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Guilhermina Suggia: uma história cruzada com o violoncelo

Guilhermina Suggia: uma história cruzada com o violoncelo

 

Quem passa pela cidade do Porto e assiste a um concerto na Casa da Música certamente não deixa de reparar que o auditório principal tem o nome de uma mulher, um nome com um apelido peculiar. O nome em questão é Guilhermina Suggia e marca a Casa da Música não apenas por ser uma combinação de palavras sonante: porque esta mulher teve, na verdade, uma forte relação com a cidade do Porto e com o próprio universo da música.

Guilhermina Suggia nasceu na cidade Invicta, no dia 27 de junho 1885. É aí que, sob a supervisão do pai, começa a estudar violoncelo. Em criança, teve ainda a oportunidade de conhecer o violoncelista Pablo Casals, durante um concerto a que assistiu, ao lado do progenitor, no Casino de Espinho. O músico ter-se-á interessado pela jovem artista, então com 13 anos e influenciado a sua aprendizagem. Mais tarde, chegou mesmo a tornar-se seu companheiro, algo de que falaremos mais à frente.

O talento de Suggia era tal que, aos sete anos, dá o seu primeiro concerto e alcança notoriedade suficiente para, em 1901 – quando tinha cerca de 16 anos – receber uma bolsa de estudo concedida pela Rainha D. Amélia para estudar no Conservatório de Leipzig, Alemanha. Aos 17 anos, Guilhermina Suggia está então a iniciar uma carreira internacional e a tornar-se, definitivamente, numa violoncelista profissional.

“Ela foi a primeira mulher a tocar violoncelo ao mais alto nível e a fazer carreira.” Contou Henri Gourdin à Lusa, aquando do lançamento do livro biográfico (disponível apenas em francês) com o título “La Suggia – L’ Autre Violoncelliste“.  “Não foi fácil porque, na altura, o violoncelo era considerado um instrumento masculino. Ela teve de lutar contra esses preconceitos. Foi o charme da sua personalidade e a sua música que acabaram por convencer o público”, acrescentou.

Guilhermina Suggia: amores, egos e escolhas

Segue-se um período (1906-1913), em Paris, marcado pela sua relação amorosa com Pablo Casals, de quem a artista terá sido o seu “grande amor”. Porém, como aponta Henri Gourdin, “é sempre muito difícil para dois artistas viverem juntos, sobretudo para dois violoncelistas. Há egos incompatíveis”, apontou. De acordo com o autor, o término da relação de 7 anos poderá ter acontecido também por Guilhermina escolher a carreira musical em vez do casamento e da maternidade.

É assim que, em 1913, deixa Paris e acaba por assentar em Londres. Dos registos que nos chegam dessa altura, sabemos que as suas entradas em palco eram descritas como imponentes e que as suas interpretações revelavam um domínio absoluto do instrumento.

 

“O que é impressionante nesta história é que a conquista do violoncelo pela mulher tenha sido feita por uma portuguesa, ainda que, na altura, Portugal fosse um país católico, onde a separação dos sexos era mais restrita do que noutro lado qualquer”, disse Henri Gourdin. O autor, que pouco conhecia de Suggia, cruzou-se com detalhes sobre a vida da artista portuguesa quando reuniu informação para escrever a biografia de Pablo Casals.

Regresso ao Porto e os violoncelos de Suggia

Em 1924, ainda que mantendo residência em Londres, compra uma casa no Porto. É aí que, no dia 27 de agosto de 1927, casa com o médico José Casimito Carteado com quem não teve nenhum filho. Sempre movida pelo sue amor à música, muda-se de vez para a sua terra natal e começa a trabalhar com músicos portugueses. O seu violoncelo leva-a a palcos que vão além da Invicta: Lisboa, Aveiro, Viana do Castelo, Braga e Viseu são apenas algumas das cidades por onde passa.

É ainda a ela que se deve a fundação da Orquestra Sinfónica do Conservatório, criada em parceria com a então diretora do Conservatório de Música do Porto, Maria Adelaide de Freitas Gonçalves. Com alunos finalistas do conservatório, a própria Guilhermina Suggia ajudou a dar um empurrão à orquestra, subindo ao palco no concerto de apresentação que teve lugar no Teatro Rivoli.

Em 1949, com sinais da doença fatal que a afectava, cria o Trio do Porto, constituído por ela, pelo violinista Henri Mouton e pelo violetista François Broos. Em 31 de Maio de 1950 toca pela última vez em público, num recital no Teatro Aveirense. Ainda que sujeita a uma intervenção circurgica em junho desse ano, em Londres, acaba por falecer no dia 30 de julho.

Mesmo depois da morte, a lenda perpetuou-se. Os instrumentos de Suggia ainda hoje são conhecidos como Stradivarius Suggia e o Montagnana Suggia. Porquê? A explicação é simples: antes de morrer, a artistas legou os seus sete violoncelos a alunos e institutos. Por vontade sua, dois deles, os mais célebres, foram vendidos para fundar os Prémios Suggia, atribuídos todos os anos a jovens violoncelistas.

 

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