Quando uma empresa nos habitua ao impossível, ficamos viciados na sensação. Foi exatamente o que aconteceu comigo: depois de anos a usar o Melodyne, achava que já tinha visto tudo o que a Celemony tinha para me surpreender. Estava redondamente enganado. Chama-se Tonalic e, sinceramente, é das coisas mais originais que apareceram na produção musical nos últimos anos.
E há aqui um padrão que vale a pena sublinhar. Tal como aconteceu com o Melodyne, percebe-se que o momento zero da criação do Tonalic parte de uma premissa completamente diferente do habitual. Enquanto metade da indústria corre atrás da inteligência artificial generativa, a Celemony fez o contrário: pegou em músicos a sério e arranjou maneira de os pôr a tocar dentro da sua música. Sem atalhos. Sem IA.
Afinal, o que é o Tonalic?
A forma mais honesta de o descrever é roubar a frase da própria casa: “a musician by your side” — um músico ao seu lado. O Tonalic corre como instrumento virtual dentro da sua DAW e comporta-se como um músico de sessão que, em vez de tocar uma frase fixa, ouve a sua música e adapta-se a ela: aos seus acordes, ao seu andamento, ao seu groove.
A própria Celemony resume a coisa de um modo que dispensa floreados:
“O Tonalic parece ter um músico ao seu lado. Sem IA, sem loops, sem MIDI. Apenas um músico a tocar a cada acorde, a cada andamento, a cada groove. Sem esforço.”
Repare na ausência tripla: sem IA, sem loops, sem MIDI. Não é um banco de samples que se encaixa à força, nem um gerador de notas a partir de um prompt de texto. São performances reais, gravadas em estúdio por instrumentistas de topo, que o software reorganiza para servirem a sua canção. O resultado, nas palavras deles, são “faixas autênticas de guitarra, baixo e bateria — com o som, a emoção e toda a magia da performance que acontece entre as notas”.
E sim, é a mesma empresa do Melodyne. A mesma gente, a mesma obsessão. Se ainda não conhece a história fascinante por trás disto tudo, recomendo vivamente a leitura do retrato que fizemos do seu fundador.
LER: A História Fascinante de Peter Neubäcker e da Celemony (Melodyne e Tonalic)
O coração da coisa: o Tonalic Engine
Se há algo que define a Celemony é a forma como olha para o áudio. Para a maioria do software, uma gravação é uma onda sonora — uma coisa estática, congelada. Para a Celemony, é informação musical viva. Foi essa filosofia que deu origem à lendária tecnologia DNA (Direct Note Access) do Melodyne, capaz de editar notas individuais dentro de acordes completos.
O Tonalic Engine é descrito pela própria empresa como uma evolução desse mesmo ADN: um “sistema profundamente musical” que preserva aquilo que os músicos tocaram em estúdio e adapta essas performances para seguirem a sua canção, como um músico verdadeiro faria.
É esta a parte genuinamente surpreendente. Quando estica uma frase ao longo de uma mudança de acorde, ou quando troca a tonalidade da música, o Tonalic não “estica” o áudio à bruta — revoz a performance, reescreve as inversões dos acordes e ajusta a condução de vozes como faria um guitarrista de carne e osso a deslizar pelo braço da guitarra. E faz isto de forma totalmente transparente ao ouvido. Como escreveu a Sound On Sound, “as performances soam tocadas, e não processadas”.
Os músicos: este é o verdadeiro acervo
Aqui está o trunfo que nenhuma quantidade de IA consegue replicar. O Tonalic foi construído a partir de mais de 7000 gravações reais de mais de 30 músicos de sessão de classe mundial, captadas em estúdios de grandes cidades da música pelo mundo fora, sob a direção musical do guitarrista Uwe Bossert (dos alemães Reamonn).
E que elenco. Falamos de gente como:
- Kenny Aronoff — um dos bateristas mais requisitados do planeta, conhecido pelo back beat poderoso;
- Nate Mendel — baixista e membro fundador dos Foo Fighters;
- Troy McLawhorn — guitarrista dos Evanescence;
- Brent Mason e Bryan Sutton — lendas de Nashville premiadas com Grammy;
- Tim Pierce — um dos guitarristas de sessão mais gravados de sempre;
- Martin “Ace” Kent (Skunk Anansie), Corey Britz (Bush), Venzella Joy (Beyoncé), Paul Turner (Jamiroquai), Sean Hurley (John Mayer)…
A lista continua, e o mais importante é que não para de crescer. A biblioteca expande-se ao longo do tempo com novos músicos, instrumentos e estilos — a “última entrada”, em abril de 2026, foi o guitarrista Julian Coryell (filho do lendário Larry Coryell), com performances que vão do Flamenco ao Jazz, passando pelo Indie Pop e pelo Latin. Quem já é assinante abre o Tonalic e elas já lá estão. Atualmente a coleção cobre guitarras elétricas e acústicas, baixo, bateria, percussão e ainda instrumentos como bandolim, ukulele, banjo e sitar.
A Sound On Sound resumiu bem aquilo que isto significa em termos práticos: “não sei qual seria o cachet à hora destes músicos de topo, mas seria consideravelmente mais do que a assinatura mensal do Tonalic”.
Como se trabalha com o Tonalic
O fluxo de trabalho é desarmantemente simples, e é aqui que se percebe a elegância do conceito. A biblioteca está organizada em Sets — cada Set reúne as performances de um músico específico em torno de uma ideia ou estilo musical. Dentro de cada Set encontram-se Patterns (as frases principais), Transitions (para passar de uma secção para outra) e Endings (finais).
Define os seus acordes no Chord Track — escrevendo-os no painel incluído, arrastando um clip MIDI ou simplesmente tocando-os num teclado — e depois arrasta as performances para a timeline, como faria com qualquer clip de áudio ou MIDI. Quer repetir uma frase ao longo de vários compassos? Estica a margem da região. Se isso atravessar uma mudança de acorde, a harmonia da performance ajusta-se sozinha. O conhecimento harmónico do motor é vasto: de simples power chords a acordes harmonicamente complexos, ele acompanha.
Há ainda duas funções que merecem destaque. O Groove Master funciona como uma espécie de quantização global “musical”: escolhe uma faixa como referência de groove e todas as outras passam a respirar com ela — e até pode importar grooves seus, em MIDI ou áudio. E claro, o Tonalic corre em qualquer DAW importante (Logic Pro, Pro Tools, Live…), com integração ARA mais profunda em Studio One Pro, Fender Studio Pro, Cubase e Nuendo, onde os Tonalics passam a viver diretamente na timeline da DAW.
Arranger vs. Studio: e o regresso do Melodyne
O Tonalic existe em duas edições, ambas com exatamente o mesmo conteúdo de músicos. A diferença está no controlo.
A edição Arranger é a base: explorar, arranjar e construir canções. Já o Tonalic Studio acrescenta duas coisas decisivas. Primeiro, ferramentas de modelação de som — Drive, Ambience e Effects — e, na bateria, controlo independente entre pratos e tambores, para cada elemento encontrar o seu lugar na mistura.
Segundo, e aqui sorri qualquer utilizador de Melodyne: o modo Refine. É literalmente o ADN da casa a regressar. Selecione uma região e o Tonalic mostra-lhe uma vista de notas ao estilo do Melodyne, com quatro ferramentas: Voice Leading, Pitch, Amplitude e Timing. Pode mexer numa nota dentro de um acorde arpejado, dar ênfase rítmica a outra — e o Tonalic responde musicalmente, reorganizando a harmonia à volta para manter tudo na tonalidade.
A ferramenta Voice Leading é, para mim, a mais criativa de todas: com uma linha em degraus, decide se a mesma sequência de quatro acordes sobe rumo a uma conclusão luminosa ou desce para um tom mais melancólico — apenas revozeando os acordes, como um guitarrista faria no braço. A Sound On Sound chamou-lhe, e bem, algo que “parece um bocadinho de magia”. Soa-lhe familiar? É a mesma sensação que o Melodyne sempre provocou.
LER: As novas funcionalidades do Melodyne 5
Preço e licenciamento
O Tonalic funciona exclusivamente por subscrição — e a Celemony explica porquê: o conteúdo cresce continuamente sem custos extra para o utilizador, e os músicos envolvidos partilham o sucesso do produto, algo que só um modelo de subscrição torna justo e transparente.
- Tonalic Arranger — 14,90 € por mês ou 149 € por ano;
- Tonalic Studio — 24,90 € por mês ou 249 € por ano (preços com IVA; os valores em dólares são equivalentes: 14,90 $ / 24,90 $).
Pode fazer upgrade de Arranger para Studio quando quiser, com o valor restante creditado automaticamente. E há um pormenor que muda tudo: a oferta de lançamento permite experimentar qualquer das edições durante um mês inteiro por apenas 1 euro (ou 1 dólar). É o mais próximo de “experimentar antes de comprar” que vai encontrar.
Detalhe nada despiciendo para quem vive disto: todo o conteúdo áudio do Tonalic é 100% royalty-free e pode ser usado e monetizado sem restrições em qualquer produção musical.
A minha opinião: humanidade sem inteligência artificial
Vou ser direto. Aquilo que o Tonalic faz pela forma como ajudamos a criar música é excelente — e, mais importante, é limpo. Não há IA generativa pelo meio, não há a ladainha do “gerado a partir de um prompt”, não há a dúvida desconfortável sobre de onde vêm aquelas notas. Há músicos reais, gravados, creditados e remunerados. Há humanidade. Numa altura em que tanta coisa soa a plástico reciclado por algoritmos, isto importa.
E há um perfil de criador para quem isto é quase uma dádiva. Se trabalhas com loops e samples mas sentes dificuldade em juntar esses elementos num arranjo que soe natural e musical, o Tonalic abre um mundo de possibilidades para adaptares de forma criativa a sua riquíssima biblioteca de material. E se sempre quiseste trabalhar com músicos de sessão de verdade, mas nunca tiveste recursos para isso, então o Tonalic é, muito honestamente, a melhor alternativa que vais encontrar.
E é aqui que tenho de ser honesto sobre as comparações. A verdade é que não existe um paralelo direto com nenhum outro plugin, porque, no rigor do que faz e de como o faz, o Tonalic não tem rival. O que mais se aproxima — e ainda assim por um caminho distinto — é, na minha experiência, o Superior Drummer 3 da Toontrack: aquela mesma sensação de ter músicos verdadeiros a tocar na sala, em vez de samples colados uns aos outros. A diferença é que o Superior Drummer parte de MIDI e do desenho de uma performance de bateria; o Tonalic parte de gravações reais que se moldam à harmonia da sua canção, em guitarra, baixo e bateria. Mesmo destino emocional, processo radicalmente diferente.
E convém não esquecer o essencial: no fundo, a ideia de um instrumento virtual que entrega também uma performance convincente não é propriamente inédita. Mas, tal como nos melhores produtos do género, com o Tonalic os acordes são teus e a canção é tua — és tu que diriges o músico virtual para te dar as partes de guitarra, baixo e bateria certas para aquela faixa. E, mais uma vez, sem IA: nada de performances cuspidas por um prompt de texto.
(Nota de justiça: alguma imprensa, como a Sound On Sound, aproxima antes o conceito dos EZkeys/EZbass da Toontrack ou do Band-in-a-Box. Faz sentido no plano funcional. Mas, para o meu ouvido e para a sensação de “banda na sala”, o Superior Drummer 3 é a referência mais fiel.)
O que diz a imprensa especializada
Não sou só eu a render-me. A MusicRadar, ao cobrir a estreia na NAMM 2026, abriu com o lema que ficou: “No AI, no loops, no MIDI”, descrevendo o Tonalic como um conceito único, “um híbrido de instrumento virtual e músico de sessão que combina a sensação orgânica de uma performance autêntica com a flexibilidade da edição na DAW”.
Já a Sound On Sound, depois de o testar a fundo, foi taxativa:
“Chapéu para a Celemony porque, logo à partida, o Tonalic é muito, muito bom mesmo. […] Mesmo nesta primeira iteração, a Celemony acertou em cheio na interface e no motor; está lindamente feito, é fácil de usar e obtém ótimos resultados rapidamente.”
Onde acompanhar o Tonalic
Vale muito a pena seguir os canais oficiais, sobretudo porque é ali que vão pingando os novos músicos e os tutoriais. No YouTube da Celemony há dezenas de vídeos com demonstrações e bastidores das sessões. Nas redes sociais, o Tonalic está no Instagram (@tonalic) e no Facebook (tonalicmusic). E o site oficial, claro, vive em tonalic.com.
Vale a pena?
O Tonalic é, ao mesmo tempo, uma novidade absoluta e um regresso a casa. Novidade, porque nunca ninguém pôs músicos de sessão reais a adaptarem-se à nossa harmonia desta maneira. Regresso a casa, porque, no fundo, é a mesma filosofia de sempre da Celemony: tratar o som não como uma onda morta, mas como música viva, humana, respirável.
Tal como o Melodyne pareceu ficção científica no início dos anos 2000, o Tonalic volta a provocar exatamente essa sensação. E nasce da mesma obsessão de sempre — compreender a essência musical do som. Por 1 euro durante um mês, francamente, não há desculpa para não o experimentar e tirar as suas próprias conclusões.





