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Jorge Palma: o jeito de Ary menor no lado errado da noite

Jorge Palma

Jorge Palma: o jeito de Ary menor no lado errado da noite

 

Ainda nem dez horas da manhã eram e o Jorge Palma já estava bêbedo. Entrou no bar, pediu uma cerveja, quase não acertava com o gargalo na boca. Em três fartas goladas resolveu a questão e pediu outra. “Isto é que é um vê se te havias”, disse o dono do tasco com ar de bonacheirão trocista, enquanto nas mesas por perto se comentava, em surdina e olhar de soslaio, “o estado em que o Palma está”.

Não admira que a nossa entrevista tivesse tanto de absurdo como de delirante. Justificou-se: “Ainda não preguei olho, não durmo há dois dias, estou mais para lá do que esperava”. Perguntei-lhe se isso não o preocupava, se não pensava nos dois filhos separados por 11 anos, no futuro…

O inusitado da resposta fez-me gargalhar: “Preocupado, preocupado, não. Se queres saber realmente o que me preocupa digo-te que…” – arregalei os olhos na pausa, o que é que iria sair daqueles lábios secos, picos de saliva jorrando dispersos, também eles meio perdidos, daquela boca que parecia não saber o que diz – “…o que me preocupa são as pombas que me cagam o carro todo. Irritam-me porque acertam sempre no ponto chato”.

Ficou com o olhar parado, entre o passado imperfeito e o futuro clandestino, viagem permanente de um poeta por acaso, ausente em parte incerta por tempo indeterminado, ar de menino que acredita na vida mas tem medo que a mãe chegue e o repreenda.

 

Alguém me disse que “o Palma morre de medo que a mãe o apanhe bêbado”. Deve ser, balbuciou, “porque o movimento que se aproxima mais da felicidade existencial desta nossa vida na terra, que é também o mais próximo do real, passa-se no interior do ventre da nossa mãe”.

Pouco depois senti-o abatido, quase desesperado, bicho estranho numa cidade congestionada. “Será que estou a ficar senil”, duvidava, reconhecendo-se como “um irresponsável para quem o álcool e o tabaco são drogas sempre presentes. Provavelmente vou ter um cancro nos pulmões ou um ataque cardíaco. Espero que seja tarde porque, mesmo a morrer devagar, eu gosto disto”.

Quando, anos mais tarde, soube que aquele pássaro vagabundo tinha contraído hepatite b, temi. Temi perder aquela voz a caminho da felicidade possível, aquela sinistra forma de romper algum círculo que à sua volta queiram fechar, aquele jeito de “Ary menor” no lado errado da noite.

 

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