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Ney Matogrosso: a prova de que as aparências não são tudo

Ney Matogrosso: a prova de que as aparências não são tudo

 

Ney de Souza Pereira abre-me a porta, descalço e com o pijama de seda a descarar o peito cabeludo. Sentado com as pernas estendidas lateralmente no sofá cor de rosa, observa, contido. Quem o visse dificilmente identificaria o cantor Ney Matogrosso transfigurado no palco, deixando-se tomar pela emoção.

O eterno e profundo contraste entre Souza Pereira e Matogrosso desnuda-se quando o canto questiona os limites impostos aos mundos masculino e feminino, mas é na timidez deste momento que a diferença abissal entre os dois chega a ser constrangedora. O homem pacato e retraído e o exuberante da manifestação artística. Uma espécie de esquizofrenia que se serve do palco para mobilizar energias e se equilibrar. Como se a sanidade mental de Souza Pereira estivesse dependente de Matogrosso.

Ele domina os caminhos que o conduzem para fora dos eixos convencionais e procura uma maneira instintiva de atrair reacções contrárias da sociedade. Sem ser panfletário, quer provar que é preciso desafiar as pessoas. De forma conscientemente subversiva mexer com as consciências. Abanando-as.

Em 1974, com 11 anos, assisti pela primeira vez à sua performance, numa altura em que os Secos e Molhados apareciam como objecto de escândalo nos jornais cariocas. Vê-lo em cena – com os olhos arregalados de espanto e admiração – foi como que uma lufada de liberdade para uma criança habituada a apanhar umas bofetadas do padre e do professor.

Aquela contorcida figura de corpo e rosto pintados, grinalda na cabeça e franjas amarradas à cintura e às coxas, partes íntimas amenizadas por um tapa sexo, precipitou a minha maneira de encarar a liberdade do Outro.

Com as pernas na mesma posição, mão sensual aparando a cabeça docemente recostada, Souza Pereira lembra-me os tempos em que tinha “brigas feias” com o pai por se assumir como “hippie”, por querer derrubar regras, limites e preconceitos impostos. Que pretendia com a rebelde manifestação artística movida a desacato? “Desenvolver e libertar o espírito e o corpo, ligar o inconsciente ao divino”, diz-me, dócil, citando em canto Raul Seixas: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante/ Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.


   

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Comentários

  • 30 May, 2016

    Nossa realmente é fantastico o Ney fiquei arrepiada com esse texto. Emoção sem igual..

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