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Medrar: música não-linear para mente e corações pulsantes

Medrar: música não-linear para mente e corações pulsantes

 

A 100km de São Paulo, fica o aconchegante município de Sorocaba, também conhecido como “Manchester Paulista”. Lembrada por sua rica cena artística, especialmente no campo da música, a cidade revelou para o país e para o mundo importantes nomes do underground, como Vzyadoq Moe, Wry e The Biggs. E é deste mesmo cenário que vem a Medrar, banda de rock alternativo formada por Mya Machado (voz/guitarra), Ari Holtz (baixo), Zé Aquiles (bateria) e Rafael Ferraz (guitarra).

O grupo surgiu em 2013 e nesse curto espaço de tempo se destacou com lançamentos de singles e apresentações frenéticas em diversas casas de show e festivais. Agora, mais madura, a banda anuncia o lançamento do EP Luzia, que conta com dois belos temas: “Alarde” e “Luzia”.

O novo trabalho, no entanto, conta com um peso especial para o quarteto: o EP tem produção assinada por Guilherme Kastrup, que entre outros feitos trabalhou em A Mulher Do Fim do Mundo (2015), da Elza Soares, um dos lançamentos mais importantes no Brasil nos últimos anos dado o seu contexto político. A parceria foi possível graças ao Projeto Demorô, realizado pelo Sesc Sorocaba. Na ocasião, Kastrup selecionou duas bandas locais para trabalhar, sendo a Medrar uma das escolhidas.

A sonoridade do novo registro também surpreende e, como de costume, não segue regras: estruturas não-lineares, cozinha dissoluta e linhas de guitarra que flertam ora com a psicodelia, ora com o pop – tudo isso coroado com os vocais potentes e angustiantes de Mya Machado, que também é responsável pela composição das letras.

Aproveitamos o momento para trocar uma ideia com a banda e saber mais sobre o EP e futuro da Medrar. Confira o bate-papo e ouça o EP Luzia abaixo!

 

Confira a entrevista completa com a Medrar

 

Mundo de Músicas (MM): Luzia conta com apenas duas faixas, mas sabemos que vocês estão trabalhando também em outras músicas. Por que optaram lançar um EP com apenas duas canções? “Alarde” e “Luzia” parecem de certa forma interligadas. Existe mesmo essa relação? 

Medrar (M): Existe mais como proposta de serem produzidas ambas pelo Kastrup. A gente meio que encontrou juntos essa interligação… tem o fato da temática lírica também seguir um caminho de uma perspectiva feminina da vida, mas acho que isso acaba transbordando também para outras músicas nossas devido à urgência que isso tem pra gente na hora da composição e por muito do ímpeto da banda estar em falar algo contundente, através das letras que partem da Mya em geral.

 

MM: Falando nisso, as letras da Medrar soam bem politizadas e ao mesmo tempo intimistas. Como se deu o processo de composição? Poderiam falar sobre o contexto lírico do EP Luzia? 

M: O processo se dá de diversas formas, geralmente alguém traz um disparador: uma melodia, letra ou riff e a partir daí nós seguimos brincando e ‘montando’ as partes da música, isso sempre foi muito orgânico nos deixando um tanto “a mercê” de inspirações. Após o aprendizado com o Kastrup nossa vontade seguiu para criar de uma forma mais consciente, mas ainda é um processo novo pra gente. O contexto lírico se dá no cotidiano em que vivemos, nossa relação com a cidade, suas contradições e suas poéticas geralmente, como já disse, a partir de uma perspectiva feminina. A gente acredita estar em dialética constante com a nossa cidade e as pessoas que aqui habitam. As realizações líricas nascem daqui, o instrumental não linear, ao nosso ver, também reflete essa relação com a cidade, o orgânico e a máquina, as poesias e as mazelas.

 

 

 

MM: Qual a sensação de terem sido selecionados pelo Kastrup para esse projeto? E como foi trabalhar com ele? 

M: Foi um puta choque, uma ótima surpresa com momentos de ansiedade e de vislumbre. Tirando toda a mística em torno de termos sido escolhidos por um grande (ENORME) produtor, percebemos o quão humana e cuidadosa pode ser essa relação. O Kastrup entende perfeitamente a relação íntima entre criadores (banda) e criatura (música) e, desde o início, ele se implicou em ser generoso com a gente, aliás, MUITO GENEROSO, sempre pontuando o que achava mas com muito cuidado para não perder a essência da relação orgânica que temos com as músicas. Sem dúvidas nosso trabalho enquanto banda e enquanto músicos individuais deu um salto desde essa parceria. Aprendemos muito quanto à prática de criação, composição, gravação e produção.

 

MM: Recentemente vocês recrutaram o Ferraz (guitarra) para shows e ele deve se tornar um integrante fixo da banda. O que mudou com a entrada dele? 

M: Mudou tudo. A chegada do Ferraz foi como desdobrar as músicas, entender um outro lado e uma outra narrativa para as músicas. Vem sendo refrescante entendê-lo como parte disso. Nossa perspectiva vai agora em entender esse novo elemento em meio a um trabalho de composição. Instiga demais as novas possibilidades.

 

MM: E quais são os próximos passos da Medrar?

M: Estamos nos encontrando para compor. Queremos encaminhar um videoclipe que faremos em parceria com Bruno Lotelli (cineasta de Sorocaba) e queremos tocar. Estamos no vácuo desse lançamento, entendendo a receptividade no nosso trabalho para vislumbrar novos passos.

 

MM: Pra finalizar, vocês têm acompanhado alguma banda ou artista de Portugal? Gostam do que é produzido no país? E também peço para que recomendem artistas brasileiros que inspiram a Medrar.

Medrar (M): Olha, a gente que compõe em português tá sempre buscando coisas novas na nossa língua. As terras daí sempre são alvo de pesquisa. Sentimos falta de uma interligação maior entre nossas ‘bolhas’, foi muito louco quando descobrimos a Pega Monstro, por exemplo, que tem tanta coisa em comum com o que é produzido aqui ou a Mão Morta, que se assemelha bastante com a produção daqui do fim dos 80. Sem dúvida nos falta entender melhor como se movimenta a cena de Portugal, o que está sendo produzido nesse momento e, acima de tudo, nos falta interligar nossas produções. Temos muitos artistas brasileiros que nos inspiram como o La Carne, Ludovic, Far From Alaska, Medialunas. Aqui mesmo em Sorocaba temos uma cena pungente com trabalhos incríveis de bandas como Justine Never Knew the Rules, Wry, Fones, Ini e mais uma pá de gente. Hey, nos indiquem também coisas daí!

 

Entrevista realizada por Renan Pereyra e Gonçalo Sousa

 

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