Quando Beyoncé lançou Cowboy Carter em março de 2024, muita gente fez a mesma pergunta: o que faz a maior estrela pop do planeta a gravar um disco de country? Quase um ano depois, a resposta chegou em forma de história. Na cerimónia dos Grammys de fevereiro de 2025, Cowboy Carter venceu Álbum do Ano e Melhor Álbum de Country, tornando Beyoncé a primeira mulher negra deste século a conquistar a categoria principal como artista principal. O álbum deixou de ser uma curiosidade e passou a ser um marco — tanto musical como político.
Um disco que nasceu de uma rejeição
A génese de Cowboy Carter é, ela própria, parte da mensagem. Beyoncé contou que o projeto nasceu de uma experiência em que se sentiu não bem-vinda num espaço country — uma referência velada à reação hostil que enfrentou em 2016, quando atuou nos prémios da Country Music Association com as Chicks. Em vez de recuar, mergulhou. Passou anos a estudar a história do género, a desenterrar as suas raízes negras frequentemente apagadas e a construir um álbum que é, simultaneamente, uma homenagem e uma reivindicação.

O resultado não é um disco de country convencional. Cowboy Carter é uma viagem panorâmica pela música americana — country, sim, mas também folk, rock, góspel, ópera e rap. Beyoncé descreveu-o não como “um álbum de country”, mas como “um álbum de Beyoncé”. A distinção é importante: ela não pediu autorização para entrar no género, reclamou o seu lugar dentro dele.
Raça, género e quem “tem direito” ao country
Aqui está o coração do debate que Cowboy Carter reacendeu. O country é frequentemente percecionado como um género branco, conservador, do sul rural dos Estados Unidos. Mas essa perceção é, em larga medida, uma construção histórica que apagou o contributo fundamental dos músicos negros — do banjo, instrumento de origem africana, aos pioneiros negros do género que nunca receberam o devido crédito.
Ao colocar este apagamento no centro do álbum, Beyoncé transformou um disco pop num argumento cultural. Incluiu colaborações com vozes negras emergentes do country e prestou homenagem a figuras históricas, recontextualizando o género como aquilo que sempre foi: uma criação multirracial. A canção “Texas Hold ‘Em” chegou ao número 1 da Billboard Hot 100 e fez de Beyoncé a primeira mulher negra a liderar a tabela de country da publicação. Cada recorde tornou-se, por si só, um comentário sobre quem historicamente foi excluído.

A controvérsia dos Grammys
A vitória de Cowboy Carter não foi consensual, e é justo reconhecê-lo. Por um lado, muitos celebraram o reconhecimento há muito devido a Beyoncé, que durante anos detinha o recorde de mais Grammys de sempre sem nunca ter vencido a categoria de Álbum do Ano — uma anomalia que muitos viam como sintoma de preconceito da Academia. A vitória de 2025 foi lida como uma correção histórica.
Por outro lado, surgiram vozes a questionar se a estrela pop mais poderosa do mundo precisava de “invadir” um género onde artistas country negros menos conhecidos lutam há décadas por reconhecimento. Será que o holofote de Beyoncé abre portas para esses artistas, ou ofusca-os? A resposta honesta é que provavelmente faz as duas coisas. O álbum deu visibilidade sem precedentes a colaboradores negros do country, mas é ingénuo fingir que o sistema mudou só porque a maior estrela do mundo o atravessou.
O peso de ser Beyoncé
Há ainda uma dimensão que vale a pena sublinhar: poucos artistas no mundo têm o poder de fazer o que Beyoncé fez. Mudar de género a meio da carreira, dedicar anos de pesquisa a um projeto conceptual, lançá-lo sem singles de teaser convencionais e ainda assim dominar tabelas e prémios — isto só é possível para quem já não tem nada a provar comercialmente. Cowboy Carter é, em parte, um luxo que só o estatuto de Beyoncé permite.
Mas isso não diminui a coragem da aposta. Era perfeitamente possível para Beyoncé continuar a fazer pop e R&B de sucesso garantido. Escolher um género que a tinha rejeitado, e fazê-lo num registo histórico e político, foi um risco artístico real. O facto de ter resultado não apaga o facto de poder ter falhado.
Parte de uma conversa maior sobre a música negra
Cowboy Carter dialoga com um movimento mais vasto de artistas negros a reclamar a autoria de géneros que ajudaram a fundar. Tal como o regresso aclamado de John Legend ao soul reforça a linhagem do R&B clássico, o disco de Beyoncé insiste em que a história da música popular americana é, na sua raiz, uma história negra. A diferença é de escala: Beyoncé fez essa afirmação no palco mais visível possível, obrigando milhões de ouvintes a reexaminar suposições que nunca tinham questionado.
Um legado que vai além do álbum
O verdadeiro impacto de Cowboy Carter talvez só se meça nos próximos anos. Se o álbum ajudar a abrir definitivamente as portas do country a artistas negros, terá sido mais do que um grande disco — terá sido um ponto de viragem. Se ficar como um momento isolado, protagonizado pela única artista com poder suficiente para o concretizar, então o debate sobre quem “tem direito” ao género continuará por resolver.
Seja como for, Cowboy Carter já garantiu o seu lugar na história. Não apenas pela qualidade musical, reconhecida pelo prémio máximo da indústria, mas por obrigar o mundo a reexaminar as suas próprias suposições sobre um género que sempre foi mais diverso do que quis admitir. Beyoncé não se limitou a fazer country. Devolveu-lhe parte da história que lhe tinha sido roubada.
Do disco ao palco: a digressão Cowboy Carter
A afirmação de Cowboy Carter não ficou pelo estúdio nem pela noite dos Grammys. Beyoncé levou o projeto à estrada numa digressão concebida como espetáculo total, em que a iconografia do western — chapéus, cavalos, bandeiras, referências à América rural — foi reapropriada e ressignificada. Não se tratou apenas de tocar as canções ao vivo, mas de construir uma narrativa visual coerente sobre quem pertence a essa imagem da América. Ao ocupar o palco com essa estética, Beyoncé reforçou a tese do álbum de forma ainda mais explícita do que nas gravações.
A digressão confirmou também a escala económica do fenómeno. Recintos esgotados, impacto significativo nas cidades por onde passou e uma produção de dimensão monumental mostraram que a aposta no country não foi um capricho artístico de retorno duvidoso, mas um projeto comercialmente robusto. Para uma artista que poderia simplesmente repetir os seus maiores êxitos pop, transportar um conceito tão específico e politicamente carregado para o circuito de estádios foi mais uma forma de insistir: isto não é uma experiência passageira, é uma declaração que veio para ficar. E o público, ao responder em massa, validou-a.
Há ainda a dimensão cinematográfica e visual que Beyoncé associou ao projeto, fiel ao método que adotou desde Lemonade: tratar o álbum como obra audiovisual total, e não apenas como conjunto de canções. Os adereços, os videoclipes, a direção de arte e a própria narrativa de palco funcionam como um ensaio visual sobre a América, a sua história e as suas contradições raciais. Esta abordagem multimédia transformou Cowboy Carter num acontecimento cultural que ultrapassa o áudio — uma declaração estética que se vê, lê e discute tanto quanto se ouve, e que ajuda a explicar por que o disco gerou debate muito para além das páginas de crítica musical.
Sabe mais: visita o site oficial de Beyoncé, ouve Cowboy Carter na Apple Music e encontra o álbum em vinil e CD na Amazon. Vê também a cobertura da vitória nos Grammys 2025 na Billboard.
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