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O Som do Silêncio: Morte, Depressão, Música, Melancolia, Salvação

O Som do Silêncio: Morte, Depressão, Música, Melancolia, Salvação

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Este artigo celebra o poder da Música. E é totalmente dedicado ao meu Pai e à minha Mãe, que não apenas me deram a Vida, como também me transmitiram de forma natural e livre o prazer sublime de ouvir Música.

Ela é a única Arte que conheço que tem a rara capacidade para penetrar num ser humano mergulhado num estado profundo de dor, desilusão, tristeza ou desespero. Pelo menos para mim, a Música tem a capacidade de furar qualquer barreira física e emocional, influenciando o meu estado de espírito como deseja, como se fosse um feitiço.

E sei que não sou caso único: ao longo de toda a humanidade esta Arte misteriosa e invisível revelou ser profundamente essencial para os seres humanos. Além de que conheço pessoalmente aficionados musicais que são provavelmente mais viciados do que eu!

Mas assim aconteceu comigo ao longo de toda a minha vida, durante a qual apenas revigorei energias, forças e motivações em determinados momentos por causa da Música.

Nos últimos tempos, desde o suicídio do Chris Cornell para ser mais exato, tenho pensado bastante nesta minha ligação com a música, sobretudo para tentar compreender a importância que ela assumiu diversas vezes na minha vida, sendo fulcral na minha personalidade.

Na verdade tenho tentado compreender por que raio sou tão obcecado com esta arte maravilhosa, que sempre me guiou, marcou ou ajudou como se fosse um amigo, ou melhor, um familiar querido que me dedica a sua atenção, orientando-me nos sinuosos caminhos da realidade.

E nessa minha tentativa de compreensão tive de ir ao fundo da minha memória para redescobrir e assinalar a primeira vez que a Música se revelou muito mais do que apenas um conjunto de melodias, ritmos, vozes, sons. Foi assim que nasceu este texto.

A minha Mãe, eu e o meu irmão.

O meu irmão, o meu Pai e eu.

O som do silêncio

A primeira vez que me lembro de sentir deprimido na vida tinha 10 anos de idade. Numas férias de Verão, os meus pais inscreveram-me numa colónia de férias na Figueira da Foz, que fica a uma distância de 150 km da cidade do Porto onde vivia com eles e o meu irmão.

Na colónia de férias estavam cerca de 200 crianças de diferentes idades que eu nunca tinha visto, e lembro-me distintamente de sentir-me sozinho, pouco integrado, desconfortável, com imensas saudades de casa na primeira noite em que os meus pais me deixaram. O meu irmão estava também presente, mas inserido num outro grupo de jovens da idade dele (eu sou mais novo 3 anos). Isolado e triste, eventualmente lá acabei por adormecer com o coração apertado.

Contudo, no dia seguinte fomos logo de manhã para a praia enorme da Figueira da Foz, onde brincamos e fizemos todo o tipo de concursos e jogos, incluindo provas de estafetas e corridas na areia. Cheguei a ganhar uma medalha pelo primeiro lugar numa corrida de velocidade, o que melhorou imediatamente a minha capacidade de integração. Lembro-me da sensação de orgulho encher o meu espírito e alma como poucas vezes tinha acontecido na minha existência breve.

Adorei completamente as horas que passamos na praia. Foi muito divertido e ao final da manhã sentia-me muito melhor e mais animado em comparação com o dia anterior quando cheguei à Figueira da Foz. Afinal, a colónia de férias prometia ser muito divertida e tinha potencial para ser uma semana em cheio! Até que chegou a hora de irmos todos para o mar.

Ah, que alegria! Éramos muitas crianças felizes e ruidosas numa manhã perfeita de Sol com o cheiro da maresia a inundar os meus pulmões. O grupo todo avançou para as águas salgadas que banham a costa portuguesa e durante largos minutos assim ficamos: a chapinhar, nadar, brincar, saltar, pular e empurrar. A alegria era tanta que nem sequer consigo defini-la.

Porém, num instante em milésimos de segundo tudo mudou. No momento em que estávamos a sair do mar, eu ainda tinha a água pelos tornozelos, alguém começou a berrar, chamando alto pelo nome de um rapaz, que por alguma razão não respondia.

E nunca chegou a responder.

O afogamento súbito foi confirmado pouco depois. Todo o grupo foi informado e afastado uns metros do local. Apesar de recordar claramente hoje, quase 30 anos depois, que assisti às tentativas de salvamento da criança, que poucos minutos antes era igualzinho aos outros, a nós, a mim, na verdade a minha memória simplesmente apagou as imagens do meu disco duro cerebral. Não tenho as imagens, apenas a certeza que a memória distante deixou ficar.

Não consigo recordar mais nenhum facto sobre este incidente.

Foi a primeira vez que vi a Morte.

Poucas vezes permiti a mim próprio recordar ao longo da vida esta grande tragédia que se desenrolou à minha frente, talvez devido ao mesmo mecanismo mental que apaga as memórias dolorosas que todos acumulamos em detrimento dos melhores momentos que vivemos.

Sei que provocou um trauma na minha alma com o qual lidei ao longo dos anos. Estava tudo bem e no segundo seguinte tudo ficou mais escuro. Silêncio. Tenho uma espécie de branca total sobre o que se passou a seguir.

Não me lembro de sair da praia, do almoço ou jantar desse dia, nada. Não faço a mais pequena ideia se falei com os meus Pais ou com o meu irmão, se alguém falou comigo, se existia apoio psicológico. Zero.

Apenas me recordo de estar sozinho, deprimido, muito cabisbaixo, silencioso, quietinho como um passarinho, durante horas a fio numa sala de jogos da colónia de férias. Nem sequer consigo afirmar com clareza que já tinha passado um ou dois dias desde o afogamento. Não sei!

Recordo-me no entanto com extrema clareza de me ver a mim próprio olhando do lado de fora, numa perspectiva exterior, como se estivesse a ver um filme onde eu sou o protagonista.

Sem ninguém por perto, joguei mikado durante muito tempo, completamente absorto, num estado de apatia total. Quando os pauzinhos todos caíam, voltava a fazer a estrutura completa para tirar um a um, até tudo tombar novamente. Sentia imensa vontade em sair da colónia de férias, mas não podia fazê-lo. Estava muito afectado psicologicamente. Estava parado no tempo e espaço. Catatónico.

E, de repente, lembro-me distintamente de começar a ouvir uma música ao longe que conhecia bem, pois felizmente os meus pais sempre gostaram e tocaram muita música em casa.

A melodia foi ficando mais alta e perceptível. Era a canção “Up Where We Belong” interpretada pelo grande Joe Cocker e Jennifer Warnes. Era um grande hit da rádio naquela época, não apenas porque fazia parte da banda-sonora do filme “An Officer and a Gentleman” (A Força do Destino no Brasil ou Oficial e Cavalheiro em Portugal), mas porque é de facto uma canção linda! Era uma música que conhecia perfeitamente de trás para a frente, porque os meus pais adoravam-na e ouvia-a muitas vezes em casa ou no carro.

E nesse momento, pela primeira vez, o meu estado letárgico foi alterado, senti-me melhor, muito melhor, estupendo aliás, comecei a recordar os cheiros da comida da minha mãe, a ouvir as piadas do meu pai, a sentir os empurrões do meu irmão. Chorei intensamente de forma compulsiva durante largos minutos, e senti-me tremendamente aliviado, afinal existia algo mais além deste estado silencioso e escuro provocado pela morte súbita do menino afogado no mar da Figueira da Foz.

As primeiras palavras de Jennifer Warnes foram um gatilho que espoletou uma reacção física, emocional e espiritual muito forte, particularmente intensa. Ainda agora parece que consigo sentir o meu corpo estremecer neste preciso momento em que escrevo este texto e em que estou a ouvir essa música.

Claro que não entendia bem a letra de “Up Where We Belong” na altura, mas agora olhando para as palavras fico arrepiado pela mensagem inerente que essa grande canção transmite:

 

“Who knows what tomorrow brings

In a world few hearts survive

 

All I know is the way I feel

When it’s real, I keep it alive

 

The road is long

There are mountains in our way

But we climb a step every day

 

Love lift us up where we belong

Where the eagles cry

On a mountain high

 

 

Love lift us up where we belong

Far from the world below

Up where the clear winds blow”

 

 

Um momento revelador e inesquecível

De certa forma, interpretando agora tudo o que se passou, creio que voltei a sentir, acordei novamente para a vida naquele instante. A música atravessou o meu estado de alma, revigorando-a, transformando-a, de uma maneira que nenhuma conversa, toque, abraço, ou carinho anterior tinha feito.

A Música devolveu-me a Vida, assim sem avisar. Nunca esqueci aquele longo momento de silêncio interior quebrado por essa canção.

Acredito que cada pessoa tem as suas razões para gostar ou não de música, ou cinema, ou literatura, ou qualquer outra arte, entretenimento, hobby, qualquer coisa.

Eu estou no grupo dos obcecados por Música. Sou um melómano convicto que acredita que somos melhores através da Música, que somos mais humanos devido a esta arte milenar e sagrada.

Tenho uma longa e duradoura obsessão por ouvir Música, sendo que ela não apenas faz parte do meu quotidiano, como é de longe a minha melhor companhia não humana!

A Música nunca falha, nunca falhou: em todos os momentos bons e maus da minha vida, ela esteve sempre ao meu lado, dando-me conselhos, desvendando pistas, criando pontes, esclarecendo ilusões, alimentando esperanças.

E como é óbvio nem todas as pessoas gostam, sentem, compreendem ou assimilam a Música da mesma forma e intensidade. Eu próprio sei que, apesar da minha paixão imensa pela Música, existem fases, momentos, épocas em que estive menos alerta sobre os seus poderosos efeitos ocultos. Também ouvi e ouço muita música de forma recreativa, felizmente nem sempre tenho esse peso em cima.

O que eu quero dizer é que cada pessoa tem a sua história de vida, cujas particularidades determinaram uma maior ou menor intensidade na paixão que nutrem pelas Artes, sejam elas quais forem.

A minha paixão levou-me anos mais tarde a tocar bateria, fazer parte de bandas, escrever canções, dar concertos, gravar em estúdio.

Fui um músico amador que teve a sorte de privar com músicos profissionais e durante uma boa parte da minha vida a Música ocupava a maioria do tempo do meu quotidiano. Ela esteve no centro da minha adolescência, num ponto onde eu e todos os meus amigos e amigas gravitavam à volta, como se fosse uma fogueira que aquecia a alma a todos. Eram os anos 90, quando ainda não existia Internet, nem YouTube, nem smartphones, nem streaming online.

Eu e os meus amigos na banda Public Disorder nas escadas para o sótão que servia de sala de ensaios!

A cura para a dor

Nesta reflexão retirei sobretudo uma conclusão e uma grande lição: a Música ajuda-me a lidar com a Morte. E a Morte é talvez o assunto que mais profundamente perturba os seres humanos, incluindo eu.

Para mim, a música assumiu desde aquele dia fatídico um efeito terapêutico. Ajuda-me a curar a dor, desilusão, tristeza ou desespero. Constatar esta verdade não é propriamente uma surpresa, mas nunca tinha assumido esta convicção tão claramente como neste instante ao escrever sobre esta história do meu passado.

Agora à distância dos factos tenho de admitir que esse episódio traumático de experienciar a morte tão perto ficou para sempre ligado à música. A Música cura.

(E eu agradeço do fundo do coração a todos os músicos que criam esta arte maravilhosa, seja qual for o género musical, todos eles são muito generosos por dedicarem o seu tempo e vida a enriquecer as nossas vidas. Gostaria de abraçar todos eles pessoalmente, mas não é possível. Talvez por isso escrevi este texto sobre Mark Sandman.)

Creio que foi nesse instante que começou a minha Musicofilia: a minha ligação especial à música, que o neurocientista Oliver Sacks tão bem explicou no seu livro dedicado a explorar o lugar que a música ocupa no cérebro e como é que ela afecta a condição humana.

Durante todo o resto da minha vida essa ligação nunca me abandonou, pelo contrário aumentou substancialmente em várias fases posteriores.

E por saber que muitas outras pessoas sentem o mesmo, decidi que devia publicar no Mundo de Músicas esta história, que sendo minha é decerto também comum a muitas outras pessoas. Decerto que não sou eu que sou especial: a Música é que é poderosa.

Se você alguma vez desatou a chorar porque ouviu uma música aleatória no carro após o falecimento de um ente querido, ou se ficou arrepiado ao escutar um artista de rua depois de fracassar numa relação amorosa, ou até se curou de uma depressão ouvindo o mesmo artista de forma consecutiva e obcecada, então sabe do que estou a falar.

A Música une a Humanidade. Ela é a única linguagem internacional que não precisa de tradução sendo entendida por todos os povos, como assinalou Andrew Wood na canção “Man Of Golden Words”.

Este artigo muito pessoal é o meu pequeno contributo para desvendar os mistérios insondáveis desta arte milenar e sagrada que também reside dentro de cada um dos leitores do Blog Mundo de Músicas. Em certa medida, talvez esta história seja a génese deste espaço online para melómanos.

Também por isso seria impossível terminar este texto sem mencionar uma música que diz muito para muitas pessoas e a mim também. Sempre que a ouço recordo este momento revelador que vivenciei na Figueira da Foz.

E todas as vezes que alguém desaparece da minha vida para a escuridão canto secretamente estas palavras, entoando a melodia. Ela é também uma canção que ouvi intensamente na minha infância junto com o meu Pai e a minha Mãe e que, por agora, ainda continuo a ouvir com eles.

(UPDATE: Infelizmente, o meu querido Pai faleceu no dia 3 de Fevereiro de 2018, deixando um buraco imenso no meu coração.)

Chama-se The Sound of Silence da dupla Simon & Garfunkel e começa assim:

 

“Hello darkness, my old friend

I’ve come to talk with you again

 

Because a vision softly creeping

Left its seeds while I was sleeping

 

And the vision that was planted in my brain

Still remains

 

Within the Sound of Silence”

 

 

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Comentários

  • 28 December, 2017

    Muito sério isso, a musica transforma.

    • Gonçalo Sousa
      Gonçalo Sousa
      20 August, 2018

      Muito obrigado pelo seu comentário, foi um grande prazer escrever e partilhar este texto, mas mais importante ainda é ser lido e entendido, mesmo por desconhecidos separados por milhares de quilómetros de distância. Grande abraço!

  • janaina alencar
    22 February, 2018

    que texto lindo! parabéns

    • Gonçalo Sousa
      Gonçalo Sousa
      22 February, 2018

      Muito obrigado, fico feliz pelo feedback.

  • Eliane Carlman
    19 August, 2018

    Que texto lindo e sensível. Sinto assim também. A musicame toca de uma forma especial e nos faz viajar no tempo. Continue levando adiante seu blog. Parabéns

    • Gonçalo Sousa
      Gonçalo Sousa
      20 August, 2018

      Muito obrigado pelo seu feedback. Um dos grandes motivos que me levou a escrever este texto tão pessoal foi precisamente porque sei que muitas outras pessoas sentiram já o mesmo poder da música. E partilhar com quem se identifica com estes sentimentos foi um puro prazer e alívio. Vamos continuar sim, sempre com grande amor pela arte mais maravilhosa de todas. Um grande abraço!

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