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Jesse Hughes: a figura controversa dos Eagles of Death Metal

Jesse Hughes: a figura controversa dos Eagles of Death Metal

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É pelas piores razões que, nos últimos dias, temos ouvido falar dos Eagles of Death Metal, a banda californiana que, na passada sexta-feira treze, atuava na mítica sala de espetáculos, Bataclan. A meio do concerto, a atuação é interrompida por homens armados com Kalashnikov que começam a atirar “às cegas” contra todos os que lhes aparecem à frente.

A descrição é do jornalista radiofónico Julien Pearce, no local para a cobertura do espetáculo.  Segundo o repórter, o cenário de terror durou entre 10 e 15 minutos, período de tempo suficiente para que a confusão se instalasse. Para os que lá estavam, o banho de sangue tornou-se rapidamente evidente: a sala de espetáculos tinha capacidade para 1500 pessoas e 89 acabaram mesmo por falecer. No chão, entre os cadáveres, jaziam os corpos dos feridos e os daqueles que por sorte tinha escapado ilesos, mas que procuravam refúgio das balas.

A partir daí os desenvolvimentos aconteceram de forma rápida: a polícia tomou a sala em modo de assalto, uns terroristas foram abatidos e outros fizeram-se explodir. Pouco depois, sabemos que o atentado foi reclamado pelo Estado Islâmico e começam as conjunturas sobre o porquê de aquele ter sido o local escolhido. Juntamente com o Bataclan, nessa mesma noite, houve mais cinco ataques, todos eles na capital francesa: um perto do Stade de France (onde decorria o jogo França-Alemanha), outro na rue Charonne e mais três ao longo do canal de Saint-Martin.

As vítimas encontravam-se em momentos de descontração: a jantar, a assistir a um concerto ou prestes a ver um jogo de futebol. Por estas razões, vários analistas têm afirmado que os ataques possuem um forte valor simbólico e, mais do que um massacre de inocentes, foram na verdade um tiro contra aquilo que França representa enquanto bastião dos valores ocidentais. É neste contexto que se insere a análise da figura de Jesse Hughes e dos Eagles of Death Metal que aqui servem de ligação aos Estados Unidos da América e ao seu modo de vida.

O concerto dos Eagles of Death Metal, no Bataclan, momentos antes do atentado

Uma das vítimas posteriores do ataque ao Bataclan foi Nick Alexander, um cidadão britânico de 36 anos que fazia parte da equipa da banda e que era responsável pela venda de merchandising. Graças ao acontecimento, os Eagles of Death Metal – na altura a atuar sem Josh Homme – decidiram cancelar a tour europeia, e voltar para os Estados Unidos. Entre os espetáculos cancelados está um que devia acontecer no próximo dia 10 de dezembro, em Lisboa, com todos os bilhetes já vendidos.

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A pergunta que importa agora esclarecer é:  quem é Jesse Hughes e por que motivo é que esta é uma figura tão controversa ao ponto de alegadamente se ter tornado um alvo do Estado Islâmico? Alheio a indiferenças e sem posições politicamente corretas, o membro e mentor dos Eagles of Death Metal nunca se imiscuiu a deixar a sua opinião por mãos alheias. Quer nas letras como nas entrevistas, o vocalista toca com facilidade assuntos como a religião, a posse de armas, a homofobia, a misoginia e o consumo livre de drogas. E não, nem sempre está do lado da maioria, nem daquilo que à partida é consensual.

A formação dos Eagles of Death Metal

Jesse Hughes tinha 7 anos quando se mudou para Palm Desert, na Califórnia. Este foi também o local onde Josh Homme cresceu, mas a relação entre ambos não começou por ser a mais pacífica. Depois de alguns confrontos e cenários que hoje inserimos no muito falado bullying, os dois resolveram as diferenças e acabaram por se tornar bons amigos. Os melhores, dizem agora. Apesar das distâncias motivadas pelo trabalho de ambos, são inseparáveis e as personalidades acabam por não ser assim tão incompatíveis. De vez em quando, Hughes pega nos brinquedos – que é como quem diz nos instrumentos -, vai ter com Homme, perguntando-lhe de seguida com quais quer brincar. Foi assim que nasceram as suas principais canções.

Mas voltemos à história de Hughes. Formado em jornalismo pela Greenville Technical School, o já apaixonado pelo rock começou a trabalhar como manager de um clube de vídeo. A música esteve sempre latente, mas nunca foi encarada como algo a sério, pelo menos até à data em que apareceram os Eagles of Death Metal.

A banda nasceu nos finais dos anos 90, quando Josh Homme decidiu aventurar-se por um novo género musical, o Death Metal. Sugeriram-lhe, nessa altura, que cantasse uma canção dos Vader e, na dúvida se aquilo seria realmente Death Metal, o também membro dos Queens of the Stone Age disse que a banda polaca seria uma espécie de Eagles (a banda  dos anos 70),mas do Death Metal.

O nome pegou e a ideia ficou a fermentar durante vários anos, acabando por ser adiada dado o sucesso de Josh Homme com os Queens of the Stone Age. Isto até que a determinada altura, o vocalista afirma que ambos os projetos têm igual importância para si e decide lançar-se com Peace, Love, Death Metal, álbum de estreia, que depois de chegar aos mercados, em 2004, é catapultado para o sucesso não só por ter a assinatura de Homme, mas por integrar bandas sonoras de videojogos e de anúncios publicitários.

Jesse Hughes: um contrassenso em forma de músico

Com o sucesso do primeiro disco, os fãs ficaram a salivar por um novo trabalho e é aqui que se dá o momento de definição da vida de Jesse Hughes. Algum tempo antes, o vocalista tinha acabado de se divorciar, algo que para alguém com fervorosas crenças católicas estava a ser difícil de aceitar. A ocupação na música também tinha sido relegada para segundo plano e, nessa altura, Hughes encontrava-se novamente no video-clube e a escrever discursos para o Partido Republicano.

A separação fez com que se virasse para o consumo de drogas, mergulhando ainda mais na depressão. “Estava a passar por um divórcio terrível e, como sou um cristão devoto, o divórcio para mim não faz sentido. Pesava 115 quilos. Era um rapagão red neck”, afirmou numa entrevista. Foi então que a mãe, já desesperada, decidiu jogar a última cartada e chamar Josh Homme porque sabia que ele era dos poucos que ainda tinha influência sobre o filho. “Estava preocupada pois achava que ia cometer suicídio. Tenho muitas armas. Josh chegou, puxou-me à parte e começou a guardá-las na fronha da almofada”, assim descreve o reencontro.

 

O passo seguinte foi a reabilitação que culminou com a gravação de Death By Sexy, segundo álbum do grupo e um dos mais aclamados. Apesar da mudança de atitude, Hughes recusou-se a mudar de postura, mantendo-se fiel ao rock e a Deus. O próprio tem consciência de que é um contrassenso andante, combinando na sua personalidade uma figura conservadora, mas desbocada; católica, mas adepta dos pecados da carne e da provocação. “Eu sei que é um conceito difícil; é uma contradição, eu sei. F. Scott Fitzgerald falou sobre o conceito de servir a dois mestres”.

Os dois mestres a que se refere serão Deus e o Rock’n’Roll, tão negro quanto o género tem de ser (pelo menos na sua opinião). “Na minha forma de pensar, no inferno vai ser mais difícil para mim do que para todos vós. Vou ser o idiota que não sabe porque lá está. Às vezes, seria muito mais conveniente engolir esta porcaria toda em que acredito”, disse numa entrevista.

Do contrassenso que é a figura de Jesse Hughes fazem também parte o discurso homofóbico e a postura controversa em relação à misoginia. Antes de uma entrevista em Tel Aviv, o cantor chegou ao sítio onde ia responder às perguntas acompanhando de duas raparigas locais e com o nome da banda traduzido para árabe e estampado na camisola. Uma das muitas provocações que não deram em nada, mas que também já lhe valeram dissabores, críticas e insultos.

O discurso controverso estende-se à Internet, tecnologia pela qual nutre um enorme desprezo. Com um palavrão pelo meio (como, aliás, é frequente nas suas entrevistas), diz que esta é mesmo a “pior coisa do mundo”; é a “destruidora de todas as coisas”.

Curiosamente a Internet foi o meio utilizado pela banda para tranquilizar os fãs imediatamente após o atentado do Bataclan. Minutos após o atentado ter sido anunciado pelos órgãos de comunicação, a banda escreveu no Facebook: “estamos a tentar determinar a segurança de todos os elementos da banda. Os nossos pensamentos estão com as pessoas envolvidas nesta situação trágica”.

Jesse Hughes: um Portugal rockeiro, a questão das armas e a política

Por cá, os Eagles of Death Metal não são uma banda estranha. O grupo atuou em vários festivais  e recorda-se bem disso. Numa entrevista à Blitz, Hughes fala de uma vez em que ficou de tal forma apaixonado pela comida portuguesa que a coisa acabou por correr mal. Apanhou uma intoxicação alimentar e dias depois vomitou em pleno espetáculo. “Acabei a vomitar sangue em palco, em Viena de Áustria. Portugal é assim: tão rock que me deixa a vomitar sangue!”, disse com humor afiado.

Na mesma entrevista, comentou o trabalho como escritor de discursos políticos, afirmando que “o jornalismo não era nada aborrecido”. Comparou os políticos até a “estrelas rock” e as conjunturas a um grande espetáculo. “Hoje o Partido Democrático está pejado de roqueiros da era moderna. Já vi coisas assim, mas eram a preto e branco e faladas em alemão”, insinuou.

Apesar das fortes convicções, Jesse Hughes recusa-se a utilizar a música como arma de arremesso, deixando ao critério de cada um em quem devem votar. Das armas, só é adepto das de fogo, todavia mostra-se contra a caça. Diz que é injusta e cruel, argumentando que o Homem já desenvolveu “formas ‘humanas’ de matar os animais”.

Para que servem as armas, então? A resposta talvez pareça ligeiramente infantil, mas é até a mais óbvia: “para matar os maus”. Os “maus” são pessoas que tentam fazer mal a outros e considera que as armas nem sequer estão bem entregues às autoridades. É uma questão de defesa pessoal, como daquela vez em que acordou a meio da noite com um homem vestido de preto a puxar os cobertores à sua mulher.

“Aprendi da pior maneira que só tu te podes defender.  Não confio num governo que não deixa as pessoas tomarem conta de si mesmas; a polícia não pode ajudar-te a meio da noite quando alguém está a puxar os cobertores à tua mulher. Essa foi a última vez que a minha mulher me pediu para ter as armas fechadas. A partir daí, já queria as armas. Crimes destes são acidentes, um num milhão. Mas acontecem a toda a hora, a pessoas normais, e eu gosto dessas pessoas, eu adoro pessoas!”, termina.


   

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