Poucos regressos no pop mundial foram tão esperados — e tão estranhos — como o da BLACKPINK em 2025. Depois de quase três anos sem atividade conjunta, o quarteto sul-coreano voltou a juntar Jisoo, Jennie, Rosé e Lisa no mesmo palco. Mas fê-lo de uma forma que dividiu os fãs: primeiro a digressão, só depois (talvez) a música. A BLACKPINK Deadline tour é, ao mesmo tempo, a confirmação do estatuto do grupo como maior fenómeno feminino do K-pop e um sintoma das contradições de uma indústria que aprendeu a vender estádios antes de vender canções.
Três anos de silêncio e quatro carreiras a solo
Desde Born Pink (2022), a BLACKPINK enquanto grupo praticamente desapareceu. O que não desapareceu foram as suas quatro integrantes, que transformaram a pausa coletiva numa das séries de carreiras a solo mais bem-sucedidas da história do K-pop. O caso mais flagrante é o de Rosé. O single “APT.”, com Bruno Mars, tornou-se um fenómeno global: chegou ao número 3 da Billboard Hot 100, foi a canção de K-pop com mais semanas na tabela e fez de Rosé a primeira artista de K-pop a liderar o IFPI Global Single Chart anual. Lisa, Jennie e Jisoo seguiram caminhos próprios, da pop ocidental a colaborações de alto perfil e incursões na representação.

Esta dispersão criou um problema interessante para a YG Entertainment. As quatro tornaram-se grandes demais individualmente para que a marca BLACKPINK ficasse parada — mas também demasiado ocupadas para gravar e promover um álbum completo em conjunto. A solução foi colocar o carro à frente dos bois. É uma estratégia que faz sentido no papel, mas que levanta dúvidas legítimas sobre a coesão futura do projeto.
“Deadline”: a digressão antes do disco
Em maio de 2025, a YG anunciou oficialmente a digressão mundial “Deadline”. O arranque aconteceu a 5 e 6 de julho no Goyang Stadium, na Coreia do Sul, seguindo-se uma rota ambiciosa pela América do Norte — Los Angeles, Chicago, Toronto e Nova Iorque — e depois pela Europa, com Paris, Milão, Barcelona e Londres. O fecho está marcado para meados de janeiro de 2026 no Tokyo Dome, no Japão.
O nome é quase irónico. “Deadline” sugere urgência, um prazo a cumprir — e foi exatamente isso que muitos fãs sentiram em falta na comunicação do grupo. À data do anúncio da digressão, não havia confirmação de um regresso discográfico “a sério”. Pela primeira vez, as quatro juntavam-se para uma volta ao mundo sem um álbum novo para defender. Para um grupo que, no auge, lançava singles capazes de parar a internet, a ausência de música nova soou a anomalia.

A reação dos fãs: entusiasmo com reservas
A internet não perdoou a ambiguidade. Em fóruns e redes sociais, multiplicaram-se as perguntas: porquê uma digressão mundial sem comeback? Porquê vender estádios com um repertório que, no essencial, já tem três anos? Parte dos BLINKS (como se autodenominam os fãs) celebrou simplesmente o reencontro; outra parte mostrou-se frustrada por sentir que a parte musical — aquela que justifica tudo o resto — estava a ser deixada para último.
É aqui que vale a pena ser crítico. A BLACKPINK provou que pode encher recintos com base na sua aura, no carisma das quatro integrantes e numa mão-cheia de êxitos intemporais como “DDU-DU DDU-DU”, “Kill This Love” ou “Pink Venom”. Mas um grupo que vive de digressões e do brilho individual das suas estrelas corre o risco de se transformar mais numa marca de luxo do que num projeto artístico. A questão não é se a “Deadline” vai esgotar — vai. A questão é se a BLACKPINK ainda quer ser uma banda ou se aceitou ser, sobretudo, um acontecimento.
O modelo de negócio do K-pop levado ao limite
A “Deadline” é também um espelho do estado atual da indústria. O K-pop construiu, na última década, uma máquina de monetização extraordinariamente eficiente: digressões em estádios, merchandising, parcerias de moda, conteúdos exclusivos e fan meetings. A música é, muitas vezes, apenas o ponto de partida de um ecossistema comercial muito maior. A BLACKPINK, com cada uma das suas integrantes a funcionar como embaixadora de grandes casas de luxo, encarna esse modelo melhor do que qualquer outro grupo.
Isto não é necessariamente mau. Significa que as artistas têm poder negocial e independência criativa fora do guarda-chuva da editora. Mas também levanta uma pergunta incómoda: quando a marca vale mais do que o catálogo, o que acontece à urgência criativa? A “Deadline” responde, na prática, que a urgência pode esperar — o que conta é manter o grupo vivo no imaginário global. O fenómeno não é exclusivo da BLACKPINK; basta ver como o regresso dos BTS foi igualmente tratado como um acontecimento à escala planetária para perceber que falamos de uma lógica estrutural do K-pop, e não de um caso isolado.
O peso de carregar o género às costas
Convém lembrar o tamanho da sombra que a BLACKPINK projeta. Durante anos, foram o rosto feminino da segunda vaga do K-pop a conquistar o Ocidente, abrindo portas em festivais como Coachella e em capas de revistas de moda que nunca antes tinham olhado para Seul. Esse pioneirismo trouxe responsabilidades: cada movimento do grupo é lido como termómetro do estado do género. Quando a BLACKPINK opta por uma digressão sem disco, não está apenas a gerir a sua própria carreira — está a definir o que é aceitável para toda uma indústria que olha para elas como referência. Quem quiser acompanhar a atualidade do K-pop percebe rapidamente que as escolhas da BLACKPINK ditam tendências bem para além do grupo.
O que esperar a seguir
Apesar das dúvidas, há motivos para otimismo. O simples facto de as quatro voltarem a partilhar o mesmo palco renova a possibilidade de novo material conjunto, e os rumores de música nova nunca deixaram de circular ao longo de 2025. Se a “Deadline” funcionar como reaquecimento — uma forma de voltar a sincronizar quatro carreiras que andaram em sentidos diferentes — então a digressão pode ser exatamente o prelúdio de um regresso discográfico mais sólido.
Para já, o que temos é uma das maiores forças do pop mundial a fazer aquilo que faz melhor: criar acontecimento. Resta saber se a BLACKPINK voltará a colocar a música no centro, ou se a “Deadline” marca o ponto em que o grupo passou definitivamente de banda a fenómeno de palco. Seja qual for a resposta, os bilhetes vão continuar a esgotar — e essa, talvez, seja a estatística que mais diz sobre o nosso tempo.
Jisoo, Jennie e Lisa: três frentes em simultâneo
Para compreender a complexidade da equação BLACKPINK, é preciso olhar para o que cada integrante construiu fora do grupo. Jennie lançou material a solo que a posicionou como referência de estilo e atitude, cruzando pop e hip-hop com colaborações de alto perfil e uma estética cuidadosamente controlada. Lisa explorou o mercado ocidental com singles em inglês e tornou-se uma das presenças mais seguidas das redes sociais a nível mundial, além de ter estreado como atriz numa série internacional de enorme audiência. Jisoo, por seu lado, apostou na representação e em projetos próprios, consolidando uma imagem mais clássica e elegante.
O ponto crucial é que estas quatro carreiras não correm em paralelo organizado — competem pelo mesmo recurso escasso: o tempo. Cada projeto a solo bem-sucedido torna mais difícil reunir as quatro em estúdio durante meses seguidos. É a contradição central do grupo: quanto maiores se tornam individualmente, mais raro e mais caro se torna o “produto” BLACKPINK enquanto conjunto. A “Deadline” é, vista por este prisma, uma forma engenhosa de juntar quatro agendas impossíveis sem exigir o compromisso prolongado que um álbum de raiz implicaria. Resolve o problema logístico — mas adia, mais uma vez, a pergunta artística.
Sabe mais: podes acompanhar as datas e novidades no site oficial da BLACKPINK, ouvir o catálogo do grupo no Spotify ou recuperar o álbum Born Pink em vinil e CD na Amazon. Para a discografia completa em streaming, consulta também a Apple Music.
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