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Scott Weiland não vás embora, fica mais um pouco

Scott Weiland não vás embora, fica mais um pouco

 

Scott Weiland, o peculiar vocalista dos Stone Temple Pilots e dos Velvet Revolver, morreu na quinta-feira, dia 3 de Dezembro de 2015. Na sua página do Facebook, um breve comunicado indica que o cantor foi encontrado morto no autocarro, durante a digressão com o seu grupo mais recente, os The Wildabouts. O grupo estava em Bloomington no estado norte-americano do Minnesota, onde estava marcado mais um concerto. Todas as notícias apontam que as razões do falecimento do carismático cantor de 48 anos não são conhecidas. Porém, todos os admiradores da carreira e percurso de Scott Weiland sabem muito bem por que razão este artista original deixou de existir.

Existe um velho hábito nas redacções dos jornais relacionado com a morte de pessoas famosas. De maneira a estarem sempre preparados para publicar de imediato o perfil em jeito de obituário, os jornalistas habitualmente mantêm uma lista de nomes cujas mortes são prováveis nos próximos tempos e preparam antecipadamente o texto para publicar o mais rápido possível após o falecimento de mais uma estrela da música, por exemplo.

Nesta manhã em que escrevo este artigo, dia 4 de Dezembro de 2015, apenas escassas horas depois da morte de uma das mais singulares vozes do rock das últimas décadas, existiam já milhares de artigos publicados online e offline sobre a vida e obra de Scott Weiland. É natural: a morte do eterno vocalista do Stone Temple Pilots é surpreendente, mas não pelo seu desfecho final, nem quanto à forma, nem quanto às causas. Diria mesmo que é surpreendente por ter demorado tanto tempo.

Scott Weiland entre a justiça e a música

Acredito que muitos dos tais artigos-obituários preparados de forma antecipada tiveram de ser reescritos várias vezes ao longo dos últimos 20 anos. Sim, há mais de 20 anos que Scott Weiland estava perto deste desfecho. Mas no entanto, de forma notável, conseguiu sempre submergir do abuso de drogas, álcool, estadias na prisão, fugas à justiça e muitas mais tropelias que este incrível vocalista protagonizou durante a sua vida pública.

Felizmente para quem gosta de música, Scott Weiland teve muito tempo para criar uma longa e extensa carreira. Ao contrário de alguns dos artistas seus contemporâneos que faleceram precocemente, como Mark Sandman (Morphine), Shannon Hoon (Blind Melon) e Layne Staley (Alice In Chains), o vocalista dos Stone Temple Pilots viveu tempo suficiente para assinar muitos e bons discos, com vários grupos e até quatro discos a solo. Melhor ainda, teve uma carreira artística em crescendo com picos de criatividade muito interessantes, que foram revelando um cantor e compositor invulgar. Confesso contudo que não queria que ele fosse embora, queria ainda mais daquela voz, daquele estilo inimitável de cantar e dançar!

Entre as entradas e saídas da prisão (foi condenado pela justiça norte-americana em 1995, 2003 e 2007), assinou discos com os Stone Temple Pilots que marcaram uma geração. Com cinco álbuns entre 1994 e 2001, nomeadamente Core (1992), Purple (1994), Tiny Music… Songs from the Vatican Gift Shop (1996), Nº 4 (1999) e Shangri-La Dee Da (2001), o grupo norte-americano destacou-se no panorama musical da década de 90, eclipsando-se no início do novo milénio.

Uma carreira em sobressalto constante

Na verdade, não se pode dizer que o arranque da carreira de Scott Weiland tenha sido o mais promissor, nem original. Apesar do (excelente) primeiro disco dos Stone Temple Pilots, designado Core de 1992, ter sido um sucesso comercial dentro e fora dos EUA, a sombra dos Pearl Jam e Eddie Vedder pairava sobre a banda, muito por culpa de uma música, Plush, cuja abordagem harmónica e vocal era de facto muito semelhante a alguns temas do mítico grupo de Seattle. A crítica musical dividiu-se entre as dúvidas criativas suscitadas pelo disco de estreia e a intemporalidade de canções como Dead & Bloated, Sex Type Thing e Creep, além da já referida canção Plush, que mesmo assim recebeu um Grammy em 1994.

Contudo, os Stone Temple Pilots e Scott Weiland eram de facto talentosos, originais e, claro, bebiam das mesmas referências musicais que as bandas integrantes do suposto movimento grunge, e por essa razão criavam música dentro dos mesmos moldes. Se tem dúvidas desta frase escute por favor com atenção a versão interpretada num MTV Unplugged da música Creep (sim, além do tema dos Radiohead, existe outra magnífica canção chamada Creep que foi gravada nos anos 90).

 

Curiosamente, considero que tanta crítica exacerbada provocou o ego dos elementos dos Stone Temple Pilots, que em cada disco nos anos seguintes elevaram a sua criação artística a novos patamares. Na altura da edição do segundo disco, Purple (1994), já os Stone Temple Pilots tinham milhões de fãs no mundo inteiro. Contudo, precisamente nessa altura começou o calvário dos membros do grupo, que viram o vocalista Scott Weiland transformar-se num daqueles casos típicos da equação trágica: sucesso + dinheiro + drogas pesadas + deslumbramento = prisão e paragem da carreira!

Após algumas fugas à justiça (em que foi ajudado sobremaneira pela especialista criminal Courtney Love, viúva de Kurt Cobain), o vocalista cumpriu pena de prisão em 1995 por compra e posse de crack. E começou a descambar a nível pessoal, enquanto se multiplicava como músico na proporção inversa. Scott Weiland tornou-se um vocalista que foi crescendo até se tornar um verdadeiro frontman do rock’n’roll. Paranóico, esquisito, escuro, complexo, eléctrico, enérgico, etílico, drogado, incoerente. Sim, era isso tudo, mas dava um show em cima do palco como poucos no panorama musical actual.

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Só que inevitavelmente os outros membros do grupo de San Diego, os irmãos Robert e Dean DeLeo, e Eric Kretz despediram o vocalista de sempre. Mesmo nos anos em que não pertenceu aos Stone Temple Pilots, que por altura de 2001 estavam manifesta e totalmente fartos de tantas parvoíces e frustrações, Scott Weiland integrou os Velvet Revolver em 2003. O supergrupo de Slash, Matt Sorum e Duff McKagan (respectivamente, ex-guitarrista-ex-baterista e ex-baixista dos Guns ‘N’ Roses) foi de certa forma a salvação do artista, que após cumprir mais umas quantas reabilitações forçadas parecia estar livre dos vícios.

 

Talvez por ter como companheiros de banda músicos tão famosos e experientes, que estavam mais do que preparados para vocalistas inconstantes (quem aturou Axl Rose pode conviver com qualquer estrela de rock com a maior das calmas!), Scott Weiland entrou nos eixos durante os anos com os Velvet Revolver, gravando dois discos pujantes (Contraband de 2004 e Libertad em 2007) e efectuando várias digressões mundiais com grande sucesso. Se alguém tinha dúvidas, Scott Weiland afirmou-se novamente nessa época como um artista de sucesso, sobretudo devido à visibilidade alcançada como os temas Slither (que ganhou um Grammy em 2008) e Fall to Pieces.

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Em 2008 fez as pazes com os Stone Temple Pilots e regressou à banda de sempre, registando em 2010 o último disco, auto intitulado Stone Temple Pilots. Não é demais assinalar também que Scott Weiland assinou quatro discos a solo, nomeadamente o excelente 12 Bar Blues (1998), e ainda Happy in Galoshes (2008), The Most Wonderful Time of the Year (2011) e Blaster (2015), este último com a designação Scott Weiland & The Wildabouts.

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Scott Weiland: Morto e Envaidecido

Imediatamente quando soube da morte de Scott Weiland lembrei-me da primeira canção do disco de estreia dos Stone Temple Pilots. O título profético Dead & Bloated (Morto e Envaidecido) assenta na perfeição ao capítulo final do cantor.

Dead & Bloated - Stone Temple Pilots (House of Blues - 2000)

 

“Em última análise, o nosso objectivo era criar um legado”, disse Scott Weiland à revista Rolling Stone em 2008, divagando em voz alta sobre o percurso dos Stone Temple Pilots. “Quando estávamos no carro nos primeiros concertos locais era isso que dizíamos uns aos outros: ‘Um dia vamos ser uma daquelas bandas que tem um legado criativo’.”

E deixaram um legado cultural bastante criativo, sobretudo devido às abordagens harmónicas do cantor. E sim, tenho realmente saudades de um vocalista ainda agora partiu. Scott Weiland não vás embora, fica mais um pouco, faz mais um disco…

“I am smellin’ like the rose

That somebody gave me on

My birthday deathbed

I am smellin’ like the rose

That somebody gave me

’cause I’m Dead & Bloated”

RIP – Scott Weiland (27 de Outubro de 1967 – 03 de Dezembro de 2015)


 

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