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Saudade Eterna do Deus dos Sonhos: hoje recordo Mark Sandman

Saudade Eterna do Deus dos Sonhos: hoje recordo Mark Sandman

 

Mark Sandman foi o primeiro artista mundialmente famoso cuja morte realmente me afetou profunda e eternamente. Não apenas adorava, como amava e ainda amo a música dos Morphine com uma paixão diferente de qualquer outro grupo musical. E hoje choro a ausência terrena do Deus dos Sonhos.

No dia 1 de Julho de 1999 estive no último concerto inteiro realizado pela banda Morphine, realizado no Hard Club em Vila Nova de Gaia (Portugal). Mark Sandman, líder do grupo norte-americano, morreu 2 dias depois em Palestrina, Itália, num local sagrado: em cima do palco, quando ia começar a tocar “Super Sex”, que seria a sétima canção do concerto perante o público italiano.

Em escassos segundos, o vocalista e baixista dos Morphine caiu por culpa de um ataque cardíaco fulminante, perante o olhar estupefacto e silencioso dos 5 mil espectadores, falecendo quase de imediato. Foi o final trágico daquela que na minha opinião era a banda mais sensacional do planeta. Quando recebi a notícia no dia seguinte, sinceramente ainda estavam muito vivas as recordações do concerto inacreditável que tinha assistido no Hard Club apenas 2 dias antes (que se alargou por mais de 3 horas), numa noite quente e mágica de Verão.

Desde que criei o Blog Mundo de Músicas (Agosto de 2015) que sinto uma grande culpa em cima dos ombros. O facto de nunca ter escrito uma linha sequer sobre Mark Sandman e os Morphine era uma falha imperdoável que apenas poderia ser colmatada com este texto.

Mas na verdade existem várias razões para nunca ter escrito nada sobre a personagem mais genial que a minha geração viu nascer enquanto estrela de rock. Devido ao impacto da sua música na minha Vida e personalidade nunca iria dormir tranquilo se escrevesse um texto sem entregar a minha Alma. E por isso até hoje nunca o escrevi. Até hoje.

“My biggest fear is if I let you go

You’ll come and get me in my sleep”

Mark Sandman in “The Saddest Song” (Good)

Relembrar Mark Sandman sem mencionar a sua morte trágica em palco seria injusto para a maioria dos leitores. Mas este artigo é bem mais pessoal do que o habitual e circula ao longo do tempo.

Arte é Vida. E a Vida são ligações, laços, afectos, sentimentos, mudanças, transformações. Desde que me conheço que consumo compulsivamente Música, Literatura e Cinema. Ou seja, desde adolescente que ouvia muitas bandas, via concertos, frequentava sessões de cinema, e lia os livros nos quais conseguia meter a mão.

Algumas centenas de discos, livros e filmes depois, um belo dia alguém apresentou-me a um novo grupo que estava a ter sucesso e que era “incrível”. Como todos os melómanos sabem, muitas vezes a crítica especializada ou a comunicação social tenta vender a ideia de originalidade e singularidade sobre uma determinada nova banda que está a despontar. Mas poucas vezes as expressões “únicos, originais e distintos” são acertadas.

“É só um gajo com um baixo de 2 cordas que também canta, outro com um saxofone, e um baterista com uma bateria minimalista!”

Hmm… Ok, tinha de ouvir.

Quando conheci a banda Morphine senti que subi um degrau acima na minha compreensão da Arte. As coisas simplesmente elevaram-se a outro nível. Eu gostava e gosto muito de Pearl Jam, Faith No More, Nirvana, The Rolling Stones, James Brown, Elvis, bandas e artistas da Motown, grupos rock clássicos e muitas outras bandas de estilos musicais diferentes.

Mas os Morphine introduziram-me a novos universos, da mesma forma que uma fotografia panorâmica de 360º mostra muito mais detalhes. São uma banda com uma sonoridade composta por camadas, dimensões e vibrações sem igual. E com a audição massiva dos seus discos ressoaram em mim novas sensações sobre a importância da música enquanto arte transformadora.

“I’m free now to direct a movie

Sing a song or write a book about yours truly”

Mark Sandman in “I’m Free Now” (Cure For Pain)

Existe uma complexidade naquele som distinto que desde o primeiro contato sempre me cativou e serviu como rampa propulsora para toda a minha vida. Primeiro identifiquei-me bastante e de forma inconsciente com o sentimento melancólico, doce, suave, introspectivo, profundo e pensativo das músicas e letras sensacionais que estão espelhadas em todos os momentos de qualquer álbum ou concerto dos Morphine.

Não era só a questão do grupo ser mesmo radicalmente único e distinto: uma banda composta apenas por um baixo de 2 cordas, um saxofone barítono e uma bateria não era propriamente a formação típica da cena musical internacional. Catalogados como jazz-rock pela maioria da imprensa, eles eram sobretudo músicos livres com espírito criativo.

Nem sequer sei porquê que alguém se daria ao trabalho de tentar explicar como é a música dos Morphine. É impossível explicar. Tem de ser ouvida, sentida, assimilada. O que Billy Conway (bateria), Dana Colley (saxofone) e Mark Sandman (voz e baixo) criaram apenas é perceptível pelo ouvido.

Eles eram de facto tão originais que percebi logo como seria raro na história da Música uma banda destas ter sucesso massivo. Ao longo da história da música existiram claro formações de grupos inovadores marcantes, que subverteram o rumo dos sons que se misturam nas nossas vidas: os The Doors talvez sejam o expoente máximo do exemplo de um grupo atípico que teve influência global. Mas, no final da década de 90, tal como agora, continuam a ser raros os casos semelhantes. Para mim foi como encontrar uma agulha num palheiro.

A escassez de meios e a economia instrumental dos Morphine transmitiam uma capacidade musical, que até podia ser (porque era) considerada um bocado elitista. Só que era também uma forma musical na sua expressão pura de sentimentos, desprovida de truques e artificialismos. Claro está que quem ouvia os Morphine não pensava em nada disso: apenas usufruía daquele som belo, imenso, poderoso que emanava do trio. E é isso na verdade sempre o mais importante: a Música, as Palavras, a Arte.

Na altura que descobri os Morphine ainda tinha menos de 20 anos de idade, e naturalmente tinha de tomar decisões fulcrais, que iriam determinar todo o resto da minha existência na Terra. E o descobrimento dos Morphine foi tão influente como só o destino pode ser. Sons espalham energias, energias provocam pensamentos, pensamentos estimulam acções.

É curioso: acredito há muito tempo que existe uma banda sonora da nossa Vida que não é escolhida por nós, mas sim por alguma entidade superior que vê tudo e ouve tudo e coloca à nossa frente determinadas canções pelas quais nos apaixonamos. Apesar de parecer que não é assim que funciona, considero que quem é amante de música não escolhe o seu percurso musical, ou até a sua ‘educação’ musical.

Ao longo da vida aprendi que afinal é tudo um acaso, um caos de acontecimentos e sentimentos que nos atraem para as nossas músicas preferidas, que repetimos vezes sem conta até ao último dos nossos dias. E quando temos menos de 20 anos a Arte de que gostamos parece precisamente espelhar o que é a nossa Vida: confusão, abstracção, ilusão, sonhos!

Devido aos Morphine conheci a obra de Jack Kerouac, devido ao Kerouac e à Beat Generation finalmente alcancei um enquadramento mental perante a sociedade e, sobretudo, uma compreensão do sentimento de Liberdade perante os Outros que me atirou para o Mundo tal como sou hoje.

“I got a head with wings

I got a head with wings

I got a head with wings

And I can see so far away

I can see so clear

You would not believe

The view up here”

Mark Sandman in “Head With Wings” (Cure For Pain)

Morphine – Hard Club (1 de Julho de 1999)

A primeira vez que os meus olhos repousaram em Mark Sandman foi na primeira actuação dos Morphine em Portugal, na Gare Marítima de Alcântara, em Lisboa, no Verão de 1995, durante o primeiro festival Super Bock Super Rock. Sinceramente, nunca tinha imaginado ver uma banda com tão poucos instrumentos (e sem guitarra sequer) dar um grande, imenso e verdadeiro show de rock. Mas foi isso que eu e milhares de pessoas assistiram naquele dia.

 

Curiosamente, o público em Portugal sempre adorou os Morphine. E os Morphine adoravam Portugal. Por vezes, existem fenómenos assim, que sinceramente não acontecem sem razão. Creio convictamente que existe algo na Alma portuguesa enquanto povo que é espelhada nas canções da banda que assinou discos memoráveis como Good”, “Cure For Pain”, “Yes”, “Like Swimming” e “The Night”.

Mark Sandman era humilde e isso transparecia nas suas músicas e postura em palco, talvez por ter alcançado sucesso ao fim de muitos anos no meio musical (anos antes tinha alcançado relativo reconhecimento com os Treat Her Right). Não era o vocalista tipo de uma banda de sucesso ou uma personagem deslumbrada com o êxito ou sucesso comercial. Era, tanto quanto possível, muito fiel à sua Arte, muito nobre no sentido da criação de música com máximo de entrega e na comunhão com o público.

Qualquer pessoa que tenha estado num concerto dos Morphine sabe que o ar que se respirava enquanto a banda tocava era mais leve, solto, livre de preconceitos, paradigmas, ou opressões. A química sonora entre Mark Sandman, Billy Conway e Dana Colley em palco era rara e comovente. Eles eram apenas 3, mas de certa forma parecia que eram apenas uma grande entidade suspensa na mesma molécula que afectava os sentidos de cada pessoa na plateia. Era esquisito, era quase uma experiência de grupo e individual em simultâneo, num universo paralelo que Dana Colley exemplificava na perfeição quando decidia fazer solos tocando 2 saxofones ao mesmo tempo!

Os concertos eram vibrantes, lindos e muito divertidos. Pode parecer um paradigma que com um reportório tão introspectivo, intimista e profundo, os Morphine fossem divertidos em palco. Mas eram e muito!

Não só Mark Sandman falava bem português, pois enquanto viajante passara algum tempo no Brasil e, enquanto estudante, esteve 3 meses na Faculdade de Letras de Lisboa de Portugal, como era um contador de histórias nato, conhecedor de Literatura, que aproveitava as pausas dos concertos para colocar toda a plateia em risos.

São assim os homens beatnicks profundos clássicos: num minuto fazem rir, no minuto seguinte emocionam com um pensamento, uma história desvairada, uma poesia solta ou uma linha de baixo poderosa. Lágrimas e gargalhadas. Como espectador era acima de tudo intrigante ver como eles não apenas reproduziam o som de excelência dos discos (todos eles imaculadamente produzidos), como ainda iam muito mais além em versões ao vivo ainda maiores em estilo e forma. Concertos inesquecíveis, sem dúvida. Momentos inolvidáveis de beleza.

E claro: eram 3 músicos excepcionais, que tal como todos os verdadeiros génios, acima de tudo colocavam a técnica ao serviço de cada canção, sem excessos de virtuosismos ou maniqueísmos. Eram brilhantes, simplesmente brilhantes!

Conheça o Livro e Documentário sobre Mark Sandman

Não sabia nada de relevante sobre a vida pessoal de Mark Sandman antes da sua morte. Quer dizer, tinha algumas coordenadas, já tinha lido algumas entrevistas ou visto algumas coisas na televisão. Mas desconhecia o seu percurso desde criança até ser o líder carismático e cool dos Morphine.

Apenas fiquei ciente da sua história trágica por via do incrível livro escrito pela sua Mãe, denominado “Four Minus Three: A Mother’s Story”, que também inspirou um documentário sensacional que desvenda alguns dos mistérios que rodeavam Mark Sandman. E o impacto dessas revelações provocou a escrita deste texto.

Desconhecia por exemplo que ele era o mais velho de 4 irmãos (3 rapazes e uma rapariga) de Boston (sendo que o mais novo sofria de paralisia cerebral). Também não sabia que em meados da sua Vida (nasceu em 1952) e apenas no período de 16 meses, ambos os seus irmãos faleceram. Ignorava todo o percurso de viajante durante mais de 10 anos no final da adolescência.

E também nunca tinha percebido que durante toda a sua Vida, tanto o Pai como a Mãe desconheceram quase por absoluto o seu percurso artístico, numa revelação que me chocou imenso. Nunca podia imaginar que aquele artista que escreveu canções memoráveis ser ignorado enquanto tal pelos seus próprios pais.

Tudo isto é explicado de forma linda, brilhante e honesta no livro “Four Minus Three: A Mother’s Story” da autoria de Guitelle H. Sandman (mãe de Mark Sandman), cuja leitura recomendo a todas as pessoas de bem com todas as minhas vísceras. Também nos excelentes documentários “Cure for Pain: The Mark Sandman Story” e “Journey Of Dreams” são mencionados muitos ângulos e aspectos da Vida de Mark Sandman que revelam muito mais daquilo que o grande público conhecia. E que explica por que razão dedicou a sua Vida a criar Arte bela e delicada.

“If you can’t decide what to do with your life

You just don’t know what it is that’s right

If you just don’t know what to do

You just don’t know what’s right for you

If you can’t decide where to go with your life

You just don’t know where to spend your time

If you can’t decide where to go with your life

I’m sure you’ll do whatever is right

I’ve always known you were incredibility bright”

Mark Sandman in “Yes” (Yes)

Além de musicalmente inspiradoras, as canções dos Morphine são anatomicamente corretas. Tal como Tom Waits, por exemplo, o líder dos Morphine pertence à categoria de letristas que gostam de colocar factos concretos dentro das suas músicas: referem nomes de pessoas e locais, assinalam datas e revelam como estava a meteorologia, incluindo ainda peças de roupa, cheiros e comida! As letras de Mark Sandman também são assim: contam histórias intemporais de pessoas comuns com a humildade que só os grandes escritores conseguem desvendar.

Por tudo isso, devo sobretudo a Mark Sandman ele ter conseguido transformar a sua Dor em Arte intensa e bela que me emocionou e empurrou para uma descoberta de mim próprio sem retorno.

Depois de ler o livro e ver o documentário “Cure for Pain: The Mark Sandman Story” foi fácil concluir que Mark Sandman pertence também ao grupo restrito de artistas que colocou toda a sua Vida, as suas experiências, a sua Humanidade, a sua Liberdade perante os Outros, ao serviço da sua Arte. Algo que já sabia por instinto (sem consciência de que já sabia, quero eu dizer) apenas desconhecia os factos, as fontes de inspiração provindas de locais e experiências tão negras. Contudo, ele transformou e diluiu tudo que viveu como um alquimista num movimento constante espremendo Arte com origem no coração.

Por isso mesmo, as músicas dos Morphine espelham através de sons e letras muitas metáforas, sentimentos e momentos que estão (como fazem os bons poetas) escondidos e ocultos à espera de disparar efeitos subliminares directamente para o coração dos ouvintes.

Muitos dos significados que nunca entendi, mas sempre senti, foram apenas revelados com o livro e o documentário que já referi.

Tal como é explicado pelo próprio Mark Sandman no documentário que pode ver em baixo na íntegra com legendas em português, a palavra Morphine vem do latim Morfeu que era o Deus dos Sonhos. O facto de eu ter visto o último concerto inteiro dos Morphine em Portugal, 2 dias antes da sua morte em Itália, obviamente ajudou ao meu sentimento de perda eterna, que ainda hoje se mantém. Acredito que existem razões superiores que conduzem as nossas Vidas por caminhos desconhecidos.

Mark Sandman morreu num local sagrado chamado Palestrina, perto de Roma (Itália), em palco após um ataque de coração súbito. Trágico sem dúvida. Mas, de certa forma, teve um sentido, um simbolismo espiritual inalcançável que só o destino pode explicar.

Um artista que usava o coração como arma principal falecer em palco a tocar a sua música perante o público que amava traído pelo mesmo coração? O que ele acharia de isto tudo?

Para mim, Mark Sandman foi o meu Deus dos Sonhos, alimentou-me a Alma, avisou-me sobre as minhas qualidades e imperfeições, explicou-me as maravilhas e defeitos do Mundo, empurrou-me para esse mesmo Mundo, desafiou-me a ser eu próprio, a assumir-me sem complexos nem receios como um indivíduo único, distinto, original, aliás como todos somos. Mas sobretudo tornou-me um melhor Ser Humano com mais respeito pela Vida, pela Arte, pelas coisas belas, pelo Amor. E fez isso tudo expiando as suas dores através de canções.

Normalmente, o sentimento que nutro quando um artista que aprecio desaparece é sobretudo o sentimento que nunca mais vou ter Arte nova produzida por aquela pessoa tão genial e que me dá tanto prazer ouvir, ler e ver. Resumindo, lamento muito não ouvir todos os anos, por exemplo, discos novos de Kurt Cobain, Stevie Ray Vaughan, Jeff Buckley, Layne Staley, David Bowie e Prince.

No caso do desaparecimento de Mark Sandman esse sentimento foi ainda maior do que o habitual, porque as coordenadas e pistas que ele lançava na sua imensa veia poética musical serviam como guia de orientação pessoal. Portanto nos primeiros anos lamentei ainda mais a inexistência da sua obra futura do que celebrei a obra passada.

Demorei algum tempo a voltar aos eixos: a música dos Morphine é melancólica, triste e soturna? Sim é! Mas também está cheia de esperança, luz e Amor.

E como ela brilha e ilumina o meu caminho neste texto finalmente sinto alívio e menos culpa, porque tento fazer justiça a Mark Sandman, divulgando o máximo possível os seus méritos, Obra, Vida e Arte, de modo que alguém, algures, sinta a mesma luz de inspiração sob a sua Alma.

Veja aqui o documentário “Cure for Pain: The Mark Sandman Story”
 

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