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Luís Represas: a música, a criatividade e a carreira que poderia ter seguido

Luís Represas: a música, a criatividade e a carreira que poderia ter seguido

 

Reencontros. Novos temas. Diferentes atmosferas. Assim se define “Fora de Mão”, o álbum de originais de Luís Represas que chega ao público em 2003. Para a elaboração deste trabalho, o músico contou-me, em entrevista, que se rodeou de amigos de longa data, como Miguel Nuñez e Luís Fernando e, ainda, a Orquestra Sinfónica Nacional da República Checa.

“Da próxima vez” foi o primeiro single extraído do disco e que contou com videoclip – ou uma curtíssima-metragem, como Luís Represas lhe preferiu chamar – realizada por Leonel Vieira.

Mais de dez anos depois, volto a trazer esta entrevista à luz do dia. Desde então que Luís Represas lançou mais 7 álbuns e colaborou com inúmeros nomes da música contemporânea portuguesa, como Margareth Menezes, André Sardet, Rui Veloso e José Cid. Isto, claro, para não falar da sua presença nos palcos que ainda se mantém assídua.

Nesta entrevista, feita na altura do lançamento de “Fora de Mão”, falou-me de como acontece o seu processo criativo, da necessidade de assimilar um trabalho antes de partir para outro e de como poderia ter seguido medicina se a música (e a matemática!) não tivesse cantado mais alto.

Goreti Teixeira (GT): Neste novo álbum rodeou-se de pessoas com quem já tinha trabalhado, nomeadamente o Miguel Nuñez e a Orquestra Sinfónica Nacional da República Checa. É um trabalho feito de reencontros?

Luís Represas (LR): No caso do Miguel Nuñez demo-nos conta, durante a gravação, que já tinham passado dez anos sobre o meu primeiro álbum a solo, “Represas”, gravado em Cuba. Justamente o primeiro trabalho que fiz com ele. A partir daí passaram muitos anos. Fizemos muitas coisas juntos e com outros músicos, tivemos caminhos diferentes e outros paralelos, nomeadamente a gravação do disco a “Hora do Lobo”, em 1998. Nunca nos perdemos de vista, reforçamos laços musicais, profissionais e pessoais e, de repente, quisemos voltar a encontrar-nos. Já havia muita coisa para dizermos um ao outro e na elaboração deste disco tivemos a oportunidade de partilhar experiências.

Outra coisa que também me dei conta foi perceber que em vinte e muitos anos que conheço o Luís Fernando nunca tínhamos trabalhado juntos. De facto estas três pessoas que se juntaram – eu, o Miguel Nuñez e o Luís Fernando para assegurar a produção do disco – temos muitos antecedentes e apesar de não ter sido uma coisa muito programada, houve um tomar de consciência que havia aqui um reencontro. Não é somente um reviver de coisas, mas o pôr em cima da mesa muita vida passada e presente.

O facto também de voltar a gravar com a Orquestra Sinfónica da República Checa foi um pouco o cumprir de uma promessa feita na altura em que gravei o álbum “Reserva Especial”, em Praga. Ficámos com uma óptima relação e disseram que quando fizesse um outro trabalho em que precisasse de uma orquestra eles estavam de portas abertas para me receber. Neste álbum existiram uma série de pontos que coincidiram e que provocaram estes reencontros.

GT: Em “Fora de Mão” reúne Portugal, Cuba e Republica Checa. Fez novas descobertas por estes lugares que lhe são familiares?

LR: Estamos sempre a descobrir coisas novas, nomeadamente a maneira como deixamos patente a nossa cultura, sem no fim de contas esmagarmos aquilo que estamos a fazer. Isso tem a ver com a sabedoria que se vai adquirindo ao longo dos anos. Refiro-me, nomeadamente ao Miguel Nuñez, cubano que é e com o mundo que tem, consegue chegar a um novo trabalho e não o esmagar. Tem sempre um enorme respeito pela personalidade e a cultura do próprio compositor. Muitas vezes essas coisas passam de uma maneira tão subliminar que não é imediatamente audível e identificável ao grande público, mas que está lá e nós sabemos onde está.

GT: Considera Cuba como uma segunda pátria? Pergunto-lhe isto porque na altura do seu primeiro álbum li que partiu para Cuba para melhor se conhecer enquanto músico e compositor. Também foi um bocadinho isso que voltou a procurar?

LR: Não. Aqui não há uma saída para Cuba. Entre 1993 e 2003 já lá fui uma dezena de vezes. Todas as pessoas que viajam têm a tendência de ter um país de adopção e Cuba, desde há muitos anos, sempre o foi o meu. O ter voltado a trabalhar com o Miguel Nuñez não tem tanto a ver com o trabalhar com Cuba, mas mais com o trabalhar com aquele músico, que por coincidência é cubano.

GT: O que de especial e diferente tem este trabalho em relação aos anteriores?

LR: Quando me fazem esta pergunta existem duas respostas que me surgem no imediato. A primeira é que a grande diferença está nos doze novos temas que compõem o álbum. Doze músicas que trazem novas atmosferas e histórias. Por outro lado, seria aborrecido estar aqui a tentar descobrir diferenças que, provavelmente, não interessam à maioria das pessoas, mas que eu sei e sinto que elas existem. Quando compro um disco de alguém que gosto e que tenho acompanhado, não estou preocupado a tentar perceber quais as diferenças em relação aos anteriores. Quando me sento a ouvi-lo, o que quero é saber o que sinto, o que é que ele me trás, se me revejo ou não nele e se gosto ou não das coisas que ouço. Quem tem essa preocupação de perceber se há alguma coisa diferente em relação aos outros discos que fiz, então que se sente tranquilamente e o ouça e se quiser dar-se a esse trabalho que descubra as diferenças. É de facto um álbum muito mais cru do que os outros, embora muitas vezes esteja envolvido em instrumentações maiores, mas que se formos analisar são extremamente simples e carnais. No meio deste disco o que se procura é a simplicidade dentro daquilo que aparentemente não é.

GT: No terceiro tema “Acontece” fala de desencontros, do amar fora de mão. O Luís alguma vez amou fora de mão?

 

LR: Acho que todos nós, na nossa vida, temos percalços afectivos. Alturas em que temos momentos de desencontro, mas que se não acontecessem a vida seria uma chatice.

GT: Apesar de preferir chamar de mini-filme, o videoclip do tema “Da próxima Vez” foi feito pelo realizador Leonel Vieira. Como é que surgiu esta ideia?

LR: Quando trabalhei com o Jorge Paixão da Costa, no vídeo do “Fire and Rain”, do álbum Reserva Especial, fiquei um pouco com este conceito mais cinematográfico e não tanto de videoclip. Para este tema também queria um discurso mais neste registo e como o Vicente Carvalho conhece o Leonel pessoalmente foi-lhe proposto este desafio. Conversamos, apresentei-lhe esta canção como se fosse o guião de um filme dele e disse-lhe: “enquanto realizador constrói uma curtíssima-metragem sobre aquilo que tem mais a ver com esta história”. E foi o que ele fez e saiu um mini-filme magnífico.

GT: Só parte para um novo trabalho quando o anterior já foi assimilado, digerido e esgotado. É por essa razão que entre cada disco existe um interregno de um ou dois anos? É o tempo ideal para que saia um álbum de qualidade e como deseja?

LR: Uma coisa não pode cavalgar a outra. Se são trabalhos com características completamente diferentes daquilo que falo actualmente, então podem ser feitas logo a seguir a um disco, porque não se misturam. No entanto, quando se trata de disco de autor, de uma continuidade de carreira, há que digerir primeiro o que se fez. É necessário ganhar palco, o disco tem que ser assimilado e processado para se dizer que já aprendi tudo o que queria com este disco para partir para outro.

GT: O acto criativo é para si solitário ou social?

LR: Muito solitário. No entanto, tudo aquilo que me leva a compor e que depois transparece e aparece na composição não é de todo um acto solitário, mas toda uma vida em sociedade. Daí surgem todas as experiências que são adquiridas e que, posteriormente, são projectadas para o papel. Mas o acto de escrita em si é solitário e egoísta. Um acto de grande sensibilidade em que estou com o sentimentos à flor da papel.

GT: Se o Luís Represas não fosse músico, quem seria hoje?

LR: Provavelmente um médico e se o fosse seria um bom médico, porque é uma profissão pela qual tenho enorme paixão.

GT: E porque não seguiu, a música falou mais alto?

LR: A música fala muito alto desde que me conheço. A grande questão foi que naquela altura não haviam muitas escolas de música. A opção seria ir para o Conservatório ou fazer qualquer coisa menos credível. O primeiro entrave para não seguir medicina foi a obrigatoriedade de ter Matemática como disciplina nuclear. Como sempre fui um péssimo aluno tomei isso como um obstáculo que se avizinhava difícil de transpor. Por outro lado, o 25 de Abril despertou-me para muitas outras coisas. Foram tempos que agarrei com as duas mãos, com uma avidez enorme de conhecer coisas novas e de viver aquele momento. De repente, a música surgiu e tudo se desenrolou por esse caminho.

GT: Considera que ainda é difícil ser músico em Portugal?

LR: Realmente as coisas estão diferentes, mas ainda existem situações complicadas. A indústria está em crise, existe uma proliferação enorme de apostar no descartável, no consumo rápido e nas coisas que são de fazer dinheiro, mastigar e deitar fora. Neste momento, não há a preocupação de agarrar aqueles que realmente têm projectos sólidos. Isso faz com que não estejamos a criar nada de futuro ou pouco de futuro garantido.

   

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