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Evelyn Glennie é surda, mas quer ensinar o mundo a ouvir

Evelyn Glennie é surda, mas quer ensinar o mundo a ouvir

 

Evelyn Glennie é escocesa e, em 2015, ganhou aquele que é considerado como equivalente aos prémios Óscar da música, o Polar Music Prize. Se isto não fosse por si só impressionante, bastava dizer que a percussionista possui uma deficiência auditiva profunda que se tem vindo a acentuar desde os 8 anos de idade.

O facto pode parecer surpreendente, mas é só um apontamento quando falamos daquela que é uma das maiores percussionistas  da atualidade. Neste post contamos-lhe toda a história de Evelyn Glennie e damos-lhe a conhecer uma TED Talk que merece ser vista (e ouvida) com muita atenção.

Mas, como é que tudo começou? Nascida em Aberdeenshire, Escócia, Evelyn Glennie manifestou interesse pela música quando tinha apenas 12 anos. Perante a incredulidade do professor que, de boca aberta, lhe disse que aprender um instrumento seria extremamente complicado, Evelyn não se conformou e bateu o pé. A insistência deu frutos e o professor acabou por aceder ao pedido, começando a ensiná-la.

Na TED Talk de 2007, a artista explica que ouvir é muito mais do que captar sons pelos ouvidos. Pelo contrário, há toda uma experiência que transcende o corpo e que pode ser sentida através da vibração criada pelo som. Aliás, foi exatamente assim que a percussionista aprendeu a diferença entre as sonoridades: em vez de ouvir, Evelyn Glennie absorvia as diferentes notas musicais com o corpo, colocando as mãos nos instrumentos e nas paredes.

No processo de aprendizagem, Evelyn Glennie distingue duas fases distintas. A primeira é a leitura de pautas e reprodução daquilo que nelas está escrito. Uma vez completa esta etapa, é possível que alguém se possa chamar de percussionista – mas não de músico.

Por oposição, o músico é aquele que tem a capacidade de interpretar e criar a partir daquilo que já existe. Essa é a segunda fase de aprendizagem, essencial para todos os que querem ascender à categoria de artista – alguém que consegue criar algo novo e despertar emoções no outro.

Evelyn Glennie: o que é a música?

Salientando a importância do experimentalismo e da descoberta, a percussionista refuta a ideia de que existem dogmas da música. Gostos à parte, Evelyn Glennie afirma que é impossível alguém dizer que uma música é má apenas porque não gosta dela.

Porquê? É simples: porque a audição de todo ou qualquer som está muito relacionada com a perceção individual de cada um. Aquilo que em alguém pode despertar boas sensações, noutro pode causar incómodo ou medo até.

Voltando à questão de que a audição não se faz só com os ouvidos, Evelyn Glennie refere que há um lado psicológico subjacente a todo o processo. Quando pensamos num trovão, por exemplo, associamos imediatamente o fenómeno da natureza ao seu som característico. Mesmo que inexistente, esse som mental continua a ser importante para a perceção que temos da música.

Ao estar tão dependente de cada um, não faz muito sentido tentar estabelecer uma relação direta entre aquilo que o músico pretende transmitir e aquilo que os outros ouvem. Até porque, o que sentimos num dia não é o mesmo que sentimos no dia seguinte.

Em suma, há uma infinidade de condicionalismos – a maioria nem sequer são musicais – que interferem na forma como ouvimos. Do ambiente à companhia, passando pelos nossos próprios pensamentos: música é tudo isto, não apenas aquilo que nos chega fisiologicamente aos ouvidos.

Evelyn Glennie operou uma mudança de paradigma

Já mais velha, Evelyn Glennie decidiu candidatar-se à Royal Academy of Music, de Londres. A entrada foi-lhe inicialmente vedada, já que havia restrições quanto a deficientes – fossem eles auditivos ou de outro qualquer tipo.

A desculpa dada pela academia era aquilo que a maioria de nós pensa: alguém que não consegue ouvir não pode de forma alguma entender a música. Como vimos, esta ideia não podia estar mais errado.

 

A jovem decidiu insistir até que a certa altura lhe deixaram fazer uma audição. Foi a partir daí que o Royal Academy of Music reviu as suas regras, passando a oferecer condições de acesso semelhantes para todos os candidatos, deficientes ou não.

Desde então, a afamada escola de música já formou vários artistas com limitações, alguns dos quais tocam nas maiores orquestras do mundo.

A missão de ensinar os outros a ouvir

A partir desse momento, Evelyn Glennie começou a encarar como missão pessoal o ato de ensinar os outros a ouvir. Participando em várias iniciativas, a artista procura explorar novos meios de comunicação, dos mais convencionais aos mais estranhos. Em simultâneo, contribui para a desmistificação da ideia de que quem é surdo não pode desfrutar da musica.

Na TED Talk que apresentamos em cima, a percussionista chega mesmo a lamentar que, ao longo de muitos anos, se tenha negligenciado a educação musical e o uso do som na vida de quem sofria problemas auditivos. À luz dos dias de hoje, sabemos inclusive que a musicoterapia pode ser uma excelente forma de tratar crianças que sofrem de autismo.

Com a iniciativa Teach the World To Listen, Evelyn Glennie pretende criar um centro onde seja possível oferecer às pessoas acesso a novas experiências auditivas, abrindo horizontes e criando novas perspetivas num mundo que se julgava ausente de sons.

Afinal, como a própria diz, ouvir é um processo holístico, onde o corpo pode ser usado como câmara anecoica.

A carreira de Evelyn Glennie

Ao longo da sua carreira, Evelyn Glennie já lançou mais de 30 discos. Dois dos seus momentos mais altos foram o concerto, de 1992, no Royal Albert Hall (onde se juntaram orquestras de todo o mundo), e a abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012.

O gap temporal entre os dois acontecimentos comprova que a artista manteve um trabalho consistente, do qual fizeram parte nomes como Björk. Segundo Evelyn Glennie, a colaboração com a cantora islandesa foi uma oportunidade de extrema importância, uma vez que lhe permitiu “cair numa área completamente diferente, no que diz respeito à composição da audiência”.

A artista também tocou com Fred Frith e faz questão de colaborar frequentemente com novos compositores. O objetivo: pôr à prova as suas próprias capacidades e expandi-las o mais que conseguir.

À custa do crescimento que demonstrou ao longo da carreira, Evelyn Glennie já ganhou mais de 80 prémios internacionais. Além do Polar Music Prize, a artista foi condecorada, em 2007, como Dame Comander do Império britânico.

De referir também que a história da percussionista serviu de inspiração para Touch the Sound, película que venceu o BAFTA de 2004 para Melhor Documentário e que conta com a participação da própria Evelyn Glennie.

 

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