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MÃO MORTA – 25 ANOS DE MUTANTES S21: Táxi! Theatro Circo, se faz favor!

MÃO MORTA – 25 ANOS DE MUTANTES S21: Táxi! Theatro Circo, se faz favor!

 

E ao quarto álbum, há 25 anos, os Mão Morta iniciavam uma louca viagem que os colocou sob um foco de luz mais intensa, mas que, na verdade, nunca os encandeou. Essa, aliás, é uma das maiores virtudes da banda de Braga, que sempre primou por se entregar apenas à música e à criatividade rock.

A grande viagem, iniciada em 1985 no Órfeão da Foz, no Porto, com a estreia ao vivo a 12 de Janeiro, enveredava, em 1992, por uma autêntica auto-estrada, feita, essencialmente, à boleia de um Traby e… em velocidade escaldante.

O périplo pelas várias metrópoles narrado em «Mutantes S21» teve na paragem em «Budapeste» o trampolim dos Mão Morta para uma outra dimensão. Como Adolfo Luxúria Canibal lembrou no concerto de fecho da digressão que assinalou 25 anos de «Mutantes S21», no Theatro Circo, Carlos Fortes, o autor da música, apelidou o tema (o mais orelhudo do repertório dos Mão Morta) de “música para atrasados mentais”.

Os novos públicos que «Budapeste» angariou para a banda de «Oub’lá» deixaram aficionados e a própria banda «revoltadas» com o tema, que foi ostracizado durante muito tempo, mas entretanto recuperado e de novo tocado ao vivo. A pacificação dos fãs e da banda com «Budapeste» estava feita e na tour comemorativa do quarto de século do álbum que conta a mais alucinante viagem que uma banda conduziu os seus admiradores não podia faltar.

Apesar de terem entrado noutra dimensão, os Mão Morta nunca deixaram de pôr “tudo em alvoroço e tudo a rock & rolar”.

Mas falemos dessa alucinante e alucinada viagem por diversas cidades desta vida, sejam elas reais ou imaginárias.

Ao contrário do álbum editado há 25 anos, foi pelo reino da luz, «Shambalah», que a viagem se iniciou, com os Mão Morta a guiarem um Theatro Circo a abarrotar rumo a uma «Marraquexe», onde “vindos das sombras da Medina, encantadores de serpentes, contadores de histórias, comentadores do Corão, malabaristas, trapezistas, músicos e toda a sorte de batoteiros atraíram uma multidão ociosa, que se arrastava indolente”.

De certa forma indolente começava a sentir-se o público que encheu a centenária sala bracarense, porque ver Mão Morta sentado não é aconselhável a ninguém. Porém, o público manifestava-se como podia… mas sentado!

Por «Marraquexe» a banda rolou «Até cair», a primeira fuga a «Mutantes S21», para se deixar “possuir pelo frémito da multidão num desejo de girar sem parar”, seguindo, então, até «Paris», onde jurou amor eterno.

Uma paragem em «Instambul», onde “agora, aprisionada, sem saber o que querem dela ou o que lhe poderá acontecer, não há ninguém para dar pela sua falta”, para de seguida, em «Velocidade escaldante», chegar a «Budapeste», onde “p’las caves da cidade, são só bandas a tocar”, pelo que as noites são repletas de rock & roll.

 

 

Em jeito de grito, Luxúria Canibal clamou por «Maria, oh Maria», ansiando alcançar «Berlim», que “morreu a nove”.

Entretanto, já havia sido lembrado o famoso concerto de 1993, findo o qual “o Theatro Circo nunca mais foi o mesmo”, como disse Adolfo. Foi o caos, é certo, mas o caos de onde emergiu a fabulosa sala que hoje Braga pode apresentar a quem a visita e a quem gosta de artes de palco… e não só!

Mão Morta – 25 anos de Mutantes S21

E se foi «Budapeste» que deu a conhecer os Mão Morta a um público que não tem os ouvidos no rock visceral, «Mutantes S21» é muito mais do que aquele tema.

Sim, a parte final do concerto trouxe os temas mais viscerais, sem nunca deixarem de ser suficientemente polidos e, acima de tudo, sem nunca descambarem no fácil e primário.

 

Então, “com as mãos manchadas de sangue”, a viagem chega a «Berlim», onde, afinal, tudo começara muitos anos antes. Dali, a banda rumou a «Amesterdão», onde foi “dar uma olhada ao catálogo do Big Fun”. Bem, “tinham Black Bombaim” e, após enrolar “um joint a acompanhar o café”, seguiu para assistir a um espectáculo de sexo ao vivo. Bem, um festim!

E porque a noite já ia alta, decidiu ir “ver o Sol a nascer no Mediterrâneo” e, por isso, rumou a «Barcelona». Ali, depois da “rusga da Guardia Civil”, fugiu até… «Lisboa».

Na capital portuguesa, “por entre as sombras e o lixo”, “é então que as ratazanas, abandonando as trevas, ficam estáticas, silenciosas, a verem-nos ir, equilibrando o passo” até ao Casal Ventoso, paragem obrigatória naqueles idos anos 80 e 90 do século passado.

A esta altura a viagem mais alucinante e alucinada do rock português chegava ao fim, mas não o concerto dos Mão Morta no Theatro Circo.

 

 

Clamando “vamos em frente, olho por olho, dente por dente”, os Mão Morta convidaram «Tiago Capitão» para o palco, onde este pudesse «Fazer de morto» e, de alguma forma, tentar enganar a «Bófia». Contudo, esta não foi em enganos e, sem piedade, “o bófia sacou do cassetete” e deu-lhe “com ele uma, duas, três vezes nos costados”.

E foi já com os «Véus caídos» que o concerto se aproximou perigosamente do ponto “onde as cinzas dos mortos repousam” e “onde anjos malditos pernoitam”. O fim.

Porém, não sem antes um grito final de revolta, afinal o grito que sempre acompanhou os Mão Morta e que a banda liberta em cada tema, em cada álbum, em cada concerto. Um grito gutural e visceral de liberdade, uma delícia pujante e pungente, que é tudo menos música para atrasados mentais.

«E se depois» fechou as hostilidades e abriu o apetite para a sequela mão-mortiana, porque “e se depois o sangue ainda correr” é porque ainda estamos vivos!

No final, a banda agradeceu aos 15 ilustradores que pintaram o cenário da digressão «25 anos de Mutantes S21» e ainda ao manipulador (em tempo real) das ilustrações, João Martinho Moura.

O trabalho de todos é excepcional, retratando os diferentes temas de uma forma muito condizente com o negro universo dos «Narradores da Decadência» que são os Mão Morta.

Bem, e se fosse possível fazer o tempo recuar um pouco, diria apenas: “Táxi! Theatro Circo, se faz favor!”.

 

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