Há regressos que cheiram a oportunismo e há regressos que parecem inevitáveis. O dos Clipse, em 2025, pertence claramente à segunda categoria. Dezasseis anos depois do seu último álbum como dupla, os irmãos Pusha T e Malice voltaram a juntar-se para Let God Sort Em Out — e o resultado foi recebido como um dos discos de rap mais aclamados do ano. Num panorama dominado por novidades virais e tendências passageiras, “Clipse Let God Sort Em Out” provou que a experiência, a paciência e a química de uma vida valem mais do que mil algoritmos.
Uma reunião improvável
Para apreciar este regresso, é preciso conhecer a história. Os Clipse — formados pelos irmãos de Virgínia Terrence (Pusha T) e Gene Thornton (Malice, hoje No Malice) — foram, nos anos 2000, uma das duplas mais respeitadas do rap, conhecidas pelas suas “coke raps” cortantes e pela produção dos Neptunes. Mas separaram-se por volta de 2010, em parte devido à conversão religiosa de Malice, que se afastou do estilo de vida e da linguagem que tinham definido o grupo.

Durante anos, uma reunião pareceu impossível. Os caminhos dos irmãos divergiram profundamente: Pusha T tornou-se uma estrela a solo respeitadíssima, Malice abraçou a fé. Que voltassem a encontrar-se artisticamente exigia reconciliar dois mundos aparentemente incompatíveis. E, no entanto, reuniram-se em 2019 e começaram a trabalhar no álbum em 2023.
Um nascimento conturbado
A própria criação de Let God Sort Em Out é uma história de resistência. O álbum estava inicialmente previsto para 2024, mas a editora Def Jam terá manifestado preocupações com a “ótica” de uma participação de Kendrick Lamar na faixa “Chains & Whips”, em plena rivalidade do rapper com Drake. Em resposta, os Clipse cortaram relações com a Def Jam e assinaram pela Roc Nation, lançando finalmente o disco de forma independente a 11 de julho de 2025.
Esta luta pelos bastidores diz muito sobre a integridade artística da dupla. Em vez de cederem a cálculos políticos de uma grande editora, escolheram a liberdade — mesmo que isso significasse recomeçar. O álbum foi masterizado por Pharrell Williams, o velho cúmplice dos Neptunes, fechando o círculo com o produtor que ajudou a definir o som original dos Clipse.

Coke raps, luto e confissão
Musicalmente, Let God Sort Em Out é tudo aquilo que os fãs esperavam — e mais. As “coke raps” afiadas, as rimas técnicas e densas, a produção minimalista e elegante de Pharrell: está tudo lá. Mas o álbum vai além da nostalgia. Há uma maturidade e uma profundidade emocional que só o tempo e a perda podem trazer.
Os irmãos abordam o luto — ambos perderam os pais nos anos que antecederam o álbum — com uma honestidade desarmante. A tensão entre o passado criminoso evocado nas letras e a redenção espiritual de Malice cria uma riqueza temática que o disco original dos Clipse, mais jovem e mais agressivo, não tinha. É um álbum de dois homens de meia-idade a olhar para trás com lucidez, sem deixar de afiar as facas líricas que os tornaram lendas.
Aclamação quase unânime
A crítica rendeu-se. Let God Sort Em Out estreou no número 4 da Billboard 200 e foi celebrado de forma quase universal como um dos melhores álbuns do ano. Num ano com regressos importantes, o dos Clipse destacou-se como o mais conseguido — a prova de que é possível voltar sem trair o legado nem ficar refém dele.
O que torna este regresso tão especial é o equilíbrio. Muitos artistas que voltam após longas ausências caem num de dois extremos: ou tentam desesperadamente soar atuais e perdem a identidade, ou limitam-se a reciclar a fórmula antiga e soam a museu. Os Clipse evitaram ambas as armadilhas. Let God Sort Em Out soa inconfundivelmente a Clipse, mas a uns Clipse que viveram, perderam e cresceram.
Contra a corrente do som dominante
O regresso dos Clipse é também uma declaração estética. Numa altura em que boa parte do hip-hop comercial se rendeu às texturas aceleradas e melódicas que aproximam o trap da pop de consumo rápido, a dupla insistiu no oposto: batidas secas, espaço para a palavra respirar, rimas que exigem atenção. É um regresso que não tenta competir com as tendências do TikTok, mas reafirmar um modo de fazer rap que muitos davam por ultrapassado — e provar que ainda tem público.
Nostalgia bem feita ou algo maior?
Vale a pena fazer a pergunta crítica: este álbum é genuinamente excecional ou beneficia da generosidade que reservamos aos regressos que amámos? A honestidade obriga a reconhecer que há sempre uma dose de afeto nostálgico em torno de reuniões como esta. Parte do entusiasmo vem do simples alívio de ter os Clipse de volta.
Mas seria injusto reduzir Let God Sort Em Out a isso. O álbum sustenta-se pela própria qualidade — pela escrita, pela produção, pela coragem temática. Não é bom “para um regresso”; é simplesmente bom. E num mercado obcecado com a juventude e a novidade, há algo de profundamente satisfatório em ver dois veteranos provarem que o ofício, a paciência e a verdade ainda contam.
A lição dos Clipse
No fundo, Let God Sort Em Out é um argumento contra a pressa da cultura atual. Demorou dezasseis anos, uma separação, uma conversão religiosa, lutas com editoras e a perda dos pais para que este álbum existisse. Nada nele é apressado ou descartável. É o oposto da música feita para o feed.
Talvez seja por isso que ressoou tanto. Num tempo de gratificação instantânea, os Clipse lembraram-nos do valor do que é lento, ponderado e ganho com esforço. O regresso mais aclamado de 2025 não foi o mais barulhento — foi o mais paciente. E, no fim, foi precisamente essa paciência que o tornou inesquecível.
Pharrell e a sombra dos Neptunes
É impossível falar de Let God Sort Em Out sem falar de Pharrell Williams. A relação entre os Clipse e Pharrell remonta às origens da dupla: foram os Neptunes — o duo de produção formado por Pharrell e Chad Hugo — que esculpiram o som minimalista, futurista e percussivo que definiu os primeiros álbuns do grupo nos anos 2000. Ao chamar Pharrell de volta para masterizar e moldar o novo disco, os irmãos não estavam apenas a contratar um produtor de topo; estavam a reativar uma das parcerias mais influentes da história do hip-hop.
O resultado é um som que soa simultaneamente a casa e a futuro. As batidas de Pharrell continuam a privilegiar o espaço e o silêncio — poucos elementos, muito impacto —, oferecendo o palco perfeito para as rimas densas dos Thornton. Em vez de tentar modernizar artificialmente o som dos Clipse para o adaptar às tendências atuais, Pharrell fez o oposto: depurou-o ainda mais, confiando que a qualidade da escrita dispensava artifícios. É uma lição de elegância produtiva num género frequentemente tentado pelo excesso. A reunião dos três — Pusha T, Malice e Pharrell — funcionou porque assentava em décadas de cumplicidade e numa visão comum sobre o que torna o rap memorável: não o ruído, mas a precisão.
Sabe mais: ouve Let God Sort Em Out no Spotify ou na Apple Music, e encontra a edição física na Amazon. Para uma análise detalhada, lê a entrevista da Rolling Stone com Pusha T e Malice.
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