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Nuno da Câmara Pereira dignifica o fado ao som de ritmos latinos

Nuno da Câmara Pereira dignifica o fado ao som de ritmos latinos

 

Parece que não há nada que Nuno da Câmara Pereira não consiga fazer. Engenheiro-técnico agrário por opção própria, contou com uma carreira política, diz-se monárquico e afirma até mesmo ser o 3.º Marquês de Castelo Rodrigo (isto, claro, se a República não tivesse extinguido as distinções nobiliárquicas). Entretanto, canta também o fado.

Pela altura em que lançou o seu álbum “A última noite”, Nuno da Câmara Pereira cedeu-me uma pequena entrevista para falar do seu trabalho e de como vê o fado na atual sociedade portuguesa. O resultado dessa entrevista foi extremamente interessante e permite-nos retirar algumas conclusões interessantes sobre como o nosso país trata aquele que é agora um Património Oral e  Imaterial da Humanidade.

Neste post, recordo essa mesma conversa que, por muitos anos que tenham passado, continua a ser extremamente atual e relevante.

À conversa com Nuno da Câmara Pereira

Goreti Teixeira (GT): Agrada-lhe a comunhão do fado com outros estilos musicais?

Nuno da Câmara Pereira (NdCP): Em toda a minha carreira cantei temas românticos, nomeadamente “A gargantilha” que o Rui Veloso fez para mim, “O aconchego” da Elba Ramalho, “Meu querido, meu velho, meu amigo”. Misturei coladeras, mornas, sambas, fado antigo e moderno, folclóre, percussão… Na minha discografia tentei brincar com a música através do fado. Este álbum retrata na perfeição o que tenho vindo a fazer, só que de uma maneira mais definida e definitiva. É tempo de ouvirmos música e fado ao mesmo tempo e, talvez seja este o caminho da nova música romântica portuguesa.

GT: Qual é a sua opinião sobre os jovens fadistas que vão aparecendo?

NdCP: Qualquer jovem que apareça a abraçar o fado deverá dar uma imagem nova de maneira a que as pessoas olhem o fado com outros olhos. Contudo, nem sempre resulta.O fado não é algo que se vista por fora, mas que tem de se vestir por dentro. Hoje em dia, vejo que os jovens estão mais preocupados com uma nova roupagem, o que não significa trocar o preto pelo azul, por um brinco na orelha, cantar descalço ou usar o cabelo aos quadradinhos. Mudar o fado ou a roupagem é torná-lo numa amalgama muito grande dentro de si próprio, como se fosse um almofariz e, só depois de tudo bem mecerado é que se extrai a essência. Cantar o fado é fácil, o mais difícil é cantar fado.

GT: Como é que define o fado?

NdCP: É a força da expressão da alma portuguesa. Este não é obrigatoriamente tristeza e saudade. Somos um povo humilde, mas não tristes. Não precisamos de ter sangue negro a correr nas veias para nos divertirmos. É essa a diferença que existe entre nós e os brasileiros. No tempo de Amália venderam comercialmente lá fora a nostalgia e a soturnidade do fado, e acho incrível como é que alguém com idoneidade profissional como os Madredeus admita ser vendido em nome do fado. Quando temos fadistas que são produzidas por holandeses e franceses e não são produzidas por nós é porque algo está mal. Criou-se esta forma pseudo-intelectual de que o que é diferente é que é bom. O que é exótico é que tem valor. Não somos um povo exótico, mas sim diferentes dos restantes povos europeus. O fado é uma força interior.

GT: Concorda que qualquer pessoa possa cantar o fado?

NdCP: Sim. Qualquer pessoa pode cantar o fado, pode ser artista, pode ser pintor… Mas não se inventam artistas. O fadista ou qualquer outro artista é uma pedra bruta que se tiver matéria-prima para ser trabalhada, pode ser polida pelo caminho que quisermos. O facto de cantar fado não quer dizer que seja fadista. A Amália à frente de uma orquestra não deixa de ser fadista, ao contrário de um cantor qualquer que à frente de uma guitarras não é necessariamente um fadista. O hábito não veste o monge. Por exemplo, se pusermos uma americano neste cenário é claro que dali não sai fado. (risos).

GT: Recuando um pouco no tempo, como é que surgiu esta sua paixão pelo fado?

 

NdCP: Nasci a ouvir fado. Sempre fez parte da minha educação cantar e dançar em português. Não aprendi apenas o francês, o inglês e a tocar piano. Os meus pais ensinaram-me a religião, a maneira de ser português e a respeitar tudo aquilo que diga respeito ao meu país.

GT: Quais são os seus fadistas de eleição?

NdCP: A minha grande luz no fado é o Carlos Ramos, apesar de na altura em que comecei no fado ser o Alfredo Marceneiro o grande nome. Mas tenho outras referências, nomeadamente Amália Rodrigues e Maria Teresa de Noronha.

GT: E em relação aos novos fadistas, como Paulo Bragança, Mísia?

NdCP: Não me revejo neles. Eles é que se podiam rever em mim. Penso que não têm nada a ver com o fado. Não pertencem à génese. Aliás, as suas carreiras não passaram pelo circuito do fado. Cantam bem, mas não têm o sentimento que eu acho ser necessário.

GT: Vai mudar de alguma forma a sua imagem?

NdCP: “Burro velho não aprende línguas” (risos). Não sinto necessidade disso e nem acho que é obrigatório para um cantor mudar de imagem. Ia pintar o cabelo de amarelo? Pôr um brinco na orelha? Vestir um vestido de lantejoulas? Continuo igual a mim próprio e não sinto necessidade de imitar seja quem for.

GT: E em relação ao actual panorama português, qual é a sua opinião?

NdCP: Penso que está a regredir, uma vez que as nossas rádios passam muito pouca música nacional.

GT: E sobre as novas bandas que têm surgido?

NdCP: Não me revejo nelas. Acho que são muito próprias para o momento. Insipiente, rápido e consumível.

   

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