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Betho Wilson exalta a Bahia e critica as mazelas do sistema em novo disco

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Betho Wilson exalta a Bahia e critica as mazelas do sistema em novo disco

Renan Pereyra
by Renan Pereyra

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É provável que grande parte dos nossos leitores ainda não conheça o trabalho do artista brasileiro Betho Wilson; mas deveria. Dono de uma voz marcante e autor do ótimo registro Lá Eles Infinito (2013), o músico retorna em grande estilo com o EP Pássaro Preto. Inspirado principalmente pelas belezas naturais e pelo povo da Bahia, o disco conta com treze faixas e foi lançado nesta terça-feira (8 de dezembro) pela Subterrâneo Records. Ouça na íntegra abaixo!

Com quase uma hora de duração, o álbum é marcado pela regionalidade musical e busca referência na linguagem poética, como demonstra o título da obra. “Pássaro Preto é uma linda ave, cheia de vigor e com um canto peculiar. É totalmente preta, com os olhos, bico e penas negras, assim como eu. Sou negro e amo imaginar que eu posso voar… daí então a identificação”, filosofa Betho Wilson.

A divulgação do registro teve início em novembro com o lançamento do single Diacho de Sentimento, baseado no “povo do sertão nordestino, forte, rudimentar, precário e feliz”. Em entrevista recente à revista Rolling Stone – , o músico comentou que a faixa busca inspiração sonora em outros dois artistas de peso: Luiz Gonzaga, também conhecido como o Rei do Baião, e Raul Seixas, o Pai do Rock Brasileiro.

Contexto político e social

Apesar do clima muitas vezes descontraído, Pássaro Preto se distancia do trabalho anterior por conta das letras mais densas e reflexivas. Na faixa-título, por exemplo, Betho Wilson critica o racismo de maneira pontual e sublime. “Eu sou preto, da pele preta, do dente azul. Pássaro preto, das penas pretas, do céu azul. E quando eu fico fouveiro viro um letreiro. Sou um caderno, em mim escrevo meu recomeço”.

E o contexto político prossegue. A resposta violenta do Estado às manifestações do povo contra a corrupção viraram enredo em músicas como Fina Estampa e Mosca Morta, escrita durante os protestos pelo passe livre. Temas como meio ambiente (Manda Chuva) e educação doméstica (Supletivo Social) também estão presentes no EP. “Este disco expõe meu ponto de vista sobre a vida”, resume o músico brasileiro.

CAPA - CD - BETHO WILSON PASSARO PRETO (1) (1)Pássaro Preto parece, às vezes, dialogar perfeitamente com os romances de Guimarães Rosa, um dos escritores mais importantes do país que retratou a vida dura nos sertões. É o caso de Água de Chorar, música composta em parceria com Felipe Pomar. “Carregar balde na cabeça quarta, quinta e sexta. Andar mais um pedaço com os pés descalços. Sobre os seus passos um sorriso falso. Exprime o cansaço de um povo pacato. Menino deitado no espaço a sorrir, chorar. Chora quem tem coração. Quem tem coração?”.

O EP conta também com momentos mais intensos (ouça Fina Estampa e Paz no Ori) e outros mais subjetivos, perceptíveis na balada Serei Feliz e na nostálgica Menino Malino – uma espécie de ode à infância. “Lembro com saudade das tardes, eu e a molecada. Hoje em dia é tanta agonia, as coisas tão mudadas. Chamam isso de evolução, era avançada. Tem pendrive, a televisão, wi-fi na casa”.

Betho Wilson conta que seu processo de composição exige isolamento, o que acaba dando um clima mais introspectivo às canções. “Para produzir preciso de absoluta solidão. A companhia de qualquer pessoa funciona como um bloqueador de ideias e interfere em minha inspiração. Sozinho falo comigo mesmo, em voz alta, e me pergunto se os arranjos estão realmente bons. Pode parecer assustador, mas é assim que encontro o resultado”, finaliza.

Mais sobre o disco de Betho Wilson

Da MPB ao rock, passando pelo baião, soul e até hip hop, um dos pontos fortes de Pássaro Preto é o poderoso instrumental, comandado por um time de peso: Gabriel Dominguez e Wadson Calazans (guitarras), Cristiano Soares e Jarbes Pinheiro (teclados), Felipe Pomar (controlador/sintetizador/beats), Cicinho de Assis (sanfona), Nino Bezerra e Luciano Calazans e Jairo Sanches (baixo), Robinson Cunha (bateria), Luan Badaró (rum), Felipe Santana (agogô) e Ivanzinho/Pitoco da Bahia (percussão/rumpi/lê).

A produção é assinada pelo próprio cantor (que também faz os arranjos, toca violão e percussão no álbum) e por Felipe Pomar. A música Paz no Ori conta com participação do rapper Teekay Tha Newborn.Você também pode encontrar o disco nas principais plataformas de streaming: Deezer, iTunes, Spotify, Google Play, Amazon, Rdio e Napster. Acompanhe Beto Wilson no Soundcloud e no Facebook.

A foto que ilustra este artigo pertence a Heder Novaes, um excelente fotógrafo brasileiro que pode conhecer melhor no Facebook ou no Instagram.

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