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Janis Joplin: uma branquela com voz de crioula

Janis Joplin: uma branquela com voz de crioula

 

“Um dia ainda vou compor uma canção que descreva o que é fazer amor com 25 mil pessoas num concerto e depois voltar para casa sozinha” –  Janis Joplin.

Estamos em 1943, na cidade texana de Port Arthur quando nasce Janis Lyn Joplin. Sensível e solitária, de baixa auto-estima, esta rapariga de grande propensão artística marcou a história da música e é hoje relembrada, muitos anos depois da sua morte, pelo estilo ousado que tanto destoava do dos seus colegas.

Com uma atração visceral pela cultura negra, Janis Joplin chegou a ser apelidada de nigger lover (‘amante de negros‘). O seu fascínio veio da leitura de autores beats como Jack Kerouac e Allen Ginsberg. E também por parte de um colega, outro desajustado socialmente, que lhe apresentou alguns discos alternativos, coisas que não tocavam nas rádios locais. Foi assim que Janis Joplin conheceu o blues, blues de raiz, tipo Leadbelly e a voz de Bessie Smith (1894-1937). O desejo e a certeza de que seria uma cantora de blues começa emtão a florir por esta altura.

Depois de uma adolescência também solitária, dentro do quarto ouvindo discos de Bessie e de outras divas do blues, ou fazendo seletas e peculiares amizades com jovens negros da área, principalmente músicos, Janis Joplin deixa a família e faz-se à estrada. Em bares começa a cantar em troca de bebidas e de outras substâncias alucinogénas, a que já se tinha habituado.

No início da década de 60, muda-se para Los Angeles, encontrando os seus pares na cena beatnik local: músicos, poetas e artistas underground. Começa a cantar rock encharcado de blues, ou vice-versa e a criar a sua reputação.

Em 1967 teve sua grande hipótese de brilhar no Primeiro Festival Pop de Monterey – o mesmo que catapultou Jimi Hendrix às estrelas – e cantou um dilacerante e obscuro blues da gaitista, baterista e cantora negra Willie Mae, “Ball and Chain”. Até então, provavelmente ninguém jamais tinha ouvido uma rapariga de origem caucasiana cantar com tanta sofreguidão e sensualidade um blues. Seguem-se álbuns, concertos e festas.
Rica e famosa, sempre rodeada de pessoas, Janis Joplin continuou a exorcizar/cantar blues, trocando de bandas e amantes. Tinha uma terrível e angustiante instabilidade emocional, reforçada por doses cavalares de álcool, erva, anfetaminas, ácido, tabaco, cocaína, metadona e heroína, aquele que foi o seu vício mais nocivo e o passaporte para o fim precoce.

Em 1970, passou um inusitado, exótico e até então pouco conhecido período no Brasil, mais precisamente no Carnaval do Rio de Janeiro. Este foi também o ano que marcou uma fase de amadurecimento profissional no meio do caos. Janis Joplin criou uma nova banda, sugestivamente intitulada Full-Tilt Boogie, que faria um ”loud electric funky country blues”, e preparava-se para dar à luz o seu melhor trabalho, Pearl, lançado postumamente, em 1971.

 

Janis Joplin: o funeral que foi uma festa

No dia 4 de outubro, foi encontrada morta e sozinha, vítima de uma overdose de heroína num quarto de hotel em Los Angeles. Tinha 27 anos.

No seu testamento, deixou mais de 2500 dólares para serem gastos pelos seus amigos numa homenagem fúnebre, num bar noturno que reuniu cerca de 250 pessoas, que tinham em mãos convites a dizer: “Bebidas por conta de Pearl”. Pearl, para quem não sabe, era a alcunha pela qual a artista era conhecida entre os amigos.

A voz de Janis Joplin é quase um regresso ao grito negro dos primórdios do blues. Uma estranha e bela herança musical: uma branca que cantava e que teve um estilo e um final de vida como os trágicos negros do blues.

Pouco antes de morrer, Janis mandou ainda construir um túmulo de mármore negro para Bessie Smith, a imperatriz do blues e a sua maior heroína, que morreu na sequência de um acidente de aviação que gerou polémica, especialmente porque acredita-se que a artista poderia ter sobrevivido se tivesse sido admitida num hospital reservado apenas a brancos.

No novo túmulo da cantora negra, enterrada num cemitério em Filadélfia, Janis Joplin mandou escrever: “A maior cantora de blues do mundo jamais deixará de cantar”. Um epitáfio justo que tão bem se aplica à própria Joplin.


 

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