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Fernando Tordo, uma verdadeira jóia… ou será que não?

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Fernando Tordo, uma verdadeira jóia… ou será que não?

 

Há uns anos atrás fui encontrar-me com a brasileira Joanna a Óbidos e no meio da conversa diz-me ela naquele seu jeito másculo: “ontem tive uma noite maravilhosa pois jantei com uma pessoa adorável”.

Pensando eu que lhe ia sacar algum segredo lésbico fiquei com o ouvido ainda mais alerta, vi-a erguer a coluna já de si demasiado hirta, e exclamar, sorridente: “…o Fernando Tordo, uma pessoa realmente fantástica, uma verdadeira jóia”.

“Verdadeira jóia? Será que mudou assim tanto” pensei comigo mesmo, enquanto recordava um certo fim de tarde de Setembro de 1994 em que me encontrei com o homem da tourada num hotel do Porto. Estava ele e Carlos Mendes – que me pareceu ter bom coração – aguardando-me no bar, estendeu-me a mão com ar de mal-humorado e quase de rajada afirmou: “ao contrário de muitos críticos de música que não me respeitam, eu digo o que penso sem faltar ao respeito a ninguém”.

Certo. Mas refere-se a quem?

“A um colega seu que escreveu uns disparates sobre o programa que tenho com o Carlos Mendes, o “Falas tu ou falo eu”. E isso, eu não admito”. Estive para lhe dizer que não tinha nada a ver com esse colega, nem com o jornal em que escrevia, nem com esse igualmente disparatado programa, mas preferi calar-me.

 

O homem estava com o dedo em riste, como se me quisesse intimidar, e eu, mesmo que novato nestas coisas, preferi ignorar os desaforos. Confesso que já o vi outras vezes mas nem ousei chegar perto porque aquela primeira impressão do homem da “Tourada” foi péssima. Recordo-o crispado, a revolta na palavra como ferida aberta: “É uma infelicidade nascer num país que rejeita os seus valores e em que a cultura é completamente esquecida. É que enjeitando os artistas governa-se com mais facilidade”.

Tudo bem mas não precisa gritar, pensei.

O pior foi quando lhe falei dos festivais da canção porque aí a agonia parece que cresceu: “Tem que perceber que esses festivais eram o supra-sumo da divulgação da música do país. Aliás, era nessas alturas que se faziam declarações que, muitas vezes, tinham mais impacto do que as dos chamados cantores políticos”.

Enquanto falava quase a gritar, chegando a bater com a mão no tampo da mesa e a receber olhares franzidos de alguns pessoas que cochichavam à nossa volta, enfatizou que um dos seus objectivos era rever a célebre máxima “façam amor não façam a guerra”. Agora imaginem se assim não fosse…

   

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