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Tony Bennett, as suas pinturas de Cascais e o desejo de cantar depois dos 100 anos

Tony Bennett, as suas pinturas de Cascais e o desejo de cantar depois dos 100 anos

 

Chegou ao Hotel Estoril Sol em passo lento, ligeiramente corcovado, os cabelos brancos alinhados, permanente sorriso do tamanho do Mundo, o homem dos cinco minutos de jazz que se aproxima, cambaleante por causa das doses de uísque, um abraço sentido, eu admirando-lhe o jeito de boa pessoa e a voz na posse de todos os incomensuráveis recursos que fizeram com que Frank Sinatra o tivesse apelidado de “o melhor cantor do nosso firmamento musical, o expoente máximo de uma canção” e Bing Crosby afirmasse que ele era “o melhor entre todos os cantores que conheço”.

O jeito humilde e a emoção nada esmorecida com a idade, a voz com que na noite seguinte, certo Maio de 1996, tinha comovido no Centro Cultural de Belém, ali igualmente profunda, como se cantasse “Here’s to the Ladies” ou recorresse às igualmente eternas Billie Holyday, Ella Fitzgerald ou Sarah Vaughan.

Aguardei serenamente pelo momento chave para então dele me abeirar, igualmente afectuoso, acompanhando-o em passo lento e perfeita tranquilidade até à varanda, ao ritmo da graciosidade da vista. “Faz oito anos que neste mesmo lugar vivi uma experiência fantástica, imortalizada num dos meus quadros preferidos. Chamei-lhe precisamente “Baía de Cascais”, exclamou, saudoso.

 

Santa ignorância. Confesso que nem sequer tinha ideia que Tony Bennett, ou melhor Anthony Benedetto, há mais de 40 anos que pintava. “A música e a pintura são as duas paixões da minha vida. Quando estou em palco penso na pintura e quando pinto penso nas canções. Quando subo ao palco as luzes têm sobre mim um efeito impressionista que afecta os improvisos que faço. Tanto a música como a pintura são acerca da vida, da forma, do balanço”. O sol radiante, o momento esplendoroso, tudo sereno como Bennett, um prazer raro de estar ali com aquele vulto vivo, doce, deliciosamente calmos.

Enternecido, ouvi-o mais que perguntei, absorvendo cada palavra como se fosse a última, aproveitando ao máximo a sensação de bem-estar que aquele senhor, então com 69 anos, me proporcionava. De repente, uma leve brisa nostálgica, e um pensamento quase perturbador: será que o irei voltar a ver? Ele, como quem adivinha, olhando os barcos dormitando lá ao fundo, deu-me uma palmadinha nas costas e disse, quase sussurrando: “não penses nisso. Tenho a certeza que irei cantar até aos 100 anos”. Engoli em seco para secar a lágrima, teimosa, que se avizinhava.

   

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