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A Galeria do Amor: um lugar de emoções diferentes

A Galeria do Amor: um lugar de emoções diferentes

 

Em tempo de ditadura militar, o cantor Agnaldo Timóteo lança “A Galeria do Amor”, música que retrata o encontro com um ambiente comum na zona sul carioca – uma casa de encontro LGBT. Esta canção representou toda uma geração que buscava “se amar livremente”.

Há quarenta anos, o cantor Agnaldo Timóteo deu a sua carreira aquilo que faltava – personalidade e ideologia. Os seus primeiros dez anos de sucessos foram baseados em versões feitas a partir de hits internacionais. Assim nasceram as canções: “A casa do sol nascente” (The house of the rising sun; dos The Animals); “Mamãe” (La Mama, de Charles Aznavour); “Não te amo mais” (Je ne T’aime Plus; de Christophe) e “Meu amor” (My Love; dos The Beatles).

Agnaldo venceu seus primeiros anos, exclusivamente, por causa da sua estrondosa e poderosa voz. Entretanto, foram raros os sucessos originais. Dentre os sucessos originais se encontra “Meu grito”, música de Roberto Carlos, que foi oferecida pelo compositor a ele. Segundo Timóteo, esta música consolidou a sua carreira. Os versos de “Meu grito” apresentavam a história de alguém que não podia gritar o nome do amor, para que ninguém soubesse, por isso falava baixinho “meu bem”. Embora esta música tivesse sido feita pelo astro da Jovem Guarda para a sua amada, uma modelo desquitada com quem viria a se casar, aquela música já levantava suspeitas sobre a sexualidade do seu intérprete. Assim surgiram os boatos de existirem duplo sentido em suas interpretações.

Com a carreira já consolidada, Agnaldo experimentou seu lado autoral. Compôs em 1975 sua primeira canção que veio a público – “A Galeria do Amor”. O sucesso foi imediato. Ela trazia de forma simples o retrato cantado das famosas galerias (casas de encontro) da zona sul da cidade maravilhosa. Segundo o autor e intérprete, ela se chamaria “Galeria Alaska”, em referência à galeria homônima que era a mais frequentada no Rio. Naqueles anos o espaço chegou a ser considerado o maior ponto de encontro gay do Brasil.

A EMI-Odeon não gostou do título, achou que não pegaria bem, além de não querer gravá-la. O polêmico e brigão disse que aquilo que ele estava falando era a realidade de muitos seres humanos, “gente a procura de gente”, que não poderia mais adiar que um tema desses viesse a público. Depois de uma modificação no título, pela primeira vez, o público gay encontrou uma canção que lhe falasse de forma subtil o que eles buscavam: “Numa noite de insônia saí, procurando emoções diferentes. E depois de algum tempo parei, curioso por certo ambiente. Onde muitos tentavam encontrar o amor numa troca de olhar (…)”.

 

Na “Galeria” ele expunha todo drama da dificuldade de lidar com o sentimento “diferente” em uma sociedade tradicional como a nossa que, acima de tudo, era comandada por militares que vinham com força de sobra para reprimir todo o tipo de diferença e manifestação ‘incomum’ para os padrões daqueles tempos. Segundo o músico e produtor musical Nelson Motta, “A Galeria do Amor” foi o ato mais corajoso de um cantor em plena ditadura militar, pois ela estava fazendo uma ode às casas de amores livres. Na abertura do Fórum das Letras de Ouro Preto (Flop), onde falava sobre a música brasileira ao lado do cantor Lobão, Nelson Motta foi fazer um elogio à coragem de Timóteo em lança-la e foi interrompido por um comentário nada elegante do também cantor Lobão: “uma tremenda bichona”. Sem esperar que o companheiro continuasse, Nelson Motta o interpelou e disse em alto e bom tom: “isso foi mais subversivo que dez discos de Geraldo Vandré!”; este, famoso compositor da época das canções dos festivais da música popular dos anos sessenta.

Pode ser que Nelson Motta tenha expressado sua ideia de forma exagerada, mas o que não se pode negar é que foi uma grande subversão. O fato de não ter sido uma música censurada foi explicada pelo próprio cantor que buscava “não ferir aos militares” e considera que por isso não tenha sido perseguido por eles. Após este seu primeiro sucesso autoral, o “bruto” da canção popular se viu à vontade para continuar abordando o mesmo tema. Assim surgiram os próximos três discos: “Perdido na noite”, “Eu pecador” e “Te amo cada vez mais”. Nestes discos se encontram sucessos de semelhante abordagem que merecem nossa observação: “Aventureiros”, “Grito de Alerta” (de Gonzaguinha) e “O conquistador”. Agnaldo, finalmente, deu aos seus discos a personalidade e a ideologia que lhes faltavam. Depois de “A Galeria do Amor”, ele deu o caráter artístico e original a sua obra: o amor-liberdade.

Sem a intenção de causar barulho, Agnaldo Timóteo expressou-se com toda a sua experiência e sua carga emocional, deixando para a posteridade a oportunidade de falar de temas que “nadam contra a maré”, pois em tempos mais difíceis que os atuais, ele teve a coragem e a ousadia de homenagear a Galeria Alaska, que segundo seus versos: “me acolheu, bem melhor do que eu mesmo esperava”. Falta aos artistas populares da atualidade, a coragem dos compositores da vanguarda.

Observação: Existem trabalhos, dignos de maior atenção e análise, que abordam esta canção de pano de fundo homossexual em tempos de ditadura militar. Dentre eles, destaca-se o livro “Eu não sou cachorro não”, do jornalista e historiador Paulo César de Araújo, que fala sobre o papel da música brega no cenário brasileiro dos anos setenta.

 

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