Home / Histórias de Bastidores /

Jay-Jay Johanson, a beleza da dor e as lembranças que inspiram

Jay-Jay Johanson, a beleza da dor e as lembranças que inspiram

 

Trazia no olhar algo de dramático, de assustador, como se me quisesse dizer em surdina que assassinou alguém que depois enterrou numa floresta. Nele vislumbrava ainda pedaços de lascivas intoxicações e enigmáticas alusões à loucura. Sabia do seu estado de perpétua metamorfose, que lhe confere um estatuto de mistério e enigma, mas naquele dia do ano 2000 parecia que o Mundo ia desabar sobre si, soterrando-o.

Porque está assim Jay-Jay?

“Estou mal. Parece que a minha vida perdeu todo o sentido e o amor não é mais possível. Estranhamente, é em horas como esta que a minha inspiração cresce e se revela, que faço do papel confidente, espécie de diário construído de desabafos. Só neste estado dilacerado sou capaz de criar com substância e profundidade”.

Gosto dele, confesso, aprisionei-me àquela dor, postura de gentil melancólico e, também eu, me deixei envolver naquela teia de desamores dolorosamente sentidos. Definitivamente há beleza na dor e Jay-Jay Johanson é provavelmente um dos seus expoentes máximos, cutucando-me de mansinho como que para não doer de uma só vez.

Falava-me como canta de adeus magoados, destilava emoções, conflitos internos, depressão profunda. O que me comoveu é que sentia nele uma vontade demente de ficar de bem com a vida, como se projectasse a todo custo a conquista da sorte que parecia fugir-lhe por entre as nebulosas sombras de um destino inevitavelmente marcado para sofrer, sofrer para criar, criar para ter e dar sofrido prazer. Uma bola de neve tão gélida quanto a sua Suécia natal, reino de beleza e suicídio.

 

Sentia-o, e à sua exorbitante determinação em ser justo com os outros, como se para padecer bastasse ele. Ao longo da conversa navegámos entre a doçura e o drama, fracturas do coração expostas e tatuagens íntimas que se tornaram ainda mais relevantes com as lágrimas. Naquele momento de pranto percebi que facilmente esqueceremos com quem rimos. Na gaveta da minha memória, guardada até hoje a sete chaves, mantinha intactas as gotas que ele deixou cair por entre confissões e laços conquistados nas afinidades ao primeiro olhar.

Mas porque tanto se lamuria Jay-Jay Johanson? “Doem-me as lembranças das histórias de paixões não correspondidas e das rejeições que dão vida e morte a tudo o que faço”.


 

Partilhar este artigo

Deixe um comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *