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Guns N’ Roses Portugal 2017: E Tudo o Vento Levou

Guns N’ Roses Portugal 2017: E Tudo o Vento Levou

 

Reconciliação total! O ansiado concerto dos Guns N’ Roses em Portugal no passado dia 2 de Junho de 2017 serviu não apenas para testemunhar o regresso em glória de Axl Rose, Slash e Duff McKagan aos palcos portugueses, mas também a renovação da ligação entre o grupo norte-americano com o público nacional, que desde há 25 anos aguardava por um concerto que fizesse esquecer o que aconteceu em Alvalade no dia 2 de Julho de 1992. E as pazes foram seladas de forma triunfante!

Há exatamente 25 anos atrás, naquele que foi o meu primeiro concerto num estádio, estive entre as 60 mil pessoas que viram no Estádio de Alvalade o famoso espectáculo em que Axl Rose amuou depois de tropeçar em detritos lançados pelo público.

Na altura, a opinião geral foi de que os Guns N’ Roses defraudaram uma legião de fãs, apenas e só devido aos caprichos do vocalista carismático e excêntrico, que saiu do palco e ameaçou ir embora várias vezes, provocando um enorme atraso e muita revolta entre os milhares de seguidores da banda que assistiram estupefactos aos pedidos cândidos de Slash para que não fossem atirados objectos para o palco.

Eu tinha 14 anos, adorava a banda desde o lançamento de Appetite For Destruction de 1987, e ir a esse concerto foi um momento inesquecível, não apenas pela música e performance dos Guns N’ Roses e das bandas de abertura Soundgarden e Faith No More, mas sobretudo por vivenciar pela primeira vez uma atmosfera de efervescência única.

Acontece porém que quando saí do Estádio de Alvalade, a minha alma apenas vibrava com a recordação da inacreditável performance de Mike Patton e dos Faith No More, que na verdade foram os grandes responsáveis pela multidão ter enlouquecido. O que aconteceu foi simples: depois dos Soundgarden liderados por Chris Cornell realizarem um excelente concerto de abertura, os Faith No More entraram ao final da tarde para provar que eram uma das maiores bandas de rock da década de 90, conforme os anos seguintes fizeram questão de provar.

Um nome emergiu na altura como um verdadeiro showman: Mike Patton, que provocou um fenómeno que nunca mais esqueci. A imagem de milhares de pessoas a enviarem lixo, relva, copos, tudo e mais alguma coisa, para cima do palco foi impressionante. Atiçados pelo vocalista dos Faith No More, os espectadores presentes provocaram uma rebelião nunca antes vista. Como era o meu primeiro concerto num estádio, cheguei a pensar que aquilo era sempre assim, que era normal! Era como se uma praga de gafanhotos estivesse a atacar a banda.

A imagem mais viva que ainda hoje guardo é aquela que se assemelha à chuva inacreditável de lixo que chegava ao palco, que era depois usada de diversos formas por Mike Patton (esfregando na cara, no rabo, nas pernas, na boca!!!). Foi surreal, mas de alguma maneira permitiu um escape lógico ao público tenso e nervoso que aguardou durante horas pelo primeiro concerto em Portugal daquela que era considerada na altura “a banda mais perigosa do Mundo”.

Todos contribuíram: desde a última pessoa na bancada mais distante do palco até ao público da primeira fila nas grades todos contribuíram para hecatombe que se seguiu. Se você nunca viu o que aconteceu nesse dia histórico existem vários outros vídeos no YouTube que mostram bem o que se passou, basta procurar por “faith no more lisbon 1992” para encontrar! A revista BLITZ também explica muito bem o que se passou neste ARTIGO.

Na verdade, a grande lição que os Faith No More deram nesse final de tarde foi evidenciar como na essência um grande concerto de rock não precisa de insufláveis, nem pirotecnia, vídeowalls gigantescos, roupas esquisitas ou egos exarcebados. E, pelo menos para mim, esse foi o início de uma longa desilusão com os Guns N’ Roses.

 

Guns N’ Roses Portugal 2017: Bem-vindos à selva!

Como é do conhecimento geral, a história da banda de LA teve o seu final precoce e pouco amigável em 1993, quando tudo acabou em acusações e desavenças entre os membros do grupo. Contudo, após mais de duas décadas com guerras públicas e privadas, silêncios e desacordos, eis que em 2016, de repente, os Guns N’ Roses anunciaram o regresso musical do ano. Assim, Axl Rose, Slash e Duff McKagan voltaram de novo aos palcos para delícia de milhões de fãs em todo o Mundo, e desde então a banda encetou várias digressões pelos Estados Unidos, Ásia e Europa com bastante sucesso.

No dia 2 de Junho de 2017 estava então marcada a reunião com os fãs portugueses. E diga-se em abono da verdade que o Passeio Marítimo de Algés parecia uma Meca do Rock and Roll à antiga: lotação esgotada, milhares de pessoas de meia-idade vestidos a rigor mais muitos milhares de jovens vibraram intensamente antes, durante e depois com muito entusiasmo este regresso dos Guns N’ Roses.

Falar de público português neste caso é um eufemismo, pois estavam também imensos espanhóis e brasileiros na audiência, assim como de diversas outras nacionalidades.

Ainda com a memória de Chris Cornell a pairar no espírito (foi impossível não me recordar que a única vez que vi em concerto o vocalista dos Soundgarden foi precisamente na abertura dos Guns N’ Roses em Alvalade em 1992), encarei com a mente aberta este regresso do grupo polémico.

E o concerto foi… muito bom, surpreendente e muito interessante de acompanhar. Se você me pergunta se vale a pena ver os Guns N’ Roses versão 2017, respondo claramente que SIM: vale muito a pena!!! Eles hoje em dia são uma banda na verdadeira acepção da palavra, quero dizer, são compactos, unidos, tocam muito bem e são totalmente profissionais.

Confesso que ouvir “It’s So Easy”, “Welcome to the Jungle”, “Nightrain”, “Rocket Queen”, “Double Talkin’ Jive” e muitas outras grandes canções foi excepcional. Realmente, tal como a maioria dos fãs, durante muitos anos nunca acreditei sequer ter a possibilidade de ver a banda num formato clássico (embora sem o guitarrista Izzy Stradlin e o baterista Steven Adler, que fazem falta). Por isso mesmo estava expectante para ver o concerto. Participar em momentos históricos da música é sempre uma experiência memorável para um melómano.

Com muitas músicas de Appetite For Destruction e de Use Your Illusion I & Use Your Illusion II no alinhamento, eles tocaram muitos temas inesquecíveis (além dos já mencionados) como “Mr. Brownstone”, “Sweet Child O’ Mine”, “Out Ta Get Me”, “Live and Let Die”, “Civil War”, “November Rain”, “Patience”, “Whole Lotta Rosie” dos AC/DC, “You Could Be Mine”, “Estranged”, “Coma”, “Black Hole Sun” em homenagem a Chris Cornell, “Knockin’ On Heaven’s Door”e “Paradise City”, numa catadupa de sucessos que saciaram o apetite musical da plateia.

Porém, se a sua pergunta é se foi um concerto incrível que transbordou as minhas expectativas, então tenho de ser honesto e dizer que… NÃO!

Existiu pouca interacção com o público e era claro para todos que não existe grande química entre Axl Rose e os outros dois membros originais da banda. Por sua vez, Duff McKaganSlash sentem-se em casa: em cima do palco a tocar as músicas que criaram e que lhes deram fama com toda a sua força e vigor, celebrando em pleno com todos os restantes membros do grupo à excepção do vocalista.

Bons músicos, bom som, atitude. Tudo estava preparado ao milímetro, mas sem grande alma, coração, emoção. No final, mais uma vez e tal como em 1992, fiquei com um sentimento agridoce. O imenso vento que invadia o recinto prejudicou em parte a qualidade do som que chegava ao público, mas ele próprio tornou-se a metáfora ideal para o que tive o privilégio de assistir.

Pensei para comigo: “Engraçado, num instante, como tudo o vento levou: a mágoa dos portugueses com os Guns N’ Roses, os amuos e atrasos de Axl Rose, as zangas e polémicas entre os membros do grupo, a tensão e o perigo de outrora. Mas também levou a excitação, talento, explosividade e brilhantismo de outros tempos…”.

E recordei-me de uma passagem da excelente auto-biografia assinada por Slash que nunca esqueci: “Os Guns eram uma banda que podia desfazer-se a qualquer segundo. Isso era metade da emoção”. Pois, foi isso mesmo que senti!

Slash não é deste Mundo!

Como banda estão melhores, mas perdeu-se alguma chama, perigosidade, risco, que torna tudo mais enfadonho. Às vezes ainda pensei que se calhar sou eu que estou mais velho e já não vibro da mesma maneira juvenil com estes grandes espectáculos. Mas depois deixei-me disso: não, o que é verdade é que os Guns N’ Roses já não provocam esse burburinho.

Aquilo que Axl ganhou de um lado perdeu do outro. O que quero dizer é: sim ele está profissional agora, não amua, não se atrasa, sorri e faz o show de maneira imaculada em termos de entrega e disposição. Mas também não encanta, nem deslumbra.

Dei por mim a pensar que, embora toda a sua luxúria, prepotência e arrogância fossem detestáveis na sua época de glória, talvez nem sequer existissem estas canções brilhantes se o seu génio maníaco-depressivo e volátil não fosse precisamente assim. Pareceu-me claramente que apesar de todo o esforço que fez para realizar um bom concerto (que efectivamente proporcionou), o Axl Rose que conhecemos, que todos queríamos ouvir, já não existe.

Sublinho contudo que, por muitos defeitos que possa ter enquanto personagem mítica da indústria cultural, admiro a coragem e humildade que transparece em 2017. Por exemplo, quando Axl Rose arriscou cantar “Coma” em frente a 60 mil pessoas não pude deixar de admirá-lo com todas as minhas forças. “Este gajo tem tomates!” Ele sabia que era tarefa impossível fazê-lo com o desempenho que todos conhecemos. Mas arriscou e esforçou-se imenso para completar a canção!

Coma - GunsNRoses Live Not In This Lifetime - Lisbon 02/06/2017

 

Outro aspecto negativo para mim foi tocarem demasiadas covers (algumas apenas instrumentais), que serviam claramente para Axl Rose (que tem neste momento 55 anos) descansar. O alinhamento também podia, na minha opinião, ser mais rico em conteúdo face ao enorme espólio musical do grupo. Mas atenção: tocaram quase 3 horas sempre com grande intensidade.

 

Entre todos os membros do grupo, naturalmente Slash brilhou mais do que todos. Às vezes parece que ele não é humano. Ele deve ter nascido da união entre duas guitarras e não de um homem e mulher! Na minha opinião a maneira genial como toca guitarra não encontra paralelo nos últimos 40 anos.

Adoro ouvir e ver muitos outros guitarristas, mas confesso que Slash é capaz de ser aquele cujo som mais entra dentro do corpo. Não é só a rapidez, intensidade e força com que executa, nem as poses clássicas e o estilo misterioso que transborda para a música, que fazem dele um grande mestre da guitarra.

Ele é soberbo em tudo o que faz, quer quando faz riffs ácidos ou partes rítmicas clássicas, quer quando faz solos lindos (e talvez tenha feitos alguns a mais durante este concerto em Algés). Mas a sensação que fico sempre que o ouço é que alguma coisa mais ele tem na alma para tocar aquelas notas que mais parecem tiros no coração. Não me atrevo sequer a tentar explicar o que é: apenas sei que toda a sua paixão pela música é colocada ao serviço da banda. Sem dúvida que entre a dúzia de arrepios que senti durante o concerto, todos foram provocados por Slash.

Quem for à procura do antigo Axl Rose, esqueça, já não existe!

Na sua fantástica biografia em que reflecte com brilhantismo o período da banda no final dos anos 80 e princípio da década de 90, o guitarrista Slash tem uma passagem muito curiosa sobre Axl Rose: “Quando ele apareceu fazia 2 tipos de vozes, umas graves, outras agudas, e ambas eram inacreditáveis!”.

Embora seja muito famoso pelos seus agudos cortantes como uma lâmina, a verdade é que muitas das canções dos Guns N’ Roses são especiais devido também à abordagem vocal mais grave de Axl Rose. Durante o concerto em Algés a minha maior surpresa foi mesmo essa: apesar de ainda atingir agudos com impacto profundo (embora não tanto como há 25 anos atrás), fiquei estupefacto (e até triste) quando comecei a perceber que a grande dificuldade de Axl Rose nos dias de hoje é precisamente nos momentos mais suaves e graves, ou seja, nas partes em que usa uma voz mais normal digamos assim. E o alinhamento escolhido reflectiu precisamente essa carência.

Existe um excelente artigo na Whiplash que explica muito bem o que aconteceu com a sua voz ao longo dos últimos 25 anos, que pode ler AQUI NESTE LINK, e seria ingénuo pensar que Axl Rose poderia atingir novamente a mesma qualidade, intensidade e, sobretudo, as notas que atingia no passado. Sobretudo quando entendemos que, devido ao uso errado de técnicas vocais de forma prolongada, a sua maneira de cantar, embora soberba, nunca foi sustentável a longo prazo. Mas não foi por acaso que ele foi eleito o vocalista com maior alcance de sempre: goste-se ou não do estilo, a verdade é que Axl Rose era dotado de uma voz ímpar que marcava a diferença, que era acompanhado de um génio muito particular.

Desde o seu reaparecimento em 2016, já vi centenas de fotos e vídeos de Axl Rose a atuar e mesmo assim não consigo vislumbrar na sua cara a mesma pessoa. Os seus traços do rosto na verdade não se mexem e em consequência não transmitem qualquer emoção. Diria até que apenas no fundo dos olhos existe uma centelha do Axl Rose que o mundo conhecia.

E isso é triste e positivo ao mesmo tempo. Triste porque um ser humano se perdeu, mas positivo porque um outro ser humano se reinventou. “Ele está velho” disse-me um amigo durante um concerto em tom de lamento. “Mas ao menos não se matou”, respondi-lhe eu a pensar claramente em Kurt Cobain e Chris Cornell.

E é a verdade do que sinto: o Axl Rose ansioso, polémico e dramático que atraía as atenções do mundo para o bem e para o mal já não existe, mas a pessoa continua aí, sempre continuou a fazer pela vida, inclusive sujeitando-se à crítica de todos em cima dos palcos.

Creio mesmo que Axl Rose deve ter visto muitos vídeos de Freddie Mercury quando era miúdo. A sua performance em palco com correrias constantes de um lado para o outro, mais as trocas de roupas e as poses ainda devem muito à imagem do vocalista dos Queen. E parece-me que isso prejudica mais do que ajuda na sua performance, pois muitas vezes estava claramente sem fôlego para cantar. Mas ele não se controlava: o instinto é assim.

Foi também estranho constatar que Axl Rose parece algo inseguro em palco, como se tivesse de provar que ainda canta bem e atinge aqueles agudos que levaram as músicas dos Guns N’ Roses para a estratosfera. Ele sabe que a maior curiosidade entre o público é a sua performance vocal e fica afectado com isso (mais uma vez, na minha opinião).

Em conclusão: a exagerada auto-confiança que exibia há 25 anos atrás já não existe e isso é bom. Mas será que esse narcisismo, egocentrismo, loucura inclusive, não era precisamente o que lhe permitia cantar e criar música da maneira inacreditável que fazia? Julgo que sim!

Por muita técnica que um vocalista possa ter, a verdade é aquilo que passa, aquilo que realmente importa, é o sentimento com que canta, o feeling que emana da sua interpretação.

E aquilo que Axl Rose tinha a mais em 1992, agora tem a menos. Antes não era profissional, agora é. Antes não deslumbrava pela personalidade, agora é simpático o tempo todo. Antes tudo o que fazia era baseado na emoção, agora tudo assenta em razão.

Mas na sua época de glória, as músicas dos Guns N’ Roses cantadas de forma imaculada atingiam uma dimensão bastante superior: eram de facto sensacionais porque a voz de Axl Rose elevava tudo a outro nível.

Não conheço muitas histórias dos génios da música que não incluam as suas loucuras, excessos e devaneios. E acredito que Prince nunca seria Prince se não dissesse a si próprio que era genial. O mesmo serve para Bono, Elvis, Aretha Franklin, qualquer artista excepcional que o mundo conhece. O problema é que Axl Rose exagerava e pensava que o mundo girava em torno dele, enlouqueceu com essa ideia que estava no centro de tudo. E perdeu-se, encontrou-se, caiu, levantou-se.

No final do concerto, a primeira música que soou das colunas foi “You Know My Name”, o fantástico tema principal do filme 007 – Casino Royale que Chris Cornell assinou em 1999.

Fiquei melancólico. Enquanto esperava pela saída do Passeio Marítimo de Algés, com o vento a bater-me na cara com intensidade, lembrei-me novamente como a vida é irónica, e de repente recordei o mais mítico dos filmes americanos, como uma metáfora perfeita.

E Tudo o Vento Levou” é um clássico literário e cinematográfico norte-americano que conta a história épica da vida de uma mulher desde a sua inocência à maturidade e compreensão da vida. A impressionante história (assinada por Margaret Mitchell) relata como Scarlett O’Hara se transforma de uma jovem impetuosa e mimada em mulher prática e disposta a tudo para conseguir o que deseja. Faz lembrar alguém?

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