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A Sociedade secreta de Jack White, The Kills e Queens of the Stone Age

A Sociedade secreta de Jack White, The Kills e Queens of the Stone Age

 

Ao ouvir Dodge and Burn dos Dead Weather compreende-se mais uma razão para o fim dos White Stripes. Jack White respira entrega na procura da batida perfeita.

Entro e sento-me num pequeno sofá de napa vermelha remendado por linhas pretas que criam caóticas formas geométricas. Os meus sentidos disparam quando ouço um agudo ranger metálico que soa a um despertar de algo titânico. É tarde demais para qualquer mirabolante plano de fuga, pois o meu corpo foi aglutinado por um enorme esqueleto reluzente que começa lentamente a mover-se. Travo uma luta silenciosa entre eufóricos disparos de adrenalina e puro medo, enquanto sou arrastado para o topo da montanha de ferro. Quando o ritmado som maquinal termina, congelo o mundo e ouço os solitários batimentos do meu coração. Carrego no play e começa o desafio da gravidade ao som dos primeiros acordes de Dodge and Burn o tão aguardado terceiro disco da super banda Dead Wheather, de Jack White (White Stripes e Raconteurs), Allisson Mosshart (The Kills), Dean Fertita (Queens of the Stone Age) e Jack Lawrence (Raconteurs).

Dead Weather - "I Feel Love (every Million Miles)"

 

Jack White, um motor rítmico a 4 tempos

Dodge and Burn é a banda sonora perfeita para uma longa viagem de montanha russa onde o fio condutor é a lei da gravidade. Este terceiro registo dos Dead Weather, é um disco de velocidades, balanços, surpresas e apertos no coração. O terceiro álbum dos Dead Weather vive de uma aparentemente contradição temporal entre o “longo” e o “curto”.

“Longa se torna a espera”, quando pensamos que Dodge and Burn está a ser preparado desde 2013, sofrendo sistemáticos atrasos devido às atarefadas agendas. Felizmente, o tempo útil de gravação foi “curto”, fugindo assim ao iminente risco de tão talentosos multi-instrumentistas barroquisarem Dodge and Burn com múltiplas camadas harmónicas eliminando a pureza do direto e visceral. Jack White troca a sua guitarra pela bateria, deixando a cargo de Dean Fertita os viciantes “riffs” de guitarra e teclados.

Técnicas de bateria por Jack White

 

Dodge and Burn: análise faixa a faixa

01 – “I Feel Love (every million miles)”: esta é uma canção assombrada pelos Led Zeppelin (“Immigrant Song”) onde riffs “Pagenianos” assentam numa batida de compêndio rock tocada por Jack White “Bonham”. Não é por acaso que a bateria “Ludwig” de Jack White, é da mesma marca que a bateria do Led Zeppelin, John Bonham.

02 – “Buzz kill(er)”: é a música que melhor explica as origens dos Dead Weather. Guitarras à la Jack White, com Allisson Mosshart no território dos seus The Kills, com a força de uns Queen of the Stone Age e um baixo sincopado que podia estar em qualquer disco dos Raconteurs.

03 – “Let Me Through”: é uma canção que tem todos os ingredientes para ser um êxito de festival (caso Jack White pretenda voltar aos palcos). São 4 minutos assentes num gigante baixo monocórdico distorcido e modulado por um pedal de efeitos “bass synthesizer”, pintado com uma guitarra ritmo repescada de uns Pink Floyd da fase do The Wall, culminando num curto solo de guitarra octavado que mostra ferocidade e bom gosto. O ambiente criado pela música e pela dramática vocalização da Allisson Mosshart teletransporta-nos para 1977 para um clube fumarento ao som do hipnótico “Ghost Rider” dos Suicide de Martin Rev e Alan Vega.

04 – “Three Dollar Hat”: esta faixa é curiosamente um estranho caso de bipolaridade onde Jack White transforma-se num Dr. Jekyll rapper de “flow” infantil e Allisson Mosshart num eléctrico Mr.Hyde. Esta esquizofrénica “Murder Ballad” de Jackie Lee, recorda Nick Cave em “Stagger Lee”, sem Kylie Minogue ou PJ Harvey. Se a tensão entre os “Lee´s” provocar uma luta “corpo a corpo”, julgo que “Stagger Lee” através de um golpe rápido e certeiro de maturidade irá presentear Jackie Lee com um cruel KO . Musicalmente, o primeiro ato soa demasiado próxima de um “Livin’ it Up” dos Limp Bizkit onde Dean Fertita brinca com um Moog depois de uma visita a Snoop Dog. No segundo ato entra em cena uma pujante Queen “Allisson” of the Stone Age com a missão quase impossível de salvar Jack White.

 

05 – “Lose the Right”: funk rock com um excelente equilíbrio entre groove balançado e o peso do rock cru. Hendrix Against the Funk Machine!

06 – “Rough Detective”: divertida canção funk rock em diálogo onde soa Jack White e os seus Dead Weather com Allisson Mosshart a brilhar fora da sua zona de conforto.

07 – “Open Up”: Allisson Mosshart em papel de storyteller num épico rock em crescendo com com um leve perfume do punk e do pop do fim dos 70´s.

08 – “Be Still”: um dos mais interessantes temas de Dodge and Burn de uns Dead Weather entre o minimalismo dos The Kills e o rock mental dos TV On The Radio. Um refrão que nos seduz a cada repetição.

09 – “Mile Markers”: tema acelerado com groove com um refrão orelhudo moderno R&B cravejado por interessantes guitarras.

10 – “Cop and Go”: groove balançante e hipnótico servido de acutilantes diálogos de guitarras blues rock, piano minimal e a diva indie Mosshart no papel de sedutora.

11 – “Too Bad”: é ”Too Good” pois tem o poder de transportar-nos para um concerto na melhor fase rock dos Parliament Funkadelic de George Clinton.

12 – “Impossible Winner”: é das canções do novo disco dos Dead Weather em que se nota uma maior produção e detalhe nos arranjos opondo-se à crueza e simplicidade do resto do disco. Aqui Allisson Mosshart termina a sua imaculada participação no disco encarnando o papel de outra diva e pioneira da música indie, Nico. Esta é daquelas canções que provavelmente com um andamento mais lento, seria um clássico na voz de David Bowie ou até mesmo de Elvis Costello.

Em conclusão, considero que Dodge and Burn dos Dead Weather é definitivamente um dos grandes discos do ano 2015, graças à mestria com que é gerida a libertação de descargas sonoras e a acutilante gestão de silêncios. Uso Obrigatório.

 

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