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Uma viagem com Neil Hannon ao Cabaré das Fantasias

Uma viagem com Neil Hannon ao Cabaré das Fantasias

 

Quando assisti ao concerto dos Divine Comedy no Coliseu do Porto, inserido no Super Rock Super Bock 1996, com Neil Hannon a interpretar ironicamente “Last Christmas” dos Wham, com direito a desafinanços vocais e a gargalhadas sem misericórdia na plateia, disse para mim mesmo que tinha que falar com ele.

O que é que poderia ter acontecido àquele rapaz de ar aprumado e jeito de bem comportado, fatinho vincado e gravata a condizer, postura de ícone de uma “Generation sex”, para ter mudado daquela forma, abandalhado, despenteado, voz disformada? Subornei o porteiro com um CD, pedi-lhe para convencer o manager de que um amigo do Neil queria falar com ele.

Conseguiu, fez-me entrar pela catacumba, lá estava ele com um terrível ar de ressaca, vincado espírito “avant-garde” reflectido numa personalidade duvidosa, espírito rebelde desajustado do tempo e da realidade.

Pálido, olheiras vermelhas, cabelo louro desalinhado e mais longo, pequeno demais para o tamanho em palco. Estendi-lhe a mão, deu-me a sua, mole e sem vontade, não me olhou nem fez questão de camuflar uma série de sensações contraditórias. Tinha o semblante aborrecido, parecia mal disposto, tentei ser convincente nos falsos elogios, que saudades das peripécias de “Casanova”.

 

Sentei-me calado no velho sofá vermelho, de repente uma estranha religiosidade no ar, quem sabe se um outro lado, herdado do pai, diácono da catedral de St.Martin na Irlanda natal. Um tom doce inconscientemente genuíno, recheado de referências literárias e cinematográficas, invadiu a conversa ao ritmo de uma bem-humorada divina comédia no cabaré das ilusões. Como quem, subitamente, tinha decidido mudar de orientação, transitou do indisposto para um registo confeccional, revelando que “os anos e as experiências poético-amorosas fizeram com que tivesse incorporado uma estranha mania de cultivar um romantismo que não combina com os tempos em que vivemos”.

Desadaptado à realidade circundante decidiu que estava na hora de “transformar o ambiente de cabaré das ambíguas fantasias” em genuíno desinteresse por tudo, “ao sabor das marés, do destino, do sopro do momento”. “Saúde”, brindou, afirmando que se sentia feliz por estar em Portugal. E porquê, duvidei. “Sobretudo por causa do vinho, a minha sobremesa favorita”.


 

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Comentários

  • 18 maio, 2016

    The Divine Comedy é uma banda britânica liderada por Neil Hannon, muitas vezes o único membro da banda. Isso não é demais? Um cara desse merece toda admiração do mundo!

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