Se houve uma figura que dominou a conversa musical entre 2024 e 2025, essa figura foi Kendrick Lamar. Numa sequência de acontecimentos quase sem paralelo na história recente do hip-hop, o rapper de Compton transformou uma rivalidade pessoal numa canção omnipresente, essa canção num hino, e esse hino no palco mais visto do planeta. “Kendrick Lamar Not Like Us” deixou de ser apenas o título de um diss track para se tornar a banda sonora de um ano inteiro — e a prova de que o rap ainda pode ser o centro absoluto da cultura de massas.
A rivalidade que incendiou a internet
A história começa com uma das maiores batalhas líricas das últimas décadas. Durante meses de 2024, Kendrick Lamar e Drake trocaram acusações em diss tracks cada vez mais pesados, num confronto que monopolizou redes sociais, programas de rádio e conversas de café. Foi uma guerra de proporções épicas entre dois dos maiores nomes da música contemporânea.

Dessa batalha saiu “Not Like Us”, lançado em maio de 2024. A canção não foi apenas um golpe certeiro na contenda — foi um êxito comercial monstruoso por mérito próprio. Com uma batida hipnótica de Mustard e um refrão impossível de esquecer, “Not Like Us” saltou para o número 1 da Billboard Hot 100 e transformou-se rapidamente num fenómeno que ultrapassou de longe o seu contexto original. Pessoas que nem sabiam da rivalidade cantavam-na em festas, estádios e clubes.
“GNX”: a surpresa que selou o ano
Em novembro de 2024, quando muitos pensavam que o momento já tinha atingido o auge, Kendrick lançou sem aviso o álbum GNX. O disco surpresa — com dois temas ao lado de SZA, “luther” e “gloria” — consolidou o domínio do rapper e mostrou que ele não estava apenas a surfar a onda de uma canção viral, mas a construir um corpo de trabalho coeso à volta deste momento criativo. GNX foi recebido com entusiasmo e cimentou a ideia de que Kendrick estava no auge absoluto da sua forma.
Cinco Grammys e a consagração
A confirmação institucional chegou nos Grammys de fevereiro de 2025. “Not Like Us” arrecadou cinco prémios, incluindo Gravação do Ano, Canção do Ano e Melhor Atuação de Rap. É um feito notável por uma razão simples: trata-se de um diss track, um género tradicionalmente visto como efémero e de nicho, a vencer as categorias mais prestigiadas da indústria. A Academia, tantas vezes acusada de subvalorizar o hip-hop, coroou uma canção nascida de uma rixa pessoal como a melhor do ano.

Isto diz algo sobre o estado da cultura. “Not Like Us” venceu não por ser tecnicamente o rap mais complexo de Kendrick — não é — mas por ter capturado o espírito do momento com uma precisão que poucas canções alcançam. Foi a faixa que toda a gente ouviu, em todo o lado, durante meses, dominando inclusive os hits de verão nas tabelas de streaming muito depois do seu lançamento.
O Super Bowl LIX: o palco máximo
O ponto culminante chegou em fevereiro de 2025, quando Kendrick Lamar protagonizou o espetáculo do intervalo do Super Bowl LIX, no Caesars Superdome — provavelmente o palco mais visto do mundo. Acompanhado por SZA, por Samuel L. Jackson no papel de um “Tio Sam” satírico e por uma aparição de Serena Williams durante “Not Like Us”, Kendrick entregou uma atuação carregada de mensagens sobre identidade, América e poder.
Tocar “Not Like Us” — uma canção dirigida a um rival específico — perante a maior audiência televisiva do ano foi um gesto de domínio quase insolente. Kendrick não suavizou nada. Levou a sua narrativa, na íntegra, ao coração do espetáculo mais mainstream da cultura americana, e fê-lo nos seus próprios termos.
A crítica: vitória da canção ou do momento?
Vale a pena manter algum sentido crítico no meio da celebração. Há quem argumente, com razão, que “Not Like Us” não é o melhor trabalho de Kendrick Lamar. Obras como To Pimp a Butterfly ou DAMN. são liricamente mais densas e ambiciosas. O que “Not Like Us” tem é algo diferente: imediatismo, contexto e timing perfeito. Foi a canção certa no momento certo.
O risco de consagrar um diss track desta forma é confundir relevância cultural com excelência artística. Mas talvez essa distinção seja, ela própria, redutora. O que Kendrick conseguiu — transformar uma batalha de egos num comentário sobre autenticidade, raça e indústria, e embrulhá-lo numa canção que toda a gente canta — é uma forma de génio que não cabe nas réguas tradicionais. Quem acompanhou a escalada de sucesso de Kendrick Lamar ao longo da última década percebe que este momento não foi sorte, mas o culminar de uma estratégia paciente.
O que isto significa para o hip-hop
O ano de Kendrick Lamar provou uma coisa importante: num cenário musical cada vez mais fragmentado pelos algoritmos e pelos nichos, o rap ainda consegue produzir acontecimentos verdadeiramente universais. “Not Like Us” foi a última grande canção monocultural de uma era — aquela faixa que praticamente toda a gente, independentemente de gosto ou geração, conheceu.
Kendrick Lamar reafirmou-se não apenas como um dos maiores líricistas da sua geração, mas como um estrategista cultural de primeira ordem. Pegou numa rivalidade, transformou-a em arte, a arte em prémios e os prémios no palco mais visto do mundo. Poucos artistas, em qualquer género, conseguiram fechar um ciclo com tanta perfeição. Foi, sem exagero, o ano em que o rap voltou a mandar.
A digressão e a aliança com SZA
O ciclo não terminou no Super Bowl. Kendrick prolongou o momento com uma digressão de estádios em parceria com SZA, a artista cuja presença em GNX e em “Not Like Us” se tornou inseparável da narrativa do disco. Juntar dois dos nomes mais aclamados da música negra contemporânea numa única volta ao mundo foi uma jogada que transformou o sucesso de tabela num acontecimento ao vivo de proporções colossais, com recintos esgotados e produções desenhadas para impressionar.
A escolha de SZA como parceira não é detalhe menor. Numa altura em que muito do hip-hop se debate com a sua relação com a melodia e o R&B, a aliança entre os dois simboliza a fluidez das fronteiras de género na música atual. Kendrick, o purista respeitado pelos críticos mais exigentes, ao lado de SZA, a voz que dominou o R&B alternativo da década — a combinação resume a forma como o rap contemporâneo absorveu e expandiu o seu vocabulário. Mais do que encerrar um capítulo, a digressão mostrou que Kendrick não está apenas a celebrar um triunfo pontual: está a consolidar uma posição de domínio que vai muito para além de uma única canção, por mais omnipresente que ela tenha sido.
Convém também sublinhar o que Kendrick representa enquanto modelo de independência criativa. Através da pgLang, a empresa que fundou com Dave Free, controla a sua imagem, os seus vídeos e a sua narrativa com um rigor quase obsessivo, recusando o ruído promocional constante que define a maioria das estrelas atuais. Comunica pouco, mas quando o faz, o impacto é máximo. Essa escassez deliberada — poucos lançamentos, poucas entrevistas, nenhuma sobre-exposição — é parte essencial do seu poder. Num ecossistema que premeia a presença permanente, Kendrick provou que o silêncio estratégico pode ser a mais eficaz das ferramentas de marketing.
Sabe mais: visita o enigmático site oficial de Kendrick Lamar (oklama), ouve GNX no Spotify e encontra o álbum em vinil na Amazon. Para reviver a atuação, lê a cobertura do Super Bowl LIX na Rolling Stone.





