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Post Punk Strikes Back Again 3: Evolução na continuidade e na diversidade

Post Punk Strikes Back Again 3: Evolução na continuidade e na diversidade

A proposta era clara e estava bem explícita no nome do festival: Post Punk Strikes Back Again (PPSBA).

À terceira edição e depois de um ano de interregno, o (mini, em duração, mas grande, na sonoridade) festival regressou à Invicta e apresentou uma pequena diversidade do que, dentro do estilo (que tem fronteiras largas), se faz por essa Europa. Faltou, certamente, um representante nacional, mas… não se pode ter tudo!

Na estreia deste vosso escriba no evento, a sensação, finda a coisa, foi de grande satisfação e no momento que costuro estas palavras é de confirmação de que o pós-punk está bem vivo, apesar da venerável idade.

Em abono da verdade, foi meio por meio. Em termos de fidelidade ao estilo, Ist Ist, Bragolin e Esben and the Witch são os eleitos. Depois, mais punk do que pós, os Nerves e, mais rock do que punk, os Hotel Lux. Por fim, Okandi… e a sua voz!

O vocalista dos «defuntos» O.Children está, nitidamente, numa fase híbrida, ainda à procura de uma sonoridade, que obrigatoriamente terá que girar em torno da extraordinária e exuberante voz que possui.

A diversidade sonora, sempre com a estrela-guia do pós-punk bem definida no céu densamente negro, foi a tónica e a (grande) virtude da terceira edição do PPSBA.

Extraordinárias actuações dos Ist Ist, dos Esben and the Witch e dos Nerves, na primeira visita ao estrangeiro, sem dúvida os três principais destaques do evento. Bragolin e Hotel Lux foram, respectivamente, uma confirmação e uma agradável surpresa, enquanto Okandi ainda tem de aliar a exuberância vocal a um som mais definido e coerente. Bem, agora a voz… a voz encanta!

Os ingleses Ist Ist, nascidos em Manchester, foram os que apresentaram o pós-punk mais agarrado às raízes, onde se destacam a voz grave e escura de Adam Hougthon e o baixo de Adam Keating numa composição sonora em que a guitarra, os teclados (Mat Peters) e a bateria (Joel Kay) pintam o resto do quadro.

Temas singles e dos dois EP formaram o alinhamento de uma viagem, entre o passado e o presente, com direito a duas novas paragens («You’re mine» e «Black»).

Logo na abertura do festival, os holandeses Bragolin, o duo formado por Edwin van der Velde (voz e guitarra) e Maria Karssenberg (guitarra e teclados), deram o mote com as suas atmosferas carregadas de negritude e de sabor electrónico. Em palco com o duo esteve também Adam Tristar e em conjunto interpretaram alguns dos temas da colaboração que realizaram em 2019 e resultou no álbum «Let Out The Noise Inside».

Já a fechar a terceira edição do PPSBA, os alemães Esben and the Witch fizeram o remate perfeito num dia preenchido de excelentes momentos musicais, diversos entre si, mas com uma raiz definida e comum.

Rachel Davies (voz e baixo), Thomas Fisher (guitarra) e Daniel Copeman (bateria) encheram a Sala 2 do Hard Club com a sua sonoridade espessa, algo suja e de enorme profundidade, que parece transportar quem ouve sabe-se lá até onde.

Momento delicioso, entre ritmos ora frenéticos, ora inebriantes e sempre com grande intensidade sonora, em que a voz de Rachel parece surgir das profundezas do negro ambiente como uma estrela-guia e… salvadora!

Os Nerves, que encerraram a parte vespertina do evento, levaram até ao Hard Club uma sonoridade mais punk do que pós, emprestando ao cartaz uma pitada de som mais rude e agressivo e que tão bem soube naquele fim de tarde de sábado.

Energia a rodos, nesta estreia além-fronteiras (do Reino Unido), em especial por parte do vocalista Jack Evans. Entre o fato e o tronco nu, Evans liderou o quarteto, formado ainda pelo guitarrista Jack Cosson, pelo baixista Mike Wood e ainda pelo baterista Josh Upil.

Havia algum nervosismo no ar do lado do palco, mas a calorosa recepção do público logo nos primeiros temas fez a banda ganhar confiança e levar a plateia a desfrutar de um rock desabrido, rude e intenso.

Os Hotel Lux foram uma agradável surpresa. O quinteto oriundo de Portsmouth apresentou um rock muito interessante e assertivo, pejado de universos tão reais como politicamente (in)correctos.

De certa forma, desconcertantes em palco, muito por culpa do vocalista Lewis Duffin, até pela forma como canta, os Hotel Lux agitam as águas, tingem-nas com um pouco de noise e, assim, contagiam quem os vê e ouve.

Por fim, Okandi, no concerto mais curto do evento (meia-hora apenas!), balançou entre as suas buscas e novas experiências sonoras e algumas versões do repertório dos O.Children, num caminho que necessita ser definido. No entanto, a voz… bem, a voz encanta!

Da diversidade se fez a história da terceira edição do Post Punk Strikes Back Again, uma história que merece ser contada e retida na memória de todos os que assistiram aos concertos do dia 7, mas não só.

Não é possível esquecer o concerto aperitivo, de 25 de Novembro, no mesmo local, protagonizado pelos germânicos Holygram.

O quinteto de Colónia, formado por Patrick Blümel (voz), Sebastian Heer (bateria), Marius Lansing (guitarra), Pilo Lenger (teclados) e Bennett Reimann (baixo), pratica uma sonoridade bem marcada pelo pós-punk, a que alia diversos elementos de shoegaze e krautrock e protagonizou um excelente concerto, essencialmente baseado no álbum editado em 2018 «Modern Cults». Aliás, os cinco primeiros temas do concerto no Hard Club seguiram o alinhamento do disco, do qual apenas duas músicas não foram tocadas.

Intensos musicalmente, os Holygram agarraram a plateia rapidamente, enchendo a Sala 2 de atmosferas negras e densas… tão ao gosto dos que assistiam.

Espera-se, agora, que 2020 seja ano de PPSBA 4, a fim de que o evento se consolide e atraia cada vez mais gente. O formato é interessante e apelativo, permitindo, para além de desfrutar de uma série de belos concertos, o salutar convívio entre melómanos que têm no pós-punk uma referência incontornável.

 

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