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12 canções da trilha sonora popular do filme Paraíso Perdido

12 canções da trilha sonora popular do filme Paraíso Perdido

Lançado em 2018, o filme Paraíso Perdido conquista todos os amantes da música popular brasileira pela sua trilha sonora e as escolhas dos artistas para interpretar os personagens e as interpretações que eles dão para os clássicos da música ‘cafona’.

O trabalho da diretora Monique Gardenberg foi um presente a estes artistas (preconceituosamente chamados de brega), mas que sempre foram aclamados pelas massas mais populares do nosso país.

Entre eles se encontram Odair José, Waldick Soriano, Reginaldo Rossi, Fernando Mendes, Márcio Greyck, Angela Maria, Agnaldo Timóteo (e por que não Roberto Carlos?). Todos encontram-se representados nesta longa metragem.

Na boate de José (interpretado por Erasmo Carlos), chamada de Paraíso Perdido, encontra-se um núcleo familiar diversificado com várias pessoas agregadas. O ambiente onde sempre é noite (a iluminação do local é uma eterna penumbra) é marcado não somente pelo sentimento de perda de cada morador, mas também pela paixão, pela esperança e pelo respeito à liberdade do outro.

Neste texto do Mundo de Músicas, selecionamos 12 canções que fazem parte da trilha sonora do filme e fizemos alguns comentários em cima do que se passa no filme com um pouco da história de cada uma destas canções e seus intérpretes originais.

1 – Doce pecado

O cantor e compositor Seu Jorge, um dos maiores nomes da música brasileira na atualidade, interpreta o motoboy Taylor, que também é cantor na boate de José (seu pai de criação). Taylor canta “Doce Pecado”, sucesso do rei da música popular (também chamada de música brega ou cafona) Reginaldo Rossi. A composição do também artista Fernando Mendes, que fez sucesso nos anos 70, se configura como mais um tema romântico-sensual do mundo brega.

“Você foi verdade

A felicidade que eu queria

Você foi bem mais

Você foi a paz que eu não conhecia

Meu doce pecado

Meu sonho acordado, alegria!

Você foi loucura!

Você foi ternura, minha fantasia!”

2 – Não creio em mais nada

Próximo ao final do filme, quando o clima começa a ficar tenso, o personagem Angelo, interpretado pelo talentosíssimo ator Júlio Andrade, interpreta a canção desesperada e pessimista do cantor Paulo Sérgio. A interpretação tão boa que merecia ser lançada na íntegra ao menos em algum serviço de streaming.

Segundo o historiador Paulo César de Souza, autor do livro Eu não sou cachorro, não, a canção do final dos anos 1960, lançada em contexto de regime militar no Brasil, e curiosamente trazia uma mensagem de desesperança em tempos em que a propaganda do governo dizia para que as pessoas acreditassem no futuro e no progresso da nação. O Brasil todo cantor Não creio em mais nada com Paulo Sérgio, conscientes ou não do que estava acontecendo no campo econômico e político. Vale a pena conferir a música original e a versão do filme!

“Há dias na vida

Que a gente pensa que não vai conseguir

Que é bem melhor deixar de tudo e fugir

Que outro mundo tudo vai resolver…”

3 – As minhas coisas

A canção emotiva de Odair José aparece no personagem de Angelo, que é grande fã do artista. Além de ouvir suas canções, tem um visual parecido com o usado pelo cantor nos anos 70, com casacos de pele, camisas de botão justas com peitoral aberto e colares. A música fala da tamanha tristeza pela partida de alguém amado que até as coisas ‘sentiram’ falta deste alguém com quem havia se acostumado…

É bastante passional e ajuda a contar um pouco da dor que o personagem Angelo sente, pois por uma questão de orgulho não soube perdoar aquela que ele diz ter sido o amor da sua vida. No final, Lee Taylor faz o papel de um policial chamado Odair, que a diretora do filme revelou ser uma homenagem a Odair José.

“As minhas coisas de repente estão tristes

Compreenderam que não existe nada mais entre nos

Meu violão caiu de cima do armario

Suas cordas arrebentaram dando adeus a minha voz

O meu casaco com você se acostumou sentiu tanto a sua falta que de tristeza desbotou…”

4 – Amor marginal

Imã é uma personagem interpretada pelo jovem cantor paraense Jaloo. Ele é um homem que se veste de mulher para as suas apresentações na boate do seu avô José. O curioso é que, ao contrário do que acontece em um ambiente familiar dito ‘normal’, na família de José todos lidam naturalmente com as expressões do outro, sejam artísticas ou relacionadas a sua afetividade.

A boate Paraíso Perdido, que dá nome ao filme, é um ambiente especial para se mostrar no cinema, um lugar onde todos podem ser marcados por acontecimentos dolorosos, mas que todos sentem-se à vontade (seguros e amados) para poderem se expressar. Em uma das cenas, Imã, que vive um frouxo laço afetivo com um professor de inglês inseguro quanto ao seu desejo sexual, canta Amor marginal, de Johnny Hooker. A música parece retratar os amores indecisos e ‘marginais’ daqueles que não sentem-se seguros para assumir a sua homossexualidade.

[Obs.: Apesar de ser considerada uma canção pop, foi lançada ainda nesta década, cabe lembrar que aquilo que hoje consideramos brega foi considerado atual há tempos atrás. Talvez amanhã venhamos a taxar (com o mesmo preconceito que hoje há para com a canção romântica e popular de décadas atrás) não só esta canção, mas outras tantas de Ivete Sangalo ou das mulheres do atual Sertanejo Pop de canções cafonas…]

“Meu amor, me faça acreditar que tudo é possível

Pois eu temo que não amanheça se você se for

Respirando mágoas de uma outra dor, do nosso caso imoral

Desse amor, desse amor marginal, eu vou

Pra calar o sexo mais banal, pra virar poesia

Desse amor, desse amor marginal, eu vou…”

5 – Tango pra Teresa

Em uma cena curiosíssima, Angelo e Imã discutem sobre o preconceito para com os homossexuais. Os dois se questionam sobre o que motiva uma pessoa a atacar, agredir, reagir negativamente à liberdade de escolha do outro. Esta é uma cena em que o tio responde ao sobrinho que as pessoas odeiam aquele que vive a sua liberdade por não conseguirem lidar com a sua própria.

Para dar uma leveza à cena, ele tira Imã para dança ao som de Tango pra Teresa, clássico de Angela Maria. Composição da dupla Evaldo Gouvêia e Jair Amorim, Imã diz que não se imagina amando uma mulher (o que atrapalharia sua entrega à canção sobre ‘Teresa’), mas Angelo reafirma a escolha da canção da seguinte maneira: “se até Angela Maria conseguiu se imaginar amando uma mulher…”. Uma curta cena musical, um recorte bonito.

“Garçom, põe a cerveja sobre a mesa

Bandoneon, toque de novo que Teresa

Esta noite vai ser minha e vai dançar

Para eu sonhar…”

6 – Sonhar contigo

Celeste, interpretada por Julia Konrad, é uma das personagens mais cativantes em cena. Ela vive uma situação sentimental delicada, está grávida e tem sentimentos confusos sobre o seu amor pelo pai da criança. Em uma interpretação no palco da Paraíso Perdido, ela canta Sonhar contigo, sucesso do cantor e compositor Adilson Ramos.

A canção também ficou famosa pela versão de Agnaldo Timóteo. Ela adapta o original “querida” para “querido”, a fim de trazer a música mais para perto da sua realidade. Simplicidade bonita demais!

“Sonhar contigo por toda vida

Sonhar contigo, meu amor

Minha querida

Viver pensando em ti somente

Viver te amando, ser só teu

Eternamente…”

7 – Quem tudo quer, nada tem

Um dos grandes nomes do bolero no Brasil foi Anísio Silva. Apesar de seu nome estar totalmente esquecido na atualidade, ele foi um dos maiores sucessos em vendas no país, compondo um time de artistas de interpretação única que mantiveram sucesso nos anos 60 e 70, mesmo sendo originais das décadas anteriores.

O mais interessante é que Anísio Silva não apelava para os ritmos e gêneros surgidos naquelas décadas, mantinha-se fiel ao bolero e ao samba-canção. “Quem tudo que, nada tem” é um ditado popular que foi transformado em música pela dupla Evaldo Gouvêia e Jair Amorim. No filme, a responsabilidade é depositada em Erasmo Carlos, que interpreta José.

Além de dono da boate Paraíso Perdido, ele é o pai da família e a referência, o esteio de todos os que se encontram debaixo do seu teto. É pai de Angelo e Eva (personagem de Hermila Guedes que inicialmente está cumprindo pena por assassinato), avô de Celeste e Imã e pai de criação de Taylor. Marcado pela dor da perda de sua esposa e pela responsabilidade de criar sua família, criou na boate um ambiente de amor e liberdade. Embora seja o orquestrador de tudo o que ocorre no filme, a vida o ensinou que no amor não se pode ter tudo e no coração só cabe “um só bem”. É um personagem de tom trágico, e Erasmo traz esse tom na sua interpretação. A sua voz é suave e seu canto doce, assim como Anísio.

“Quem tudo quer do amor nada terá

Quem muitos sonhos vive nada tem

Em cada um de nós só há

Só deve haver lugar

Para um só bem…”

8 – 120… 150… 200 Km/H

Em uma cena gravada no terraço da boate de José, o cantor Angelo e a sua filha Celeste se encontram para discutir sobre questões relacionadas ao drama de amor vivido pela jovem, que está grávida do homem que ama. O vontade de sair alucinadamente por uma estrada para fugir dos problemas aparece através deste clássico de Roberto Carlos.

Naquela noite, enquanto os dois conversam entre tantos edifícios altos e luzes de janelas acesas, o patriarca José chega cantando esta canção. Este é um dos momentos mais metalinguísticos do filme, pois quem interpreta este personagem é o cantor Erasmo Carlos, que é coautor da canção! Juntos, os três cantam 120…150…200 Km/H enquanto a montagem termina a canção com a gravação original de Roberto de 1970. Uma cena que vale a pena ser vista!

“Vou sem saber pra onde, nem quando vou parar

Não, não deixo marcas no caminho pra não saber voltar

Às vezes, às vezes sinto que o mundo se esqueceu de mim

Não, não sei por quanto tempo ainda eu vou viver assim…”

9 – Impossível acreditar que perdi você

Esta canção faz parte da trilha sonora da boate. Foi cantada por Imã, em uma interpretação que apesar de refletir o drama da poesia não conseguiu alcançar uma beleza vocal próxima a do cantor e compositor Márcio Greyck. Também interpretada por Fábio Jr. esta é uma canção que pede outro tipo de voz e também outro tom.

Mesmo assim, vale a pena ver esta obra prima dos anos setenta na tela. A música conseguiu se encaixar nas cenas iniciais em que é mostrada a dor da perda de alguém amado, a dor da distância. Imã é um personagem marcado por perdas familiares e afetivas, e esta música ajudou a contar esta história.

“Não, eu não consigo acreditar no que aconteceu

É um sonho meu, nada se acabou

Não, é impossível, eu não consigo viver sem você

Volte e venha ver, tudo em mim mudou…”

10 – Tortura de amor

O clássico de Waldick Soriano, um dos grandes e pioneiros do gênero chamado brega, fica reservado para a voz de Seu Jorge, que se mostra à altura desta música que já foi gravada por vários artistas como Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, Angela Maria, Cláudia Barroso e Agnaldo Timóteo. Jaloo, no papel de Imã, participa da cena e da interpretação, formando um bom dueto com o carismático Taylor.

“Volta! Fica comigo só mais uma noite

Quero viver junto a ti

Volta, meu amor

Fica comigo não me desprezes

A noite é nossa e o meu amor pertence a ti…”

11 – Todo sujo de batom

A última música do longa é um clássico do já saudoso cantor Belchior. O poeta cearense compunha com facilidade, indo desde canções com tom existencial até bonitas baladas românticas. Interpretada magistralmente por Júlio Andrade, é uma canção que dá leveza ao filme, que por vezes toca em temas ditos espinhos e mexe um pouco nos tabus sociais.

“Quero uma balada nova

Falando de brotos, de coisas assim

De money, de banho de lua, de ti e de mim

Um cara tão sentimental

Quero a sessão de cinema das cinco

Pra beijar a menina e levar a saudade

Na camisa toda suja de batom”

12 – Sextou

A carga de drama que as maioria das canções trazem a esta obra é quebrada por alguns momentos como no final e também uma cena em que eles estão em um parque de diversões. Entre carrosséis, barracas com brincadeiras e prendas e uma roda gigante, o ambiente iluminado ajuda a dar um tom mais alegre ao filme.

Talvez sirva para mostrar a vida em seu aspecto tragicômico, pois embora sejamos marcados por dramas e perdas ao longa da nossa vida (assim como os personagens de Paraíso Perdido), nós podemos viver com alegria, nos esforçar para viver momentos alegres e não se prender sempre aos momentos de dor. A canção Sextou é do cantor Israel Novaes, que faz parte do novo movimento chamado Sertanejo Universitário. É a escolha mais atual que faz parte da trilha do filme.

“Sextou, sextou

Hoje ninguém me acha, o celular descarregou

Sextou, sextou

Só chego de manhã agarrado com um novo amor”

 

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