Home / Fado /

Gisela João: a voz do fado que, sendo nova, já é gigante

Gisela João: a voz do fado que, sendo nova, já é gigante

 

Em 2013, nos corredores do fado onde já se moviam grandes e novas vozes, surgia uma figura pequenina como a sardinha. Com sotaque do norte, punha o xaile de lado e agigantava-se naturalmente para interpretar um género que, sendo velho, sempre se conseguiu reinventar. Chamava-se Gisela João, tinha uma voz crua, pouco polida, e sem grandes artifícios impunha-se como só ela sabia.

Vinda de Barcelos, a mais recente fadista sensação chegava agora aos grandes palcos e era nome frequente em entrevistas da rádio e televisão. O motivo era a apresentação do disco, mas quem assistia não conseguia ficar indiferente à espontaneidade da artista. Sem o peso do fado sobre os ombros, Gisela respirava aquilo que era uma visão muito própria do género que cantava.

gisela-joao-albumDefensora de que a música deve ser um espelho do que o fadista sente, a artista discorda dos que afirmam que fado só é verdadeiramente fado se for triste. A prova desta afirmação está presente no álbum de estreia, onde conjuga temas como Madrugada Sem Sono e o popular Bailarico Saloio. Como já percebeu pela imagem, é precisamente deste disco que lhe falamos neste post, mas antes disso, parece-nos interessante fazer uma pequena retrospetiva ao passado de Gisela João.

Tudo começou muito cedo. Gisela era a mais velha de 7 irmãos numa família grande, mas sem grande ligação à música. O primeiro contacto com o fado surgiu ainda na infância de forma espontânea e natural. Antes disso, numa ida ao rio com outros miúdos da sua idade, percebeu que tinha algum jeito para as cantigas. Estava no carro do tio – um fã assumido de Rui Veloso – quando percebeu que conseguia imitar trejeitos e fazer com que a voz chegasse onde as outras crianças não chegavam. Na altura ignorou porque, afinal, na infância todos gostamos de cantar.

Festivais da canção – que na altura paravam o país – aproximaram a pequena Gisela da música, até que num certo dia a vizinha resolveu ensinar-lhe os primeiros fados (entre eles, o célebre Ai Mouraria, eternizado por Amália). Depois disso, começou a cantar pelos cantos da casa nos minutos que sobravam da azáfama doméstica: Gisela costumava tomar conta dos  irmãos mais novos e, como tal, podemos dizer que a banheira foi um dos seus primeiros palcos. O espetáculo normalmente tinha uma duração considerável, até que o pai ameaçava fechar o gás.

Numa altura em que os Onda Choc estavam na moda, Gisela João começou a atuar (para deleite dos professores) nas festinhas da escola. Os colegas não achavam lá muita piada ao fado, mas a verdade é que o gosto se manteve – de tal forma que, com 16 anos, iniciou-se nos palcos mais a sério a cantar na Adega Lusitana, um restaurante de Barcelos que, aos sábados, servia as refeições com atuações ao vivo.

Gisela João: das modas às canções

Apesar do jeito para cantar e de uma atuação aqui e acolá, nunca passou pela cabeça de Gisela ser fadista a nível profissional. Quando questionada sobre o que queria ser quando fosse grande, a artista respondia sempre que o seu sonho era ser designer de moda. Foi para o Porto com essa convicção, arranjou um trabalho como vendedora de loja e tinha ideias de começar a estudar o tal do design. Apesar dos planos, o destino trocou-lhe as voltas e hoje dizemos que ainda bem que as trocou.

Certo dia na cidade Invicta, a recém-chegada barcelense teve vontade cantar. Sem conhecer ninguém, dirigiu-se até a uma casa de fados na Ribeira e quando lá chegou pediu para cantarolar “uns faditos”. O pedido foi-lhe negado, mas em vez disso foi convidada pelo dono a sentar-se à mesa – mal sabia ele que ela vinha de bolsos praticamente vazios. A comida ia chegando e a cabeça de Gisela já começava a pensar em desculpas para se esquivar à conta. Isto quando é novamente chamada pelo mesmo senhor, que afinal lhe decide dar uma oportunidade. Pondo em risco o nome da casa, o dono (que nunca tinha ouvido a fadista) pediu desculpa de antemão no caso de as coisas correrem mal.

Surpresa: e não é que não correram? No final, Gisela João foi aplaudida e um fadito deu lugar a mais dois ou três. Quando acabava, faziam-lhe gestos para ir continuando a entreter o restaurante repleto de turistas. No fim do espetáculo, em vez da conta, recebeu um papel em branco para escrever o número de telefone e, no dia seguinte, voltar à casa de fados com o mesmo repertório.

Com o fado, o curso de design acabou por ficar pelo caminho, mas a verdade é que o gosto pela moda acabaria por se refletir no seu estilo em palco. Em vez do preto e do xaile, Gisela João apresenta-se com roupas diferentes, normalmente pouco associadas ao género que canta.

Sem aulas de canto, a fadista começou a distinguir-se pela intensidade das suas performances e pela forma como a mesma canção nunca era cantada da mesma maneira. Atraindo os olhares de forma quase magnética, Gisela João transmitia qualquer coisa pura, algo que se notava que era sentido.

 

Entre cantigas, foi convidada para integrar o seu primeiro projeto “a sério”, que culminou no álbum O Meu Fado. Mais tarde, entregou o projeto do instrumentista Fernando Alvim e gravou com os Atlantihda.

O sucesso chegaria com a ida para Lisboa. Na capital, integrou-se no circuito musical e começou com atuações nos principais bairros da cidade. Só por volta de 2010, 2011 é que lhe passou pela cabeça investir numa carreira como fadista assumida e foi então que surgiu a oportunidade de postar num disco em nome próprio.

O álbum foi lançado no dia 1 de julho 2013 e fez com que se tornasse conhecida do grande público. Com este trabalho, ganhou o prémio Amália para revelação do ano e foi mencionada nos grandes órgãos de comunicação social, do Público à Blitz.

Gisela João e o fado que nunca é o mesmo

No disco que tem o seu nome, Gisela João canta inéditos e deixa homenagens a clássicos que a viram crescer. Como há pouco dissemos, o disco é capaz de traduzir as várias facetas de Gisela João. Cada canção é interpretada palavra por palavra, mas quem já viu a artista ao vivo concorda seguramente quando dizemos que as interpretações em palco são ainda melhores do que as versões gravadas.

Nos cerca de 3 minutos de cada canção, Gisela João vive a personagem que é ela própria, encontrando dentro de si o sentido para cada sílaba. Do lado mais alegre e sempre bem-disposto, passamos para uma faceta mais triste e saudosa. A mesma energia com que canta temas mexidos é transposta em intensidade para canções como a primeira, Madrugada Sem Sono.

O tema fala-nos de saudade, paixão e de uma espera que dura há tempo demais. Sozinha, a fadista fala de ciúmes, de despedidas e de mágoas de uma (desculpem a redundância) madrugada sem sono, passada em claro à volta destes temas. O disco segue com Vieste do Fim do Mundo, uma canção sobre regresso repentino, inesperado da pessoa amada. A música foi um dos singles retirados do álbum e para a ouvir só tem de clicar no play.

Na mesma faceta mais triste, enquadram-se Meu Amigo Está Longe, popularizada por Amália Rodrigues e que acaba por ganhar mais significado com a emigração jovem; Voltaste, uma visão diferente sobre o regresso, desta vez muito aguardado; e Sei Finalmente, também de Amália Rodrigues. Da mesma fadista, mas num lado muito diferente, Gisela João brinda-nos num muito popular e dançável Bailarico Saloio, onde “não há nada que saber / é andar com um pé no ar e outro no chão a bater”.

Na mesma linha encontramos também aquela que é provavelmente uma das músicas mais conhecidas, mesmo sem ter sido single. Falamos da versão de Gisela João de (A Casa) da Mariquinhas, com a mesma melodia do tema original, mas com uma letra completamente diferente. A canção  é uma crítica ao estado do país e do próprio fado. Ouçamos com atenção.

Depois de um grande álbum, Gisela João percorreu o país com as suas canções. Na passagem de Joss Stone por Portugal, a artista britânica fez questão de conhecer a fadista e juntas chegaram mesmo a cantar um fado. Este foi só um dos muitos pontos da carreira ainda jovem de Gisela que, apesar de ser uma nova voz, já tem um lugar na música portuguesa.

Recentemente gravou Cansada, o novo Hino da APAV (Associação do Apoio à Vitima), juntamente com sete outras cantoras. A letra é do jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho. Também gravou com Camané, numa colaboração para o novo disco do artista do fadista que há pouco tempo era seu ídolo, alguém que achava que nunca viria a conhece.

 

Partilhar este artigo

Deixe um comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *