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Né Ladeiras: um amor que se tornou uma causa perdida

Né Ladeiras: um amor que se tornou uma causa perdida

 

Né Ladeiras chegou ao jardim, mística, um búzio pendurado ao peito, protecção a que chamou de “luz”, amuleto de uma sorte nem sempre fiel. O olhar era de um brilho negro intenso, réstia de esperança numa insuspeita dor que lhe amargurava o coração “por o homem não respeitar o planeta e se esquecer que nem tudo é betão ou interesses económicos. Perdeu-se a adoração à natureza, às árvores, ao rio, ao mar ou às próprias pedras. O homem tem vindo a dar mostras crescentes da sua pequenez, da sua mesquinhez, distorcendo e interpretando de forma errada a palavra de Deus”.

Passaram mais de dez anos desde que me proferiu estas palavras, alerta a que poucos prestavam atenção. “Quero acreditar no futuro, até porque tenho filhos. Isto não pode ser um beco sem saída. Tem que se abrir uma porta rumo a outro caminho”, acreditava ainda, esperança aliviando a mágoa provocada “pelo rumo que a humanidade está a tomar”. Recordo as palavras marcadas pelo “receio de ver tudo isto ir pelos ares ou pelos mares, ou pelo fogo”.

Para gravar “Da minha voz”, álbum de tributo à mulher, “que deveria passar a ser dona do Mundo”, pediu à editora que não a “calafetassem” dentro de um estúdio em Lisboa e, num “isolamento tão assumido quanto necessário”, abrigou-se numa aldeia da Beira Baixa onde gravou com “a bênção da terra e da lua. Numa cidade conturbada não se tem disponibilidade mental e física para nos aproximarmos da natureza”.

Nesse, como noutros álbuns seus, assumia a defesa de espécies em vias de extinção, lobos e baleias, recordo-me de me ter dito que “se o Sting não tivesse ido à Amazónia ninguém se iria aperceber que estamos perante uma situação de uma cultura, a indígena, em vias de extinção, nem o Bob Geldolf teria empreendido o Live Aid. Os músicos devem ser porta vozes da missão de tentar salvar o planeta”.

 

Ficámos amigos, mostrou-me um recanto seu nas bordas do rio Mondego onde a vi sofrer pelo definhar da confiança. Passaram sete anos desde a última vez que nos encontrámos. Um dia destes fui a Coimbra tocar-lhe à campainha porque soube que se tinha “desvinculado em definitivo da música”.

Lembro-me de me ter dito que “a industria e o comércio estão a minar a pureza que ainda resta no acto de criação”. Uma vez atendeu-me a mãe, qual vulto negro, outra o filho, barba e cabelos longos, a luz da mãe, eu com a nítida sensação de que a ocultavam. Sussurrou-me um vizinho que “passam-se meses e meses e ela nunca sai de casa. Há quem diga que enlouqueceu por ver que a sua causa de amor à natureza é uma batalha perdida”.

 

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