Evelyn Glennie: o que é a música?
Salientando a importância do experimentalismo e da descoberta, a percussionista refuta a ideia de que existem dogmas da música. Gostos à parte, Evelyn Glennie afirma que é impossível alguém dizer que uma música é má apenas porque não gosta dela.Porquê? É simples: porque a audição de todo ou qualquer som está muito relacionada com a perceção individual de cada um. Aquilo que em alguém pode despertar boas sensações, noutro pode causar incómodo ou medo até.Voltando à questão de que a audição não se faz só com os ouvidos, Evelyn Glennie refere que há um lado psicológico subjacente a todo o processo. Quando pensamos num trovão, por exemplo, associamos imediatamente o fenómeno da natureza ao seu som característico. Mesmo que inexistente, esse som mental continua a ser importante para a perceção que temos da música.Ao estar tão dependente de cada um, não faz muito sentido tentar estabelecer uma relação direta entre aquilo que o músico pretende transmitir e aquilo que os outros ouvem. Até porque, o que sentimos num dia não é o mesmo que sentimos no dia seguinte.Em suma, há uma infinidade de condicionalismos – a maioria nem sequer são musicais – que interferem na forma como ouvimos. Do ambiente à companhia, passando pelos nossos próprios pensamentos: música é tudo isto, não apenas aquilo que nos chega fisiologicamente aos ouvidos.Evelyn Glennie operou uma mudança de paradigma
Já mais velha, Evelyn Glennie decidiu candidatar-se à Royal Academy of Music, de Londres. A entrada foi-lhe inicialmente vedada, já que havia restrições quanto a deficientes – fossem eles auditivos ou de outro qualquer tipo. A desculpa dada pela academia era aquilo que a maioria de nós pensa: alguém que não consegue ouvir não pode de forma alguma entender a música. Como vimos, esta ideia não podia estar mais errado.A jovem decidiu insistir até que a certa altura lhe deixaram fazer uma audição. Foi a partir daí que o Royal Academy of Music reviu as suas regras, passando a oferecer condições de acesso semelhantes para todos os candidatos, deficientes ou não.Desde então, a afamada escola de música já formou vários artistas com limitações, alguns dos quais tocam nas maiores orquestras do mundo.A missão de ensinar os outros a ouvir
A partir desse momento, Evelyn Glennie começou a encarar como missão pessoal o ato de ensinar os outros a ouvir. Participando em várias iniciativas, a artista procura explorar novos meios de comunicação, dos mais convencionais aos mais estranhos. Em simultâneo, contribui para a desmistificação da ideia de que quem é surdo não pode desfrutar da musica.Na TED Talk que apresentamos em cima, a percussionista chega mesmo a lamentar que, ao longo de muitos anos, se tenha negligenciado a educação musical e o uso do som na vida de quem sofria problemas auditivos. À luz dos dias de hoje, sabemos inclusive que a musicoterapia pode ser uma excelente forma de tratar crianças que sofrem de autismo.Com a iniciativa Teach the World To Listen, Evelyn Glennie pretende criar um centro onde seja possível oferecer às pessoas acesso a novas experiências auditivas, abrindo horizontes e criando novas perspetivas num mundo que se julgava ausente de sons.Afinal, como a própria diz, ouvir é um processo holístico, onde o corpo pode ser usado como câmara anecoica.A carreira de Evelyn Glennie
Ao longo da sua carreira, Evelyn Glennie já lançou mais de 30 discos. Dois dos seus momentos mais altos foram o concerto, de 1992, no Royal Albert Hall (onde se juntaram orquestras de todo o mundo), e a abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012.





