Home / Histórias de Bastidores /

As sete vidas do violinista Nuno Flores dos Corvos

As sete vidas do violinista Nuno Flores dos Corvos

 

Conheci Nuno Flores, viola-d’arco dos Corvos, no Festival da Lusofonia em Montreux, Suíça. A partir daquela noite de tempestade nos Alpes tornámo-nos amigos íntimos. Vivemos inesquecíveis peripécias pela Índia, Sri Lanka, Brasil, Portugal de lés a lés, ele sempre de um lado para o outro, portos de abrigo aqui e ali, garanto-vos que não há ninguém no Mundo tão (extra)ordinário.

Os que conhecem melhor o seu jeito de tratar as centenas de amigos por “my man” pensarão que irei aqui expor o seu, insólito, âmago. Prefiro enaltecer o lado enigmático – ou será caricato? – das nossas vivências. Como daquela sua primeira vez no Brasil, logo depois do mergulho inicial nas águas quentes do lado de lá.

Lembras-te Nuno, do tipo que saiu desvairado de casa com um pau na mão, “seu pouca vergonha, cafajeste, isto aqui é casa de família” gritava a correr na tua direcção, tu estupefacto, paralisado, então o que é que está a acontecer aqui, o filho do homem que vem atrás com um catana, “Nuno foge, foge”, e tu tranquilamente a enfiares os calções. Entro no carro, pego-o mais em cima, os homens cuspindo saliva grossa, pau e facalhão no ar, “isto não é praia de nudismo cabra safado”.

No dia seguinte apresentei-lhe os índios potyguara numa reserva nordestina, terras da Baía da Traição. Diz Koda quando o vê entrar na onda rasgada: “Seu Nuno é muito afoito. Que Tupã (Deus) o proteja, porque senão…”, “senão o quê seu Koda?”, “senão ainda fica lá”.

 

Felizmente não ficou. Nem ali, nem nas margens negras do mar de Damão, na Índia, por entre cadáveres humanos cremados na praia ao lado do peixe a secar e milhares de ossadas. E ele doente, rumo a uma farmácia onde lhe deram dois compridos embrulhados em papel de jornal.

Sempre me questionei porque é que aconteciam certas coisas a este amigo que é uma pérola, a ele que acreditava piamente que ia morrer aos 27 anos, que vê o 2 e o 7 surgirem constantemente de forma bizarra, coisas como a ocorrida no Centro Cultural de Belém, entrou dentro do elevador e caiu uns bons metros lá em baixo, a porta abriu mas a cabine não estava lá.

Como naquele dia em que o pneu furou e o polícia o atropelou e fugiu. Quando me ligaram a dizer que a TVI – que irresponsabilidade – deu a notícia que ele tinha morrido, doeu-me tanto que me tranquei para os meus bebés não me verem naquele estado de mágoa e saudade. Até que, subitamente, se fez luz: “Não. O Nuno não morreu porque é como os gatos. Tem sete vidas”.

   

Partilhar este artigo

Deixe um comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *