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Simone de Oliveira: “Tenho medo de cantar mal”

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Simone de Oliveira: “Tenho medo de cantar mal”

 

Com uma infância e uma adolescência felicíssimas, Simone de Macedo e Oliveira afirma ter tido os melhores pais do mundo (Guy de Macedo e Oliveira e Maria do Carmo Lopes da Silva). Nasceu no dia 11 de Fevereiro de 1938, em Lisboa às 00h30. Aos 8 meses, foi viver para uma quinta nos Olivais onde o pai era gerente de uma fábrica.

Aos 19 anos casa-se porque achava que era isso que queria. Enganou-se e passados apenas dois meses, estava de volta a casa dos pais. Entrou em depressão e o médico deu-lhe como cura terapia ocupacional. Foi-se inscrever no Centro de Preparação de Artistas da Emissora Nacional. Depois de a ouvir cantar, Mota Pereira perguntou-lhe “Mas onde é que você estava?”. Finalmente, Simone tinha descoberto o seu caminho.

Depois venceu o I Festival da Canção Portuguesa, em 1958, quando este ainda era apenas passado na rádio. Tinha nascido uma nova estrela do nacional-cançonetismo, estrela essa que deixava adivinhar em cada nota da sua voz, a força com que cantava. (Em 2017, rejubilou com a vitória de Salvador Sobral no Festival Eurovisão da Canção).

Em 2008, tive a oportunidade de entrevistar Simone de Oliveira. Agora, alguns anos depois dessa entrevista, volto a trazer à luz do dia esta breve conversa que tivemos e onde a artista analisa a sua carreira e revela o seu lado mais intimista.

Simone de Oliveira: “O médico disse-me que não cantaria mais”

Goreti Teixeira (GT): Como é que uma criança que se definia como “pacífica, bonacheirona, gordinha e a quem não faltavam os caracóis” e que recebeu da mãe a alcunha de “pé-põe” passa dessa candura para o estado de vitalidade que é hoje uma das principais características da sua personalidade?

Simone de Oliveira (SdO): Se eu soubesse responder a isso… Naturalmente, descobri uma série de coisas que não consigo perceber muito bem, porque considero que não são muito vulgares. Fui uma miúda muito bonacheirona e muito pacífica, contudo, quando começo a cantar – por razões que nunca contei, mas talvez um dia conte – deve ter sido essa pancada que levei no nó da cabeça e que foi tão grande que me levou a deixar de ser essa menina ainda muito nova. Como já expliquei várias vezes fui parar ao centro de preparação dos artistas da rádio para sair da cama. Para a cabeça não dar volta. E, quando eu acordo dessa face já a cantar, nasci outra pessoa. Aquela menina que achava que a vida era um mar de rosas, que queria ir para o colo do pai e a quem a mãe chamava de pé-põe morreu aos 19 anos.

GT: E é possível materializar em palavras toda essa força interior que a tem ajudado a ultrapassar algumas rasteiras que a vida lhe tem feito?

SdO: Não sei, não sei, não sei… A vida deu-me várias vidas para eu viver e há uma coisa qualquer que não percebo. Levo sempre isto não para um lado católico, apostólico e romano, mas para um lado esotérico. Eu de mim para mim, dos médicos para mim, de mim para os médicos, dos médicos para as enfermeiras, há qualquer coisa que não consigo explicar. Não é normal com esta idade ter a voz que tenho, não é normal ter este cabelo depois de não sei quantas sessões de radioterapia, não é normal. E se me perguntar porquê eu não sei responder. Não é comum, mas também lhe digo uma coisa: não é fácil gerir a idade do bilhete de identidade, com a idade que tenho dentro de mim, da minha cabeça, da minha alma.

SimoneGT: Com que idade se sente?

SdO: Sinto-me uma pessoa com 45 ou 50 anos. No entanto, aos 70 anos que é a idade que consta no bilhete de identidade não me posso permitir àquilo que chamo ridículos.

GT: E que ridículos seriam esses?

SdO: Imagine que me apaixonava por um senhor de 40… ora, se me sinto com 45 ou 50 interiormente era perfeitamente passível de acontecer, mas o bilhete de identidade diz o quê? E os filhos de 46 e de 48 dizem o quê?

GT: Haveria um preconceito em relação a isso?

SdO: Este País dava cabo de mim. Não tenha a menor dúvida. Nós somos um País de brandos costumes, contudo também de falsos moralismos, mas não quer dizer que não sejamos um País extraordinário, que eu amo muito. A gente mais nova talvez seja mais aberta…

GT: Ainda aceita qualquer desafio?

SdO: Sim, desde que sinta que sou capaz de o fazer, que não faço muitas asneiras e que não coloco as outras pessoas em situações más.

GT: Que outros medos tem?

SdO: Tenho medo de cantar mal. De que a voz não esteja bem. De que o público não goste. Tenho medo da fome, das raivas, dos apartheides. Tenho medo em relação às pessoas. Ao humano. Por outro lado, não tenho medo de falar com o sr. Presidente da câmara. Não tenho medo do jornal, nem da polícia.

GT: Quando fala em ter medo da voz…

SdO: Eu já perdi a voz uma vez e apareceu outra. Perdi a voz por excesso de trabalho, por ser mal colocada, porque não tive nenhum problema extra como algumas pessoas pensam que teve a ver com um problema oncológico, mas não. Depois apareceu esta voz sem os agudos e que também não sei explicar de onde veio. O que me levou a pensar um dia, até porque o médico que me disse que eu não cantaria mais, que se voltasse a cantar tenho de respirar, de frasear, de colocar a voz de outra maneira.

Simone de Oliveira: por detrás da artista está a mãe e a avó

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GT: Como é a Simone mãe e avó. Consegue acompanhar o ritmo acelerado da nova geração?

SdO: Consigo. Com os netos de 18 anos tenho uma relação muito próxima. Falámos das namoradas, da sida, dos preservativos de tudo o que possa imaginar. Não tenho ataques de espanto. Às vezes o meu filho diz-me: “Oh mãe, fale com o André”. Eu não pergunto nada, só sei que eu sento-me e passados cinco minutos, se ele tiver alguma coisa para falar, diz-me assim: “Olhe…”, e eu digo, manda lá…

GT: Também sempre foi assim com os seus filhos?

SdO: Sempre.

GT: Como é que eles viveram a profissão da mãe?

SdO: A minha filha não tem um grande relacionamento com a Simone de Oliveira. Tem um grande relacionamento com a mãe, mas a Simone de Oliveira é um produto que às vezes a incomoda. Isso porque passaram muito e ouviram muita coisa na altura da Desfolhada, em que a Eduarda tinha 10 anos e o Pedro tinha oito. Eram reconhecidos na rua, foram para o liceu, para a faculdade e era a filha da outra que dizia “quem faz um filho, fá-lo por gosto”. Isso magoou-os muito e marcou-os muito. A minha própria vida pessoal também não era comum, porque não casei com o pai deles, assumi, contei tudo e eles foram extraordinários, como o meu pai e a minha mãe que só me aceitaram por amor.

GT: Apesar de tudo por que passou considera que a vida…

SdO: Tem coisas fantásticas. O estar viva, o ter tido problemas oncológicos e ter sobrevivido, o deixar-me viver esta vida que eu amo, o deixar-me ter os amigos que tenho, os filhos e os netos também, o relacionamento que tenho com as pessoas, isso não há nada que pague. Naturalmente não são as grandes coisas, são as pequenas que não vêm escritas nas páginas dos jornais. E que são as mais importantes.

 

GT: Não há tempo para se estar mal?

SdO: Estou três ou quatro dias mal e depois fico muito cansada de estar mal. E sem saber porquê instintivamente dou a volta por cima. Deve ser a minha apetência por gostar de viver que faz com que isso aconteça. O Varela, por exemplo, não era uma pessoa que gostasse tanto de viver como eu. Era um homem muito mais triste, muito mais sozinho mesmo em casa, eu não. Procuro não ser. Não quer dizer que às vezes não tenha algumas crises, mas…

GT: O Varela Silva que a ensinou a não reagir tão impulsivamente?

SdO: Ele era um homem muito sereno e calmo. Eu era mais impulsiva e hoje sou muito mais. De vez em quando tenho de esfriar um bocadinho para não dizer uma meia dúzia de barbaridades, mas mesmo barbaridades!

GT: Ao longo deste percurso alteraria algum trajecto?

SdO: Não. Mas, como já disse várias vezes, com algum tacto teria burilado determinadas coisas que teriam com certeza magoado menos os meus pais que tinham às vezes uma grande dificuldade em entender este bicho que eu sou.

GT: Não se arrependeu ter recusado, em 1967, uma proposta do Bruno Coquatrix responsável pelo Olympia de Paris para fazer uma carreira internacional?

SdO: Não. Jamais deixaria o meu pai e a minha mãe. Jamais deixaria os meus filhos, porque já os tinha. Não trocava nenhuma casa com piscina por nada deste mundo em relação a estar mais perto dos meus filhos, ou mais perto do meu País e ou mais perto dos meus pais. Tive tudo na mão para o fazer. Não o fiz e nem me apetece.

Simone de Oliveira: “Tenho saudades é do futuro…”

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GT: Que desejo, sonho ou experiência ainda lhe falta concretizar?

SdO: Tenho tudo para viver. Tenho saudades é do futuro…

GT: E o que espera desse futuro?

SdO: Mais uma peça, mais uma telenovela, mais uma gargalhada, mais uma lágrima… Eu farei aquilo que a vida me permitir e me der para fazer.

GT: Em qual dos palcos melhor se sente: teatro, cinema ou televisão?

SdO: Gosto muito de televisão. Gosto muito de teatro. Gosto muito de cantar. Gosto de escrever. Cada trabalho que faço, faço-o exactamente com a mesma paixão. Em televisão, gosto muito de fazer coisas em directo.

GT: De estar sem rede?

SdO: Claro, isso é que dá a adrenalina.

GT: A mesma com que ainda entra em palco para cantar?

SdO: Sim. Posso estar a morrer, mas quando chego lá cima passa-me tudo.

GT: E nunca janta antes de um espectáculo?

SdO: Sou incapaz de ir para um restaurante e pensar: agora vou jantar! Impensável. Por isso, fico sozinha nos teatros, nos auditórios, onde quer que seja a apresentação.

GT: Assume o passar da idade com tranquilidade? As rugas não a incomodam?

SdO: Não. Nenhuma. O que vou fazer? Passar a cara a ferro?

GT: Fazer plásticas, por exemplo? Ou seria desvirtuar a Simone de Oliveira?

SdO: Seria desvirtuar a Simone de Macedo e Oliveira, a outra. Estou farta de operações e de hospitais. Para se estar de bem com a vida é fundamental saber envelhecer. Saber envelhecer é não andar a pôr botox a toda a hora, porque é enganar. Não se pode pôr botox no coração, nos braços, na alma… Dizer-lhe que é muito agradável ter muitas rugas, digo-lhe que não é, mas há que aceitar isso como um dado adquirido.

GT: Portugal tem-na tratado bem?

SdO: Tem. Seria uma injustiça da minha parte dizer o contrário. Nem sempre terá sido maravilhoso, mas de há uns anos a esta parte tem me tratado muito bem.

   

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