximadamente), por vezes ao ritmo de 320 sets/ano, o que é uma loucura se pensarmos que, para quem não “toca instrumentos” (aqui um nod especial ao Tio Rui Veloso, que usou esta expressão para menorizar o hip-hop), esta malta atira-se de corpo, sangue, alma, espírito, chakra e mais o que sobrar no tanque.

RITMO LOCO

(caption: o retoque disto é Português meus caros:)

Sejamos sinceros: o house já foi mais popular entre os jovens. Hoje, qualquer millenial prefere ouvir sertanejo ou reggaeton, em função daquilo a que posso confortavelmente chamar clássicos de danceteria, como…

THE SUNCLUB (para os da minha idade) 

ALARMA (para os mais velhos)

BOB SINCLAR (para todos)

 

Ou

I NEED A MIRACLE (para todos)

Os DJs vivem de noite e trabalham durante o dia. Já entrevistei quatro artistas portugueses, cada um com o seu ritmo, agenda e estilo, e, pelo que me foi dado a entender, falamos de workaholics e daquilo a que se pode, musical e estatisticamente falando, vá, de superempreendedores. Não será de estranhar que surjam problemas mentais, malta que se debate com depressões profundas e outros mambos que tais.

VIBE

António Pereira tem tantos anos de carreira como os Xutos e 1/10 do reconhecimento por parte do público. Todos conhecem Tim e Kalú, ninguém sabe e poucos ouviram meio álbum de DJ Vibe.

É pena. DJ Vibe foi o primeiro português – há dois tipos obrigatórios no pontapé-de-baliza nacional para dois estilos diferentes: Cruzfader no hip-hop, e Vibe no techno – a explorar a club scene londrina e a importar beats e breaks para as nossas pistas.

Quem se lembra de Alarma, lembra-se do famoso Alcântara-Mar. Isto era um jovem que andava de boombox às costas, a percorrer Portugal e o Mundo este a oeste e norte a sul.

Há não muito tempo, quis abrir uma escola de DJs, no Porto.

Há não menos tempo, foi fazer um set de 24 horas no Canadá, num rinque de hóquei no gelo.

Claro que… arbeit macht Maluquich. Sehr ou Immer, qualquer que seja o prefixo, convém que a malta desligue a ficha.

Coisa que, pelo que sei, Vibe não sabe fazer.

É um incansável, um pioneiro, e sugiro músicas Dele e uma que Eu fiz questão de atirar para o YouTube.

PEDROS

Um deles fez uma música de la la la que bateu imenso há uns Verões atrás.

Tomei um café e lancei-lhe umas quantas perguntas. Tipo porreiro, calmo, mais uma montanha que move serras à sua volta em termos de método, disciplina, treino.

Quando um DJ diz que chega a casa às 6 da manhã para tirar uma sesta, está a mentir. Vai obviamente pegar na mesa e treinar, treinar, treinar até cair para o lado de sono e cansaço.

Esta rotina ‘não-saudável’, ao lado de consumidores atuais de gurus do #mindfulness e do estilo de vida #healthy e #fit e cenas, não pega.

Cazanova lançou uma música em Portugal que o elevou a um patamar invejável, no que toca a performers de EDM.

Se é que podemos chamar EDM à sua música mais conhecida… mas, de qualquer modo, foi um tipo que mais tarde se lançou para a Europa de Leste (mercado gigante em termos de consumo de EDM), para países como a Roménia, Hungria, que em termos de cachet ainda lhe compensavam mais do que andar a percorrer capelinhas de Martins e Carlotas a receber 5 mil/noite. “A mandar os pregos que eu quisesse…”.

Pois.

#toughlife

O outro vem do Algarve e ombreia com Vibe, no sentido de ser um tipo cheio de know how e ganas de espalhar boa música.

 

Pete Tha Zouk, que nem sei se vale para Pedro, falou comigo no lançamento desta chanson aqui…

Nesta fase, Tha Zouk já era big.

Este videoclip foi gravado em Floripa, mete helicópteros e cenas – in your face Santamaria! – e o DJ natural de Olhão, que muito penou para chegar onde está hoje, era todo orgulho e zero preconceitos.

Nunca consegui sacar, de nenhum destes protagonistas, quanto chegavam a tirar por set, seja em Portugal, na Alemanha ou Estados Unidos.

Eram as chamadas “perguntas difíceis”.

O que sei é que Tha Zouk, homenageando o velhinho Alcântara-Mar, fez questão de apresentar o clip numa das catedrais da música electrónica em Portugal.

#respect

DJ POPPY

Poster girl? Nada disso.

A Iolanda tem pinta, figura, um sorriso do caraças e é talvez a artista do grupo que mais se diferencia na linha musical.

Sim, foi capa da velhinha Maxmen, sim, linhas e curvas e cenas e mambos, mas o que mais me marcou em Poppy foi a sua honestidade e abertura para falar dos temas:

“Um homem tira o triplo do que eu tiro por set”, ou “para quê meter música numa festa privada num barco por x mil euros quando prefiro ficar a treinar para uma festa que realmente gosto, onde sei que tenho o meu público a curtir as minhas músicas?” ou “Portugal gosta de dançar até certo ponto… prefere bater palmas” foram algumas das tiradas que recordo. Mind the remix, porque isto já foi há mais de dez anos.

Esta gente hoje tem família. Tem carreiras feitas. E há que respeitar as suas vidas e obras. Mais ainda do que na altura.

G4 vs o MUNDO

Importa então determinar que razões explicam esta ‘pandemia’ da EDM, no que à taxa de mortalidade diz respeito.

Avicii era mais novo do que a média do/da leitor/a deste site, Erick já era mais estabelecido mas ainda assim, se quisermos comparar a géneros mais radio friendly, isto seria o mesmo que perder Billie Eilish e… Bieber, vá. Assim de “sem querer”.

Não sei, honestamente, porque nunca acompanhei uma noite de trabalho de um DJ – nem eles gostam, há DJs que mandam fechar a cabine ou dão ordens para não serem massacrados com requests nem que lhes ofereçam notas de 500 – o que justifica este carpie noctem grotesco, selvagem, de 320 concertos ano, como fazia o sueco.

Nem o que poderá explicar o desaparecimento de Morillo.

O que sei é que, e isso creio que é senso-comum, houve uma altura em que Isto

(este menino fez o beat de uma música chamada Força, de uma tal Nelly Furtado🙂

batia bem mais que qualquer coisa relacionada com Isto

e, a meu ver, estávamos melhor entregues.

A música de dança é libertadora.

Endorfina, serotonina, oxitocina, tudo solta, tudo flui, e todos nos recordamos de dançar alguns hinos absolutamente inesquecíveis, das mais variadas disconites, da Kadoc ao Lux, do Plateau ao Estado Novo, do Via ao Day After, enfim, a lista nunca mais acaba.

O Blackjack, em Vilamoura, era a residência não-oficial de Tha Zouk.

Poppy teve um curto período em que tomou conta do Coconuts.

Vibe andava por onde lhe apetecia, não tinha cativo, galopava a vida, a sorte e o trabalho.

O outro?

Não sei dele.

Mas tomem lá outra vez…

 

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