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Chrissie Hynde: a mulher águia que não esconde nada

Chrissie Hynde: a mulher águia que não esconde nada

 

Chrissie Hynde chegou em passo lento, ancas arqueadas balançando alvoraçadas, no braço uma estranha mancha branca. Subiu ao palco do Festival de Vilar de Mouros 1999 para fazer o “check-sound”, ergueu os braços com firmeza, exigiu aos restantes Pretenders mais empenho e, em pose de “rock star”, balbuciou entre impropérios: “parece que ainda estão a dormir”.

Zangada, sentou-se na caixa do material, pernas afastadas, pegou na guitarra, assentou-a no colo e começou a debitar “Don’t get me wrong” com uma espécie de fúria incontida que obrigou os colegas a desistirem de a acompanhar. Tocou sozinha, enraivecida, e deixou o palco em passo apressado entrando num “Production office” onde se lia: “Animal perigoso. Não tocar nos vidros. Não dar de comer”.

Esperei duas horas do lado de fora, ao lado de umas t-shirts a secar com o escrito “Pop star” estampado, até que a senhora se dignou a aparecer-me, prendendo-me a mão na sua durante longos e constrangidos segundos enquanto me olhava directamente nos olhos com uma intensidade tal que parecia querer descodificar-me de imediato a personalidade. Pergunta-me quem sou; respondi-lhe com um poema cantado de improviso. Sorriu com agrado e exclamou: “Parece-me que fazes parte daquele grupo de críticos de música que são músicos frustrados”.

Fiquei sem jeito mas aliviado quando me lembrei que ela, antes de ser cantora, foi jornalista do New Musical Express. Decidi confrontá-la. É verdade que você e Ray Davies, dos Kinks, com quem teve uma filha, Natalie, foram a um conservatório civil para casar mas o juiz foi obrigado a recusar o vosso pedido porque, ali mesmo, em frente a ele, vocês começaram a agredir-se verbal e fisicamente?

“Foi verdade e acho que ele fez muito bem em não nos ter casado. Mas isso faz parte da minha vida privada”. Pois faz. E também é do foro privado os abusos com drogas que levaram à morte de dois dos seus companheiros, James Honeyman-Scott e o “baixista brilhantina” Peter Farndon, fundadores dos Pretenders, ambos por overdose.

Conto-lhe que, em 1988, num festival no Rio de Janeiro, vi-a, irada, parar no meio de uma música para expulsar o câmara-man com o pretexto que estava ali para dar um concerto e não para fazer um filme, sem saber que, depois de nos termos despedido com um abraço quase apertado, perante milhares de gritos de “Portugal, Portugal”, repetiu a cena, gritando enfurecida que era suposto estar num concerto e não num jogo de futebol.

Tem mau feitio Chrissie? “Sou intolerante e há coisas que não admito”.

   

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