Depois de passar algum tempo a trabalhar com as vozes da linha Starry Court da Eclipsed Sounds, achei sinceramente difícil imaginar que a empresa pudesse lançar algo ainda mais impressionante dentro do ecossistema do Synthesizer V Studio 2 Pro.
Mas aconteceu.
E honestamente, apesar de continuar a achar a Starry Court uma coleção extraordinária de vocalistas AI, a verdade é que pessoalmente fiquei ainda mais fascinado pela linha TONE CHROMA.
Talvez porque aqui existe uma direção artística ainda mais ousada.
Enquanto a Starry Court foi desenhada para funcionar como um conjunto extremamente versátil de vozes compatíveis entre si, a TONE CHROMA segue uma filosofia completamente diferente: cada vocalista foi criado para representar um universo musical muito específico.
Em vez de tentar produzir vozes generalistas capazes de “fazer um pouco de tudo”, a Eclipsed Sounds decidiu construir instrumentos vocais especializados e não VST plugins.
O resultado acaba por ser incrivelmente mais expressivo, mais marcante e, em muitos casos, assustadoramente convincente.

O que é afinal o Synthesizer V Studio 2 Pro?
Para perceber o impacto destas vozes, convém explicar rapidamente porque o Synthesizer V se tornou tão relevante.
Ao contrário de soluções antigas de síntese vocal, o Synthesizer V Studio 2 Pro não funciona como um simples gerador automático de voz. O utilizador continua a controlar melodias, letras, expressão, timing, dinâmica, vibrato e articulação.
A IA limita-se a interpretar aquilo que o compositor escreve.
E é precisamente isso que torna o sistema tão poderoso para produção musical séria.
Estas voicebanks não substituem a criatividade humana. Funcionam antes como vocalistas digitais altamente sofisticados capazes de executar ideias musicais que, para muitos produtores independentes, seriam simplesmente impossíveis de gravar num estúdio real.
Especialmente quando falamos de géneros como metal extremo, ópera, harmonias cinematográficas, jazz vintage e vocalizações experimentais. Tudo isto pode ser construído diretamente dentro da DAW.
A Eclipsed Sounds percebeu algo que outras empresas ainda não perceberam
A maioria das empresas de vocal synth continua obcecada com a ideia de criar vozes “universais”. Mas a Eclipsed Sounds percebeu algo muito mais interessante: os cantores humanos mais memoráveis raramente são neutros.
Têm identidade. Têm defeitos. Têm características muito próprias.
E a linha TONE CHROMA parece construída exatamente em torno dessa ideia. A própria marca descreve esta série como: “Vocals Beyond Fiction”.
E sinceramente, depois de ouvir estas vozes em contexto musical real, percebe-se perfeitamente o que querem dizer.
Por que razão existe a linha TONE CHROMA?
A linha TONE CHROMA representa muito mais do que apenas uma nova coleção de voicebanks para o Synthesizer V Studio Pro.
Na prática, trata-se quase de uma “segunda fase” conceptual da própria Eclipsed Sounds, onde a empresa começou a explorar não apenas a síntese vocal enquanto ferramenta musical, mas também a construção de identidade artística, worldbuilding visual e especialização estilística profunda.
A própria marca refere-se internamente ao projeto como “Phase 2”, descrevendo-o como uma evolução da filosofia iniciada com a Starry Court.
Enquanto a primeira linha procurava criar vozes flexíveis organizadas por alcance vocal, a TONE CHROMA aposta em vocalistas desenhados especificamente para géneros musicais concretos, recorrendo a processamento vocal avançado, modelação expressiva detalhada e às capacidades AI do motor da Dreamtonics.
O resultado são vozes muito mais focadas em identidade tímbrica e interpretação especializada, algo particularmente evidente em HXVOC para rock e metal, GALENAIA para música operática e REMMANT para jazz e sonoridades vintage.
Grande parte desta visão artística e tecnológica é concretizada através da chamada Phase 2 Sub-Team, uma equipa criativa complementar da Eclipsed Sounds que ajuda a transformar a TONE CHROMA numa experiência muito mais ambiciosa do que simples bibliotecas vocais.
Esta equipa inclui criadores especializados em design visual, ilustração, motion graphics, worldbuilding e conceptualização estética. Entre os nomes envolvidos estão Rice como Character Lead, Crispy como Graphics Lead, unit.0 como Worldbuilding Lead e Ozumii Wizard como Key Artist, responsáveis por criar toda a identidade visual futurista e narrativa que rodeia as personagens da linha TONE CHROMA.
A própria Eclipsed Sounds explicou que o desenvolvimento conceptual desta nova fase demorou vários meses, envolvendo não apenas investigação técnica sobre síntese vocal AI, mas também uma forte componente narrativa e estética destinada a diferenciar cada vocalista como uma entidade artística própria.
Tudo isto assenta naturalmente sobre a parceria tecnológica com a Dreamtonics, cujo motor Synthesizer V Studio 2 fornece a base de inteligência artificial, modelação vocal e cross-lingual synthesis que permite à Eclipsed Sounds concretizar estas vozes extremamente detalhadas e expressivas.
Vamso então ao detalhe de cada vocalista para perceber as suas características.

HXVOC: finalmente um vocal synth que percebe rock e metal
Durante muitos anos, rock e metal foram provavelmente os géneros mais difíceis de reproduzir de forma convincente em síntese vocal.
As vozes artificiais tinham tendência para soar demasiado limpas, sem agressividade, sem peso e sem atitude.
Mas, na minha opinião, o HXVOC muda radicalmente esse cenário.
Baseado na voz do cantor e produtor Seann Nicols, o HXVOC foi claramente desenvolvido para lidar especificamente com interpretação agressiva.
E a diferença nota-se imediatamente.
O alcance recomendado vai aproximadamente de A2 até F5, mas o mais impressionante não é propriamente a extensão vocal. É a forma como a voz reage emocionalmente.
Existe uma textura rouca extremamente convincente nas regiões mais agressivas.
Alguns dos modos vocais disponíveis neste vocalista, como Aggressive, Scream, Dark, Rap e Belt, são desenhados especificamente para concretizar uma visão sonora radicalmente diferente do habitual.
O mais impressionante é que não parecem simples filtros artificiais. Soam genuinamente como diferentes abordagens interpretativas do mesmo cantor. E isso é raro. Muito raro.
Na prática, HXVOC é provavelmente a primeira voicebank que ouvi capaz de funcionar convincentemente em géneros musicais como metal moderno, industrial, post-hardcore, alternative rock, nu-metal e cinematic metal, sem parecer um “truque tecnológico”.
Aliás, alguns utilizadores que ouviram os primeiros demos na NAMM chegaram a comentar que o vocal parecia quase impossível de distinguir de determinadas gravações humanas processadas.
Seann Nicols é um renomado vocalista, compositor e produtor com uma carreira igualmente extensa no palco.
Conhecido pelo seu poderoso alcance vocal e interpretação expressiva, Seann liderou bandas como Adler’s Appetite (com Steven Adler dos Guns N’ Roses), Quiet Riot, RATT de Bobby Blotzer e a banda de metal moderno Westfield Massacre, que figurou nas tabelas da Billboard, demonstrando a sua versatilidade numa variedade de projetos de rock e metal.
Para além do seu trabalho vocal, Seann é o fundador da Nerve Strike Records, onde continua a aplicar a sua experiência e criatividade na produção musical moderna.
PLAYLIST PARA OUVIR HXVOC EM AÇÃO
GALENAIA: uma soprano absolutamente absurda em música cinematográfica
Se HXVOC representa agressividade e energia, GALENAIA é praticamente o extremo oposto.
Baseada na voz da soprano colombiana Laura Gómez, GALENAIA foi criada como uma voicebank operática especializada para o Synthesizer V Studio 2.
E honestamente é uma das vozes mais impressionantes que já ouvi em síntese vocal moderna.
Existe uma fluidez quase inacreditável na forma como executa linhas melódicas clássicas.
O alcance ronda aproximadamente C3 até D6, mas o mais impressionante é a estabilidade do vibrato e a naturalidade da projeção vocal nas regiões agudas.
Muitas voicebanks femininas conseguem soar convincentes em frases curtas, mas começam rapidamente a revelar artificialidade em notas sustentadas.
GALENAIA faz precisamente o contrário.
Quanto mais longa e dramática a frase, mais convincente parece.
E isso torna-a absolutamente extraordinária para música cinematográfica, fantasy soundtrack, opera, dark orchestral, trilhas épicas e coral híbrido.

Existe também outro detalhe muito importante: GALENAIA foi a primeira grande voicebank nativa em espanhol dentro do ecossistema Synthesizer V.
Isso acabou por gerar enorme entusiasmo na comunidade, especialmente entre compositores interessados em música clássica, latina e cinematográfica.
Laura Gómez é uma soprano talentosa, dotada de uma voz notável e de uma sólida formação musical. Iniciou a sua trajetória musical no programa da Escola de Música de Medellín, onde descobriu a sua paixão pela interpretação vocal.
Aprofundou os seus estudos na prestigiada Universidade de Antioquia e, desde então, tornou-se uma solista aclamada em diversas produções.
O repertório de Gómez inclui obras-primas de compositores como J.S. Bach e Beethoven, e a sua voz tem cativado o público com a sua beleza deslumbrante.
Teve o privilégio de trabalhar com mentores conceituados e atuou ao lado da Orquestra Filarmónica de Medellín e da orquestra de estudantes da Universidade de Antioquia.
PLAYLIST PARA OUVIR GALENAIA EM AÇÃO
REMMANT: a voicebank mais inesperada da Eclipsed Sounds
REMMANT talvez seja o projeto mais curioso da TONE CHROMA até agora.
Enquanto praticamente toda a indústria parece obcecada com sons ultramodernos, REMMANT segue uma direção completamente diferente: a nostalgia.
Baseado na voz do cantor Mick Cori, REMMANT foi desenvolvido como um vocalista inspirado em jazz clássico, crooners e música vintage americana.
E o resultado acaba por ser incrivelmente carismático.
A voz possui um timbre suave, extremamente musical e quase cinematográfico. Em vez de soar “perfeito”, REMMANT parece deliberadamente humano.
Existe textura. Existe imperfeição. Existe personalidade. E isso ajuda imenso.
Especialmente em géneros como jazz, soul vintage, blues, swing, oldies e noir soundtrack.
A voicebank foi lançada oficialmente em janeiro de 2026 e rapidamente começou a gerar bastante curiosidade precisamente por fugir completamente à estética habitual dos vocal synths modernos.

Pessoalmente, acho REMMANT um dos exemplos mais interessantes de como as vozes digitais podem evoluir para além do simples “realismo”. Porque aqui a questão já não é apenas soar humano.
É soar artisticamente relevante.
Mick Cori é um tenor de grande talento com mais de quatro décadas de experiência à frente de inúmeras bandas de covers e tributo de sucesso na área metropolitana de Nova Iorque.
Com um estilo vocal dinâmico que transcende os géneros musicais de forma única, as suas bandas têm interpretado temas de Doo Wop e Rock Vintage, Soul, R&B e Rock Clássico.
Desde o lançamento de músicas disco-pop no final dos anos 70 até à coautoria e interpretação do papel principal num musical de Doo-Wop em 2016, a experiência de Mick Cori abrange toda a gama de clássicos favoritos.
Em 2022, foi introduzido no East Coast Music Hall of Fame como membro da The Manhattan Skyline Orchestra e, atualmente, atua com o grupo de rock vintage de Long Island, The Precisions.
Porque pessoalmente prefiro a TONE CHROMA à Starry Court
Na minha opinião, a linha Starry Court continua a ser extraordinária: SOLARIA, SAROS, NYL e ASTERIAN são provavelmente entre as melhores voicebanks versáteis do mercado.
Mas sinto que a TONE CHROMA leva a identidade artística muito mais longe.
Estas vozes têm mais personalidade, risco criativo, especialização e presença musical. E isso faz com que inspirem imediatamente ideias de composição.
Quando abro HXVOC, penso automaticamente em riffs pesados.
Quando uso GALENAIA, começo imediatamente a imaginar orquestrações cinematográficas.
Quando carrego REMMANT, quase apetece escrever jazz noir dos anos 50.
Eclipsed Sounds: uma empresa em crescimento
A Eclipsed Sounds é um estúdio criativo independente sediado nos Estados Unidos dedicado ao desenvolvimento de voice databases avançadas para o Synthesizer V Studio Pro.
E a empresa parece ter percebido algo muito importante: o futuro da síntese vocal talvez não esteja em criar vozes genéricas capazes de tudo. Talvez esteja em criar vozes com identidade real.
Com estética. Com personalidade. Com limitações criativas interessantes.
E a linha TONE CHROMA é provavelmente um dos exemplos mais fascinantes disso neste momento. Não são apenas ferramentas técnicas impressionantes.
São instrumentos musicais genuinamente inspiradores.
E talvez seja precisamente essa especialização artística que torna estas vozes tão relevantes para músicos modernos.
Quando um produtor abre HXVOC, GALENAIA ou REMMANT, não sente apenas que está perante “mais uma voicebank”.
Existe imediatamente uma direção criativa implícita. Cada vocalista parece transportar consigo um universo musical próprio, quase como acontece quando um compositor escreve já a imaginar um cantor específico.
Isso acaba por estimular ideias, atmosferas e abordagens de composição que muitas vezes simplesmente não surgiriam diante de ferramentas mais neutras ou genéricas.
Ao mesmo tempo, existe aqui algo profundamente democratizador na forma como estas tecnologias estão a evoluir.
Durante décadas, produzir música dentro de determinados géneros implicava ter acesso a cantores especializados, estúdios caros, sessões complexas de gravação ou até contactos difíceis de alcançar para músicos independentes.

Hoje, um produtor sozinho num home studio consegue experimentar ópera cinematográfica, metal moderno, jazz vintage ou harmonias épicas diretamente dentro da sua DAW, mantendo controlo absoluto sobre melodias, letras e interpretação.
Este cenário não significa substituir músicos reais, mas sim tornar muito mais acessível a possibilidade de qualquer pessoa criar a música que verdadeiramente gosta, dentro do género que mais a inspira, sem ficar limitada pelos recursos técnicos ou financeiros que antes condicionavam tanto a criatividade.
Cada vocalista é tratado quase como um instrumento musical autónomo, cuidadosamente desenhado ao nível do timbre, expressividade, alcance vocal e versatilidade interpretativa.
Essa visão tornou-se particularmente evidente nas linhas Starry Court e TONE CHROMA, onde as vozes foram concebidas não apenas para soar convincentes, mas também para inspirar composição, harmonização e produção musical moderna em contexto real de estúdio.
Não é por acaso que nos últimos anos a Eclipsed Sounds passou de pequeno projeto de nicho para uma das empresas mais comentadas dentro da comunidade Synthesizer V.
A marca tem marcado presença em eventos internacionais de tecnologia musical como a NAMM Show, onde apresenta novas voicebanks, showcases técnicos e demonstrações práticas de edição vocal baseada em inteligência artificial.
Em 2026, voltou a participar no evento em colaboração com parceiros como a Dreamtonics e a AH-Software, recebendo bastante atenção por parte de produtores, compositores e músicos independentes interessados nas possibilidades criativas dos vocal synths modernos.
O CEO Taylor Hennessy tem sublinhado frequentemente o crescimento do interesse público nesta tecnologia e o entusiasmo crescente da comunidade em torno das voicebanks da empresa.
Paralelamente às feiras e apresentações oficiais, a Eclipsed Sounds mantém uma ligação muito ativa à comunidade online através de demos, concursos, colaborações experimentais e interação constante com criadores musicais.
E talvez seja precisamente por isso que a marca deixou de ser vista apenas como uma curiosidade tecnológica: estas vozes respondem a necessidades criativas muito concretas, sobretudo para produtores de home studio, compositores de cinematic music e músicos que não têm acesso fácil a vocalistas profissionais para concretizar as suas ideias.





