Há álbuns que se ouvem e há álbuns que se vestem, se citam e se tornam linguagem. Brat, de Charli XCX, pertence a esta segunda categoria rara. Lançado em junho de 2024, o sexto álbum de estúdio da artista britânica não foi apenas um dos discos mais aclamados do ano — foi um acontecimento que ultrapassou a música e se infiltrou na moda, na política e na forma como falamos de cultura online. Para perceber por que razão tantos consideram 2024 um dos melhores anos da década na música, é quase obrigatório começar por aqui.
Um verde que se tornou movimento
Tudo começou com a capa: um fundo verde-lima berrante, agressivo, quase feio, com a palavra “brat” escrita numa fonte simples e desfocada. Era uma provocação deliberada num mundo de capas polidas e algoritmicamente apelativas. E funcionou. Aquele tom específico de verde — rapidamente apelidado de “brat green” — transformou-se num código visual instantâneo. Marcas, políticos e utilizadores anónimos apropriaram-se dele. O conceito de “brat summer” passou a descrever uma atitude: caótica, confiante, imperfeita, hedonista mas autoconsciente.

Poucas vezes um objeto musical gerou um vocabulário cultural tão imediato. Ser “brat” deixou de ser sobre o álbum e passou a ser uma forma de estar. Quando uma campanha presidencial norte-americana brincou com a estética em 2024, ficou claro que Brat tinha saltado da esfera musical para o centro da conversa pública — algo que praticamente nenhum álbum pop consegue.
A música por trás do fenómeno
Seria fácil reduzir Brat à sua viralidade, mas isso seria injusto. Por baixo da embalagem provocadora está um dos trabalhos mais inteligentes da carreira de Charli XCX. O álbum mergulha no hyperpop e na música de clube — batidas duras, sintetizadores distorcidos, uma produção que evoca as raves dos anos 2000 — mas usa essa parede de som para falar de coisas profundamente humanas.
Em canções como “Sympathy is a knife”, Charli expõe a inveja e a insegurança que sente perante outras artistas. Em “I think about it all the time”, reflete sobre maternidade, ambição e o relógio biológico com uma honestidade desarmante. “Girl, so confusing” tornou-se um marco quando ganhou um remix com Lorde, transformando uma rivalidade não-dita entre as duas num momento de reconciliação pública. O álbum é, no fundo, um diário de ansiedades adultas disfarçado de banda sonora de discoteca.

Autenticidade fabricada ou genuína?
Vale a pena ser crítico em relação ao culto em torno de Brat. Parte do seu génio reside em parecer espontâneo e tosco quando, na verdade, é uma operação de marketing extraordinariamente bem calculada. A estética “feia”, o lançamento de remixes, a colaboração com nomes de prestígio, a forma como Charli alimentou a conversa nas redes sociais — nada disto foi acidental. Charli XCX é uma veterana da indústria que passou anos como “a artista de culto” sem o reconhecimento mainstream, e Brat foi a jogada que finalmente alinhou a sua visão com o momento certo.
Mas chamar-lhe “fabricado” também não captura a verdade. O que torna Brat especial é precisamente a fusão entre cálculo e vulnerabilidade. Charli sabe exatamente o que está a fazer ao nível da imagem, e ao mesmo tempo entrega umas das letras mais sinceras da sua carreira. Essa tensão — entre controlo e caos, entre estratégia e confissão — é, no fundo, o próprio tema do álbum.
O contexto de uma geração de autoras
Brat não aconteceu no vácuo. Insere-se numa vaga de cantautoras pop que assumiram o controlo total da sua narrativa, escrevendo sobre ansiedade, fama e identidade sem filtros. Tal como o álbum de estreia de Billie Eilish provou que a vulnerabilidade sussurrada podia conquistar estádios, Brat mostrou que a euforia da pista de dança e a confissão íntima não são opostos — podem coexistir na mesma faixa. Charli pertence a essa linhagem de autoras que recusam separar o corpo que dança da mente que duvida.
O impacto na pop de 2024 e além
Brat dominou as listas de melhores do ano de praticamente todas as publicações relevantes, da Billboard à Paste, e ajudou a cimentar a ideia de que 2024 foi um ano excecional para a música. Mais importante: legitimou definitivamente o hyperpop e a sensibilidade da música de clube no centro do mainstream. Artistas que durante anos trabalharam nas margens viram o seu universo sonoro ser celebrado pelos grandes prémios e pelas grandes audiências.
O álbum foi nomeado para Álbum do Ano nos Grammys 2025, numa categoria recheada de pesos-pesados. E, mesmo sem vencer a categoria principal, o seu impacto cultural superou o de muitos vencedores. Brat tornou-se um daqueles raros casos em que o disco define o seu tempo em vez de apenas refletir as tendências.
A lição de Charli XCX
A grande lição de Brat talvez seja esta: na era da saturação de conteúdos, vencer não é ser perfeito — é ser inconfundível. Charli XCX percebeu que um conceito forte, coerente e corajoso vale mais do que mil canções polidas e esquecíveis. Transformou a sua própria ansiedade e ambição em matéria-prima e construiu, a partir daí, não apenas um álbum, mas um momento.
Resta saber o que vem a seguir. O perigo de criar um fenómeno cultural é que ele se torna difícil de repetir. Mas, mesmo que Charli nunca volte a captar o espírito do tempo com esta precisão, Brat já garantiu o seu lugar como um dos discos que melhor definiram a década. Verde-lima e tudo.
O remix como segunda vida do álbum
Um dos golpes mais inteligentes de Charli XCX foi não deixar Brat morrer depois do verão. Em vez de seguir em frente, prolongou a vida do disco com um álbum inteiro de remixes — Brat and it’s completely different but also still brat — em que reescreveu praticamente todas as faixas com convidados de luxo, de Lorde a Ariana Grande, passando por Robyn e Bon Iver. Foi uma jogada rara: transformar um álbum já consagrado num novo acontecimento, dando a cada canção uma leitura alternativa e mantendo a conversa cultural acesa durante mais meses.
Esta estratégia revela muito sobre a forma como Charli pensa a sua carreira. Onde a maioria dos artistas trata o álbum como um objeto fechado, ela trata-o como um organismo vivo, em constante mutação. O gesto também consolidou a sua reputação como uma figura generosa e colaborativa dentro do pop — alguém que prefere abrir o palco a partilhá-lo. Num momento em que a longevidade de um lançamento se mede em dias, Brat manteve-se relevante durante mais de um ano, e fê-lo sem repetir-se. É talvez a prova mais clara de que, por trás do caos cuidadosamente encenado, há uma das mentes mais estratégicas da música atual.
O impacto estende-se à própria indústria. Depois de Brat, tornou-se visível uma vaga de artistas e editoras a tentar replicar a fórmula da “imperfeição calculada” — capas propositadamente cruas, campanhas que fingem espontaneidade, estéticas que rejeitam o polimento. Poucas conseguem, porque o que parecia simples era, na verdade, o resultado de anos de visão acumulada. Charli não inventou o hyperpop nem a estética anti-pop, mas foi quem melhor os traduziu para o centro da conversa. Esse é o verdadeiro legado de Brat: não um som que se copia, mas uma atitude que se tornou referência obrigatória para toda uma geração de criadores.
Sabe mais: explora o universo de Brat no site oficial de Charli XCX, ouve o álbum completo no Spotify e encontra a edição em vinil na Amazon. Para uma análise aprofundada, vê também a cobertura da Billboard sobre os melhores álbuns de 2024.
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