Crónica de concerto — Seal e James no MEO Marés, Praia do Aterro, Leça da Palmeira (Matosinhos), 18 de julho de 2026
Sábado à noite, no MEO Marés, na Praia do Aterro, em Leça da Palmeira (Matosinhos), assisti aos concertos de Seal e dos James.
Antes de vos contar o que vi e ouvi, tenho de vos contar uma conversa que tive horas antes, porque acabou por dar o mote a este artigo.
Convém, ainda assim, situar a noite. Esta foi uma edição de estreia em muitos sentidos: depois de quase três décadas a acontecer em Vila Nova de Gaia, o festival mudou de casa e de nome — deixou cair o “Vivas” e trocou o Cais de Gaia pela Praia do Aterro, em Leça da Palmeira, Matosinhos.
De 17 a 19 de julho, cada dia teve a sua cor: o de sexta foi de hip-hop e música urbana, com os Da Weasel a reunirem-se com orquestra; o de domingo virou-se para os ritmos latinos e afro-pop, com Ozuna e os Calema. O sábado, esse, foi a noite de pop e rock — Seal e James como cabeças de cartaz, com Diogo Piçarra e Vizinhos a completarem o dia. Foi essa a noite a que fui. (E se quiseres percorrer o resto, tens todas as nossas crónicas de concertos aqui.)

O Cartaz "Não Era Para Ela"
A minha irmã mandou-me uma mensagem a dizer que aquele cartaz “não era para ela”. Na opinião dela, a faixa etária do público que ia assistir a este concerto já era demasiado avançada, e por isso não fazia sentido ir.
A minha irmã, quando veio ao mundo, eu já andava de bicicleta, com os meus quinze anos. Fui na mesma. E ainda bem que fui.
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Seal: Uma Voz que Continua a Fazer Sonhar, mas um Tempo em Desacerto
Seal continua a ser um cantor com uma presença de palco notável, e a voz continua a fazer sonhar. Basta ouvi-lo entrar em “Kiss From A Rose” para perceber porque é que continua a ser uma das grandes vozes da sua geração. Tem aquele timbre, aquela textura, que não engana: é um verdadeiro artista, dotado, e isso ainda se sente.
Não é um tema qualquer. “Kiss From A Rose”, que ganhou nova vida na banda sonora de Batman Forever, valeu-lhe três Grammys em 1996, incluindo Gravação e Canção do Ano — uma balada que já tem três décadas e que o público continua a esperar.
E, para quem quer contexto, este concerto em Portugal foi a primeira paragem da digressão europeia de Seal em 2026, antes de seguir para a Alemanha e a Polónia. Estreia dele no festival, também.
Escrevo isto como ouvinte, como alguém apaixonado por música, não como crítico nem como conhecedor técnico. E, dito isto, houve um momento em que senti que qualquer coisa não fluía do tudo como seria de esperar.
Tive a sensação, enquanto ouvia, de que Seal e a instrumentação não estavam sempre perfeitamente juntos, como se o encaixe entre a voz e o som não fosse total. É apenas uma sensação, a minha sensação, mas foi o suficiente para tirar um pouco de fluidez ao momento.

James: O Som Aquém do Costume, mas a Mesma Chama
O concerto dos James deixou-me, também aqui como simples ouvinte, uma sensação um pouco dividida. Tive a impressão de que o som não estava tão bom quanto costumo sentir noutros concertos da banda. É apenas a minha perceção de quem estava ali a viver o momento, não uma avaliação técnica. E, mesmo assim, do ponto de vista da música e da entrega, tinham tudo para marcar.
Vale a pena lembrar de quem falamos: os James nasceram em Manchester em 1982 e atravessaram mais de quatro décadas de carreira, com hinos como “Sit Down”, “Laid” ou “Come Home” — e com aquele trompete que é, há muito, uma marca sonora da banda.
O que mais me tocou, em contrapartida, foi precisamente esse toque pessoal que o trompetista da banda trouxe ao espetáculo: dirigiu-se ao público em português. Um gesto simples, mas que muda tudo. Cria uma proximidade genuína, o tipo de pormenor que transforma um concerto num momento partilhado, e não apenas numa atuação.
E depois há a história pessoal. Foi a quarta vez que vi os James no Porto. A primeira foi em 1992 — precisamente nos anos em que “Sit Down” os catapultara para o topo e a banda vivia o seu auge.
Mais de trinta anos depois, continuam a incendiar o palco. Há qualquer coisa de especial em acompanhar uma banda ao longo de tantos anos e vê-la manter a mesma energia, o mesmo compromisso com o público português.
Não É Para Vintage, É Para Quem Tem Memória
Volto à mensagem da minha irmã. Talvez ela tenha razão quanto à idade média da plateia. Mas foi exatamente isso que tornou a noite especial: aquela ligação entre quem viu os James pela primeira vez nos anos noventa e continua a vê-los hoje, trinta anos depois, com a mesma emoção intacta.
Este país, ao que parece, pode não ser para vintage. Mas também é verdade que há coisas que só quem tem memória consegue realmente sentir.
Em Resumo
Uma noite de sensações misturadas para quem, como eu, ouve com o coração e não com o ouvido de um técnico. Mas ficou a confirmação de duas coisas que senti bem no corpo: Seal continua a ser uma voz habitada, e os James, apesar das décadas, não perderam nada da sua chama.
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