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A Música Brega e a Coragem de dizer o que a Paixão queima

A Música Brega e a Coragem de dizer o que a Paixão queima

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Existe muita discussão sobre o que é MPB’. Para alguns é todo o tipo de Música Popular feita no Brasil, o que colocaria todos os cantores chamados brega junto dos artistas de fina estampa. Para outros diz respeito apenas ao movimento, dos anos sessenta, de exaltação da musicalidade estritamente brasileira, sambas e bossas, músicas ao estilo de Chico Buarque, Elis Regina, Tom Jobim e Caetano Veloso.

Embora, em minha opinião, seja uma grande besteira separar o brega da Música Popular Brasileira (pois ninguém é tão popular quanto Reginaldo Rossi, Waldick Soriano, Nelson Ned, Wando e Agnaldo Timóteo) não tenho a menor pretensão ou competência para encerrar uma querela que divide opiniões de músicos e intelectuais.

Brega foi, inicialmente, um adjetivo pejorativo. Tinha conotação de algo de pouco ou nenhum valor, de baixa qualidade, mal feito e ultrapassado. Depois passou a ser um substantivo, dando nome a um estilo musical popular que carregava a estigma de toda a conotação descrita acima.

Os cantores de simples conjuntos, letras carregadas de paixão, temas de bar e casas noturnas eram chamados brega. Hoje, sabemos que isso não passa de um preconceito e uma ironia. Preconceito porque os cantores brega não eram assistidos da mesma forma que os cantores do samba de fina estampa ou da bossa nova. Enquanto as gravações deles eram bem trabalhadas em estúdios de primeira qualidade e acompanhados de grandes maestros e orquestras, os cantores bregas tinham que se virar e preparar tudo por conta própria.

Ironia porque os cantores bregas eram os que mais vendiam e lucravam para as gravadoras. Enquanto Elis Regina lutava para vender trinta mil discos, Agnaldo Timóteo vendia, facilmente, trezentos mil. Os bregas sustentavam as gravações luxuosas da MPB que sozinha não conseguia manter seu “alto padrão”.

A música brega ainda teve representação política. Se “Apesar de você”, “Cálice (Cale-se)” e “Pra não dizer que eu não falei das flores” (músicas com forte carga política do período de ditadura militar no Brasil), assim como seus compositores e seus intérpretes, foram perseguidas pelos militares que estavam no governo, os cantores bregas também foram censurados, porém ‘esquecidos’ pela história que consta nos livros didáticos.

Odair José foi o artista que mais teve que dar explicações à censura, que foi institucionalizada em 1968 pelo AI-5, pelas suas letras que caminhavam na contramão inclusive de projetos de governo, como foi o caso de “Pare de tomar a pipula”, em que o eu-lírico pede para a mulher parar de tomar anticoncepcional, que na época estava tendo seu uso incentivado pelo governo a fim de controle de natalidade.

As paixões e a liberdade de gostar de alguém independente de quem essa pessoa seja e em que classe social ela se encontra ficaram na responsabilidade dos cantores populares. Vou direto aos fatos! O que a paixão queima foi cantado pelo Brega!

Abaixo segue uma seleção de músicas consideradas bregas em que foram trabalhados temas que a dita MPB não teve coragem de tratar:

EU VOU TIRAR VOCÊ DESSE LUGAR

Em 1972, Odair José lançou “Eu vou tirar você desse lugar”, rompendo com essa música com uma das maiores hipocrisias da nossa sociedade. Dizem que a prostituição é a profissão mais antiga do mundo. A lógica indica que se essa profissão resistiu aos séculos que foram impiedosos para tantos impérios e dominadores poderosos é porque, certamente, há uma procura pelo serviço. Essa procura é feita por grande parte dos homens que por uma estupidez de criação (em uma cultura onde o sentir é digno de ser reprimido) sente dificuldade de expor seus sentimentos e por isso sofre bastante e acaba buscando o descanso no colo das garotas de programa, que lhes oferecem sexo fácil e uma estranha sensação de poder. Esta mesma sociedade que mantém esta profissão a discrimina e marginaliza. Uma das grandes ofensas à mulher é associá-la a uma prostituta. Odair José dá voz aos inúmeros rapazes que conhecem uma garota de programa e se apaixonam por ela e por uma hipocrisia da sociedade (pelo que “os outros vão pensar”) acabam frustrando uma possibilidade de viver junto com quem se está amando. A música foi regravada pelo mpbista Caetano Veloso (que sempre simpatizou com o trabalho dos cantores brega), pela banda Los Hermanos e pelo ator Wagner Moura. Odair José foi questionado e censurado pelos militares por conta de seus discos ideológicos (vide o álbum “O filho de José e Maria”).

 

A GALERIA DO AMOR

Segundo o crítico musical Nelson Motta, “A galeria do amor” de Agnaldo Timóteo foi mais subversiva do que as canções de Geraldo Vandré. Lançada em 1975, auge da ditadura militar e da censura, o cantor romântico, até então conhecido por lançar versões de sucessos internacionais, decide compor sua primeira música. “A galeria do amor” conta a experiência do próprio artista que foi procurar “emoções diferentes” em um dos pontos de encontro mais frequentados da noite carioca – a antiga Galeria Alaska (o mais famoso ponto de encontro gay do Brasil na época). Para não arrumar problemas com os militares ou com a sua gravadora (na época a Odeon), Agnaldo preferiu chamar a música de Galeria do Amor ao invés de fazer referência direta à Alaska. A música se tornou um grande sucesso e o disco teve ótima vendagem. Agnaldo continuou relatando suas experiências noturnas e de liberdade em outros trabalhos: Aventureiros (1976), Perdido na noite (1976) e Eu Pecador (1977). Realmente, Timóteo foi muito corajoso de lançar temas como esses em tempos em que não se podia discutir o assunto. “Na galeria do amor é assim – muita gente a procura de gente! Onde a gente que é gente se entende e que pode se amar livremente”.

 

MOÇA

“Moça, eu sei que já não és pura, teu passado é tão forte pode até machucar…”. Esses são alguns dos versos de “Moça”, sucesso de Wanderley Alves dos Reis, nosso saudoso Wando. Em nossos tempos, a virgindade feminina já não é um dos maiores tabus da nossa sociedade, mas houve um tempo em que a moça que não era mais “pura” (virgem) não seria a pretendida para o casamento, ficaria de escanteio (o que era o maior medo das suas famílias). De um lado as famílias que tinham uma jovem sob seu teto não mediam esforços para garantir que ela fosse ao altar vestida de branco e de outro lado as famílias que tinham seus rapazes em época de construir família não admitiam que a pretendida fosse experiente na cama. Wando quebrou com isso em 1975. Compôs e deu voz à “Moça” que já não era mais pura e representou vários jovens que na hora de se casar escolhiam, para acatar a tradição, uma moça virgem para o lar, mas que desejavam mesmo outra que já não era virgem coisa alguma! “Eu quero me enrolar nos teus cabelos, abraçar teu corpo inteiro, morrer de amor, de amor me perder…”. Essa foi uma música que mostrou como os nossos costumes não são fundados nos nossos desejos e estão em desconformidade com o que sentimos. Ao contrário do que acontecia antigamente, falar que vai se casar com uma moça virgem e somente conhecerá o sexo na noite de núpcias pode parecer uma grande loucura nos dias de hoje. Realmente, temos que concordar que virgindade não diz nada sobre caráter de ninguém! Só que a paixão sabia disso antes da razão!

 

CADEIRA DE RODAS

No auge da musica brega Fernando Mendes cantou: “Hoje eu vivo sofrendo e sem alegria. Não tive coragem bastante pra me decidir. Aquela menina em sua cadeira-de-rodas. Tudo eu daria pra ver novamente sorrir”. Havia muito arrependimento no eu-lírico, tal como há nos corações de muitos por aí que se apaixonam por alguém com deficiência física e sentem vergonha de assumir que sente amor por um deficiente. A música brega quebra também com a estética tão prezada por toda a MPB, pois enquanto os artistas que eram consumidos pela elite admiravam-se pelas moças que caminhavam nas praias da zona sul, os cantores bregas assumiam a paixão tal como ela se dá – indistintamente. Um rapaz achar uma garota linda em “sua cadeira de rodas” não há do que se envergonhar! No entanto, qualquer um que fosse fazer uma canção jamais daria ênfase à deficiência.

 

 

DEIXE ESSA VERGONHA DE LADO

“Deixe essa vergonha de lado! Pois nada disso tem valor. Por você ser uma simples empregada não vai modificar o meu amor”. Odair José cantou também para as empregadas domésticas. Defensor do amor-liberdade, mais uma vez o cantor que advogou em nome do amor por uma doméstica. Se letras bregas como essas causam tanto desconforto, e são alvos de chacotas e zombarias, deve ser porque elas dizem respeito a algo que muita gente já sentiu um dia – paixão por alguém de classe social e status inferior. Poucos teriam coragem de falar o que Odair José falou.

 

SECRETÁRIA (ASSÉDIO SEXUAL)

“Secretária, às vezes, penso em falar contigo, mas tenho medo de ser confundido por um assédio sexual”. Um dos assuntos discutidos atualmente diz respeito ao assédio sexual. O tema divide opinião: a falta de definição do que é assédio sexual e a multiplicidade do pensamento humano faz com que muitos homens, uns por consciência outros por coerção, não consigam dar o primeiro passo que muitas mulheres esperam que eles deem. O fato é que o assédio sexual é uma realidade! Existe e sobre isso não podemos colocar nenhuma dúvida! Sabemos que muitas pessoas aproveitam do status social, do seu prestígio, para se aproveitar dos que estão em relação desfavorável ao seu exercício de poder. Com a liberdade da música brega, o cantor Amado Batista fez “Secretária (Assédio Sexual)”, onde ele colocava-se em dúvida com relação a se apresentar ou não para aquela mulher que era sua secretária. Embora seja um tema polêmico, todos os homens em sã consciência temem ser mal interpretados em seus cortejos e galanteios. Amado Batista deu voz aos homens amedrontados!

 

O JULGAMENTO

Amado Batista parece gostar de advogar em causas polêmicas. Em “O Julgamento” ele fala sobre um homem que vendo sua mulher na cama com um amante acaba cometendo uma insensatez: “Desesperado pelo golpe que sofri nem se quer eu percebi que atirava sem parar”. Na música brega houve uma situação em que um artista muito famoso que tinha vendas altíssimas e que acabou matando sua companheira e atirando em seu amante. Lindomar Castilho, autor de sucessos como “Você é doida demais” e “Eu vou rifar meu coração”, foi o autor do crime passional mais famoso da música brasileira. O acontecimento destruiu sua carreira e recebeu uma pena de doze anos de prisão. A letra é muito inteligente, sendo ambientada num tribunal onde o réu faz sua própria defesa diante do júri que o condena: “Como agiria a cada um que me condena se assistisse a mesma cena estando ali em meu lugar, por isso eu peço que no grito da razão ninguém sofre uma traição e se cala pra pensar”. Somente cantores populares como Amado Batista para advogar em causas como essas. É preciso muita coragem!

 

SE TE AGARRO COM OUTRO TE MATO

Se Chico Buarque está sendo acusado de machismo pela sua música que causou polêmica com os versos em que ele diz que largava mulher e filhos para ficar com a amante, se o romantismo do Rei Roberto Carlos em “Esse cara sou eu” foi acusado de ser um amor obsessivo e doentio, imagina o que diriam se uma música com o título “Se te agarro com outro te mato” fosse lançada hoje? Os versos “Se te agarro com outro te mato! Te mando algumas flores e depois escapo (…)” seria embarreirada sem esperar contar até três pela Lei Maria da Penha. O próprio artista Sidney Magal diz considerar a música inadequada para os dias atuais. Vale lembrar que ela foi lançada em 1977. Atualmente ele a canta dentro de um pot-pourri com outros sucessos, a fim de evitar a inconveniência do tema.

 

TUDO PASSARÁ

O filósofo pré-socrático Heráclito já dizia: “panta rei” (tudo passa, tudo flui). Mesmo sendo a máxima da filosofia mobilista há mais de 2.500 anos, a pessoa que ama não conseguiu entender ainda que na vida tudo passa! Creio eu que o coração jamais conseguirá entender o que cabe apenas ao cérebro processar, pois a paixão enlouquece o apaixonado e nos faz acreditar que aquilo que sentimos e passamos (seja o momento de alegria ou o momento de dor) será “para sempre”.  Foi Nelson Ned no ano de 1969 que estourou com “Tudo passará” em toda a América Latina. A voz ímpar e potente del pequeño gigante de la canción alcançou os maiores palcos do mundo, entre eles o Festival da Canção da Argentina daquele mesmo ano e o Carnegie Hall em Nova Iorque. Os versos de Nelson Ned continuam sendo urgentes para todos aqueles que estão sofrendo por amor. E para aqueles que estão felizes no amor, que saibam que um dia essa felicidade acaba… Uma boa dose de realismo de vez em quando fortalece!

 

EU NÃO SOU CACHORRO, NÃO

“Eu não sou cachorro, não! Pra viver tão humilhado. Eu não sou cachorro, não! Para ser tão desprezado…”. Não podia faltar nesta seleção o maior clássico do brega – “Eu não sou cachorro, não” – de Waldick Soriano. O saudoso artista de letras simples foi o primeiro a vender seus discos de mão em mão. Nos palcos onde se apresentava sempre havia a venda de seus LPs. Hoje, todos os artistas tem uma banquinha para a venda de discos nos teatros e casas de shows pelo Brasil a fora! Waldick deu visual ao brega. Extravagante, usava óculos escuros, grande chapéu e ternos bem chamativos. Enquanto nas brigas cotidianas dizemos: “não me trate como um cachorro”, “não sou cachorro seu”; nas músicas nada ainda havia sido cantado de forma tão direta e sem rodeios! Esse foi o diferencial de “Eu não sou cachorro, não”. Ela encerra este texto com chave de ouro, mostrando a relação direta e proporcional das paixões populares, do que o povo sente, com os temas cantados pelos artistas que serão imortalizados enquanto houver corações pulsantes no Brasil!

 

Hoje, há um movimento de intelectuais e críticos musicais que buscam fazer justiça à música considerada cafona no Brasil. O livro Eu não sou cachorro, não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar (editora Record, 2002) do historiador e professor universitário Paulo César de Araújo é a maior referência no tema. Esta obra traz forte documentação e entrevistas que provam como as canções bregas deram trabalho aos militares. É uma leitura que vale muito a pena!

Outra obra que merece nossa atenção é o filme-documentário Eu vou rifar meu coração (2012), de Ana Rieper. Ela traz nomes famosos da música brega ao lado de cenas com pessoas de vida comum (caminhoneiros, donas de casa, radialistas, mulheres traídas, solteiras) que se identificam com esses temas de amor. Este livro e este documentário foram as duas fontes utilizadas para a composição deste texto.

E aí, que tal ouvir um brega hoje?

 

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