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Ricky Martin com medo da fama e os aplausos provocando desequilíbrios

Ricky Martin com medo da fama e os aplausos provocando desequilíbrios

 

Naquela fria tarde de Fevereiro de 1997, uma pequena multidão de meninas aglomerava-se em frente ao hotel Tivoli, em Lisboa, na esperança de que o seu ídolo lhes aparecesse. Duas delas correram para mim, intempestivas: “vai entrevistar o Ricky Martin? Diga-lhe por favor que venha cá fora para nos ver”. E a outra, decote longo, “ele é um anjo pleno de magnetismo e sensibilidade, brilhante, talentoso, amoroso, doce, meu Deus não há adjetivos para um homem daqueles”, e uma terceira que entretanto se aproximou dizendo que tinha “o coração arrasado com a voz dele, que chega ao céu, a sua versatilidade de artista completo, a sua incrível e insuportável beleza”… “Nem que a gente fique aqui toda a tarde e noite, não vamos embora enquanto não o virmos”, atropelava a amiga, palavras excitadas.

Quando o cantor de Porto Rico com sangue das Caraíbas me cumprimentou com um aperto de mão firme e um sorriso a mostrar a alvura da dentadura, percebi melhor a dimensão do fanatismo. O rapaz tinha mesmo pinta de galã, não lhe faltando sequer uma ponta de arrogância: “Sou um guerreiro nato da arte de fazer vibrar audiências com um simples olhar, em cada sílaba, num pequeno movimento”, disse-me, sem pejo nenhum em se considerar “um fenómeno da natureza”.

Confesso que ao ouvir isto vi o moço de imediato perder todo o charme e, escutando os gritinhos histéricos que vinham lá de fora, e ele a enfatizar que se sentia grandioso, deu-me uma volta ao estômago. Respirei fundo, controlei-me, indaguei-o sobre o aglomerado faminto que se mantinha à sua espera na rua.

“O meu público está a crescer cada vez mais. A histeria das meninas tem vindo a converter-se em histeria de mulheres também. Nos meus concertos é normal ver mães e filhas a desmaiar. Eu sei que sou bonito, que já nasci bonito, não há nada a fazer. Mas é claro que preferia que escutassem o que eu digo nas minhas canções e não se ligassem tanto na minha imagem”.

 

Estranhamente, ao dizer isso, revelou-se preocupado e confidenciou: “Por vezes tenho que parar. O aplauso que é o alimento da vida de um artista pode provocar o desequilíbrio total. O “glamour”, as limousines, as luzes do palco, a adrenalina, podem deitar tudo a perder”.

Naquele momento percebi que Ricky Martin tinha medo da fama.

 

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