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Vodafone Paredes de Coura 2019 (dia 4): Quando a palavra vale mais do que mil berros

Vodafone Paredes de Coura 2019 (dia 4): Quando a palavra vale mais do que mil berros

No quarto e derradeiro dia do festival de Paredes de Coura 2019, a poesia subiu ao palco e a liberdade dançou no anfiteatro natural do Taboão. 

Foi mais um momento mágico, dos muitos que aconteceram em quatro dias nas margens do rio Coura, com Patti Smith a protagonizar o concerto da noite e um dos melhores do festival. 

Quando a palavra reclama a liberdade e afirma o poder das pessoas, dita num empolgante registo rock, a magia acontece e não é necessário invectivar seja quem for, muito menos a polícia, que nem por lá os vi.

Patti Smith – Paredes de Coura

Para além de mais, Patti Smith diz (leia-se, canta) as palavras com tal convicção que elas parece que se impregnam no ouvinte. 

Foi com o magistral e sempre revolucionário «People have the power» que a norte-americana abriu as hostilidades, agarrando, desde logo, a vasta multidão que assistiu ao concerto. 

Já a fechar, sacou de mais uma pérola, «Gloria», que deixou o público absolutamente rendido e sedento de mais um pouco de rock’n’roll com chancela de alta qualidade. 

Os 72 anos de vida não se notam em palco e a autora de «Horses», que há uns anos tocou na íntegra no Porto Primavera Sound, evidencia muito mais os seus 30 anos de eterna juventude que, surpreendentemente, parece ter. 

Patti Smith – Paredes de Coura

Pelo meio, evocando companheiros de outros palcos e da vida, Patti Smith tocou temas de Neil Young, The Rolling Stones, Jimi Hendrix e Lou Reed, entre outros. Absolutamente mágica a entrega de Patti Smith à música, à palavra e ao público. Verdadeiramente exemplar! 

A seguir veio um momento, perfeitamente, desnecessário, em especial numa edição de elevado quilate.

A actuação de Freddie Gibbs & Madlib, por muito que custe a quem gosta daquilo, resume-se a «fuck police», «motherfucker» e «cocaine», que Gibbs berrou incessantemente durante todo o tempo que esteve em palco. 

É certo que havia uma pequena legião de fãs junto ao palco que estava em delírio (o mosh aconteceu o tempo todo!), mas nada mais. Muito do público estava atónito, tentando perceber como, a seguir a um magistral concerto da decana do rock Patti Smith, a maioria tentava ignorar e todos estavam em sofrimento. 

Freddie Gibbs & Madlib – Paredes de Coura

Seria bom que Freddie Gibbs fosse ouvir Gil Scott-Heron e tivesse visto o concerto de Patti Smith e poupar o Couraíso (como a juventude lhe gosta de chamar) a estas coisas.

Aliás, foram alguns dos próprios fãs de Gibbs a considerarem que o rapper norte-americano, um “gangster” exagerou. Mau, muito mau! 

Esta(s) sonoridade(s) é como um vírus a tentar inocular-se no Paredes de Coura, mas, felizmente, parece que a esmagadora maioria estava vacinada e consegue repelir o bicho. 

E agora voltemos ao que de bom, e foi muito, que a edição 27 de Coura teve.

 Felizmente, os Suede conseguiram salvar o fecho do festival, com uma actuação plena de entrega, empenho e indie-rock do melhor. Sim, tem sido uma das grandes virtudes de Paredes de Coura, ao longos de 26 anos, o dar a conhecer grandes nomes de amanhã do melhor que o indie-rock tem. 

Suede – Paredes de Coura

Ciente que Patti Smith tinha dado um concerto enorme, Brett Anderson não se acanhou e deu tudo (e isso ninguém lhe pode tirar!), conseguindo, assim, ombrear com a senhora do punk, protagonizando o outro concerto da última noite. 

Num concerto pleno de energia, com temas como «Outsiders», «Trash», «Life is golden» e «Animal Nitrate», entre tantos outros, o público rapidamente ficou contagiado… pelo som e pela atitude do vocalista Brett Anderson. 

A fechar, o icónico «Beautiful ones», para no encore os Suede fecharem em beleza com «She’s in fashion» e «New generation». Um concerto muito digno, depois de Patti Smith e do erro de casting de Freddie Gibbs. 

Mas o último dia de festival teve outros momentos interessantes, logo a começar pelo showcase de Time For T, no âmbito das Vodafone Music Sessions, que decorreu no Monte do Irijó, às portas da vila. 

Sensible Soccers – Paredes de Coura

Depois, nota para, no Palco Vodafone.fm, a delicadeza de Alice Phoebe Lou, o doce devaneio dos portugueses Sensible Soccers e ainda o funk jazzístico do inglês Kamaal Williams (pena o início do concerto ter coincidido com o de Patti Smith, o que acabou por interferir nos momentos mais pausados no palco principal). 

Já no Palco Vodafone, a nipo-americana Mitski, com uma performance coreografada ao milímetro (por mais que pareça que não!), cativou o público, quanto mais por estar tão intrigado. 

Com uma mesa e uma cadeira em palco, Mitski dançou, saltou, amou e fez quase tudo o que podia com a mesa e a cadeira. Musicalmente não foi nada de especial, mas foi um momento interessante e que agradou ao muito público que ao fim da tarde assistiu à performance. 

Mitski – Paredes de Coura

Em jeito de balanço de quatro dias de festival Vodafone Paredes de Coura 2019, em que, segundo a organização, passaram cerca de 26 mil pessoas por dia pelo recinto, alvitrar um top para os melhores concertos é complicado, porque esta foi mesmo uma excelente edição. 

Mesmo assim, aqui vai um top 5: pela postura, pelo rock e pela mensagem Patti Smith; pela memória, pela viagem no tempo e pela homenagem aos Joy Division os New Order; pelo rock abrasivo e pela esperança no futuro dos sons mais agressivos em que as guitarras imperam os Black Midi; pela animação, frescura e diversão da sonoridade e pela surpresa os Parcels; e, last but not the least, pela viagem psicadélica, pela apresentação e, fundamentalmente, pela sonoridade os Khruangbin. 

Outros houve que fizeram este vosso escriba sentir aquilo que se procura num concerto ao vivo, como foi o caso dos Spiritualized, dos Car Seat Headrest, dos Deerhunter, dos Cave Story, dos Sensible Soccers, dos Suede e dos Acid Arab. 

Para o ano há mais, entre os dias 19 e 22 de Agosto de 2020 (avança uma semana no calendário), e esperemos por cá andar para poder novamente contar como é que foi. 

Fotos: Sofia Salgado Mota e Hugo Lima

Confira também as crónicas sobre os outros dias do Vodafone Paredes de Coura 2019 nos links em baixo:

Vodafone Paredes de Coura 2019 (dia 1): Lotação esgotada em noite de aquecimento

Vodafone Paredes de Coura 2019 (dia 2): A velha guarda ainda marca a nova ordem

Vodafone Paredes de Coura 2019 (dia 3): A rockalhada em noite para mentes deambulantes

 

Patti Smith – Paredes de Coura

 

Patti Smith – Paredes de Coura

 

Patti Smith – Paredes de Coura

 

Suede – Paredes de Coura

 

Suede – Paredes de Coura

 

Alice Phoebe Lou – Paredes de Coura

 

Kamaal Williams – Paredes de Coura

 

Mitski – Paredes de Coura

 

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