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Vanessa da Mata: “Diverti-me muito, soltei-me e ousei muito mais…”

Vanessa da Mata: “Diverti-me muito, soltei-me e ousei muito mais…”

 

A palavra tranquilidade imperava no discurso de Vanessa da Mata, então uma jovem artista com 28 anos a lançar o seu segundo álbum “Essa boneca tem manual”. Estava no início de carreira, tinha alcançado algum sucesso com o seu álbum de estreia e começava a vencer o nervosismo de subir ao palco e encarar a imprensa. Tinha medo de não corresponder às expectativas com o seu segundo álbum.

Foi esta a Vanessa da Mata que encontrei, em 2004, para uma pequena conversa sobre o seu trabalho. A artista brasileira de Boa Sorte/Good Luck – dueto cantado a par com o norte-americano Ben Harper – passava então pelos palcos portugueses e, ao passar pelo Porto, tive a oportunidade de fazer uma breve entrevista.

Hoje, a sua discografia já conta com 7 álbuns de estúdio e uma carreira de sucesso que vai muito além do Brasil e Portugal. Tornou-se, aliás, de tal forma conhecida a nível internacional que, em 2008, ganhou o Latin Grammy Award. Nesta conversa que agora volto a publicar, a artista fala da sua musicalidade, da influência da avó Sinhá no seu trabalho enquanto artista e de como escapou à medicina.

Goreti Teixeira (GT): Tem alguma explicação para o título que escolheu: “Essa boneca tem manual”?

Vanessa da Mata (VdM): Há um manual dentro daquela aparência maquilhada de boneca. No Brasil, os homens mais safados quando vêem uma menina que acham muito bonita usam uma cantada que é: “hum…mas que boneca!”. E o quero dizer é que esta boneca diz coisas e canta…

GT: É uma boneca que pensa?

VdM: Exactamente. Eu não queria dizer, mas como foi você que disse… (risos)

GT: Como é que uma pessoa que nasceu numa pequena cidade em Mato Grosso consegue adquirir tanta musicalidade?

VdM: Acho que é precisamente pelo facto de ter nascido numa cidade pequena. Existe muitas pessoas da literatura brasileira que nasceram numa cidade que tem muita exuberância, numa sociedade muita apimentada como é o meu caso, onde você encontra a mulher adultera, o padre safado, a senhorinha que cura as pessoas ou a senhora recatada muito reprimida pelo marido. Existe uma riqueza grande de histórias. É uma sociedade pequena e, portanto, muito evidenciada pelas fofocas. É uma novela real.

Aprendi muito inserida nesse meio e recolhi muito material para cantar e escrever. O que se torna engraçado para muitas pessoas é que eu não tive a sofisticação de uma cidade grande para poder escrever e aprender música. Eu não li literatura na minha infância porque não havia esse hábito. É, por essa razão, que as pessoas ficam surpreendidas e interrogam-se como é que eu escrevo coisas que para muitos são simples e ao mesmo tempo sofisticadas. Mas acho que também ter a ver com o facto de ser muito perfeccionista e querer que as coisas saiam com qualidade.

GT: Já aprendeu a tocar algum instrumento?

VdM: Estou aprendendo, mas como nunca fui uma pessoa muito disciplinada tenho uma certa dificuldade em estudar todos os dias. Neste momento estou a aprender a tocar guitarra.

GT: E está a correr bem?

VdM: Com uma preguiça enorme (risos). Continuo a saber um só música, mas quando voltar ao Brasil se tiver tempo…

 

GT: É verdade é que tem cerca de 300 canções anotadas num caderno e que costuma trazer um gravador no bolso?

VdM: Tenho mais de 300 canções. Com 22 anos tinha 250, neste momento estou com quase 30 e tenho bem mais. No entanto, não significa que elas sejam todas boas (risos).

GT: Li que nos primeiros concertos que deu o nervosismo era ultrapassado no fim dos cinco primeiros temas. Como é agora?

VdM: Hoje em dia já entro completamente relaxada. É claro que existe a emoção de entrar em palco, mas o nervosismo que no início me atrapalhava a cantar, principalmente no primeiro disco já não acontece. Havia muitas expectativas das pessoas em relação a mim e tinha a necessidade de que tudo saisse perfeito. Não existia curtição, nem prazer.

GT: Fala sempre com muito carinho da sua avó, a Dona Sinhá, que a inspirou em temas como «A Força que Nunca Seca» e «Canto de Dona Sinhá». O que de tão especial tinha a sua avó?

VdM: Era uma senhora com uma humanidade gigantesca. Uma senhora que criou várias pessoas que não tinham pais, que benzia e conhecia tudo sobre ervas. Era muito católica, mas tinha uma sensibilidade enorme. Previa coisas na família e avisava quando algo de muito ruim estava para acontecer. Ensinou-me muito sobre a vida e a percebê-la de um jeito grandioso.

Acho que é por isso que compunho desta maneira, falando da vida de uma forma positiva, querendo ajudar as pessoas através da música, porque a música transforma. A minha avó morreu há um mês e até nesse momento foi muito especial. Chamou toda a família, disse que não tinha medo da morte, mas da dor da morte. Estava a ir embora, mas a transformação assemelhava-se ao parto. Quem não agradece por ter uma pessoa desta por perto.

GT: O sonho do seu pai era que tivesse estudado medicina, mas a Vanessa sempre quis ser cantora. Foi complicado contrariar a aspiração do seu pai?

VdM: Complicadissimo. Somos de uma cidade muito pequena, recata, tradicionalista, cheia de tabus e uma primeira filha que banca os seus sonhos é um pouco complicado para um pai fazendeiro perceber isso. No início foi duro, mas depois viu que não tinha jeito e então pediu-me para estudar. É claro que respeitava a opinião dele, porque é muito dificil ser cantora no Brasil e, de certa forma, hoje dou-lhe razão, mas ele também me dá razão a mim.

Gosta da minha profissão, é solidário, diz aos amigos com muito orgulho que é meu pai, também porque o resultado foi muito positivo. A arte no Brasil sobrevive aos trancos e barrancos. Não falo por mim, porque consegui alcançar um patamar tranquilo, mas há muita gente que não consegue gravar um disco, nem apresentar o seu trabalho. Você paga para mostrar o seu trabalho.

GT: Incomoda-a quando a crítica compara a sua voz à da Marisa Monte?

VdM: Sempre que se faz uma comparação alguém perde. Apesar de achar o trabalho dela muito bom, nunca quis me parecer com a Marisa Monte. Acho que ela faz um trabalho com muita seriedade e dignidade, mas eu sempre quis ser original. Penso que as comparações têm um pouco a ver com o mercado, mesmo porque é dificil explicar a música. E então quando aparece uma nova cantora e alguém pergunta: como é que é a voz dela ? Ninguém diz que tem uma voz doce ou aguda. Para facilitar dizem que se parece com Gal Costa, Adriana Calcanhoto ou Marisa Monte. Uma maneira mais tranquila de se explicar para um leigo como é a cantora.

 

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