3 de Fevereiro de 1959: a longa caminhada para o fim e a morte de Buddy Holly
No início era o Elvis e o rock florescia. O homem de Tupelo, Mississipi, e que tornou a cidade de Memphis mundialmente conhecida pode não ser o primeiro rock n’ roller, mas Adão e Eva também não foram os primeiros homens. No entanto, na génese, quando decidiu gravar em 1954, por mera brincadeira, a cover de “That’s All Right (Mama)”, nos Sun Studios de Sam Phillips e este levou o single que continha no lado B “Blue Moon of Kentucky” a Dewey Phillips da estação de rádio WHBQ, o disco não mais parou de tocar. Podemos dizer, a título de cliché, que o resto é história, mas uma história que merece ser contada. Apenas não o vai ser aqui.Para o que nos interessa, o êxito de Elvis Presley abriu as portas do rock ao mainstream e isso significava airplay na televisão, o que aconteceu no “Milton Berle Show” e no “Steve Alenn Show”, onde Elvis ganhou a alcunha de “Pelvis”, devido a um improviso no final da canção “Hound Dod” em que o performer se abanou como um stripper profissional.O sucesso produz réplicas e Elvis arrastou outros artistas, que começaram a praticar a mesma sonoridade ou, pelo menos, uma sonoridade que fazia crescer e disseminar o conceito de rock. Nomes como Carl Perkins, Chuck Berry, Johnny Cash, Jerry Lee Lewis, Roy Orbison, Little Richard, Buddy Holly, entre outros, beneficiaram do ‘efeito Elvis’. Por outro lado, as grandes editoras, como a Columbia Records, orgulhavam-se de não ter assinado nenhum artista rock, pois consideravam que este género era uma moda passageira e, mais cedo ou mais tarde, a música regressaria à pureza de 1945. A partir de 1957, a sucessão de eventos parece dar razão a esta corrente. Little Richard, detentor de êxitos como “Tutti-Frutti”, “Good Golly Miss Molly” ou “Long Tall Sally”, decide abandonar a lides do mundo do espetáculo para pregar como pastor evangelista. A história da sua conversão é, no mínimo, insólita, e podemos afirmar que o comunismo ajudou. Em Outubro de 1957, Little Richard partiu para uma digressão australiana com Eddie Cochran e Gene Vincent. Num voo entre Melbourne e Sidney, afirmou ter visto os motores do avião quase a explodirem e que teriam sido anjos a aguentá-los. Já em Sidney, viu um clarão vermelho no céu e interpretou aquilo como um sinal de Deus quando, na realidade, se tratava do lançamento soviético do satélite Sputnik 1. Decidiu então regressar aos Estados Unidos dez dias antes do previsto e soube, mais tarde, que o voo que tinha marcado originalmente despenhou-se sobre o Pacífico. Era o sinal que faltava. Abraçou a teologia e abandonou o rock and roll.No ano seguinte, foi a vez de Jerry Lee Lewis. Não abandonou o rock, mas foi obrigado a fazê-lo. No ano de 1958, sobreveio o escândalo. Soube-se que o seu casamento com a terceira mulher, Myra, foi feito de forma ilegal, uma vez que se tratava de uma prima, tinha apenas 13 anos e o seu segundo casamento ainda não tinha terminado. Ainda em 1958, é a vez de Elvis Presley adiar o rock, com a incorporação no exército durante dois anos.Em 1959, as editoras grandes estavam a perder quota de mercado para as editoras independentes e movem a sua influência em Washington, de modo a que o Estado investigue o sucesso do rock, uma vez que só podia estar a acontecer por batota. Esta ficou conhecida como a “investigação Payola” e focou-se na questão ‘pay for play’, em que as editoras pagavam aos disc jockeys para passarem os seus discos. As multas foram aplicadas e, quer editoras grandes quer editoras pequenas, foram afetadas, mas as grandes mantiveram-se no ativo, enquanto muitas pequenas sucumbiram. O resultado mais nefasto foi o das rádios se terem tornado mais conservadoras. Também em 1959, Chuck Berry cai em desgraça, quando é preso por violar o ‘Mann Act’, uma lei que proíbe o transporte de menores entre dois estados. Em 2 de Fevereiro, Buddy Holly, o homem que havia feito digressões com Elvis Presley, líder dos Crickets, morre num acidente de avião, em Mason City, que caiu pouco tempo depois de ter descolado. Trata-se de uma morte que foi vista como epítome de uma morte mais abrangente: a do rock and roll.





