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Os Alunos do Professor Cauby Peixoto

Os Alunos do Professor Cauby Peixoto

 

O cantor niteroiense Cauby Peixoto, em seus mais de 65 anos de carreira, fez muitas amizades no meio artístico. Reconhecido pela sua simpatia e atenção para com todos, principalmente para os artistas principiantes e seus fãs, a sua voz de trovão se calou, no início deste ano, deixando como legado a sua Música Popular e todas as obras que por ele foram influenciadas.

Cauby tomou emprestado o hábito de seu empresário e descobridor Di Veras: chamar a todos de professor. Assim ficou reconhecido – o “professor” da música brasileira. Ele sabia que aprendia muito com os mais jovens e com os novos estilos que surgiam: testou o rock and roll no Brasil, gravou as primeiras bossas, caiu na onda do iê-iê-iê e assimilou a soul music e o novo pagode. Acompanhou Zeca Pagodinho em duas rodas de samba, onde cantou entre bambas, gravou um rock com Supla e a antiga banda Tokyo e recebeu homenagens, após fazer elogios, do jovem sertanejo universitário Luan Santana.

Como todo mestre, Cauby, segundo o diretor do documentário que conta a sua história, todos os dias levantava e ia estudar. Ele lia diariamente livros de música e experimentava novas formas de cantar, novos tons e novas nuances. Era o ‘monge’ da música.

E é claro que um professor como Cauby Peixoto deixou alunos exemplares em vários estilos musicais.

Segue aqui uma lista dos alunos do eterno professor e seu contato com o astro.

Os Alunos do Professor Cauby Peixoto

Elis Regina

Foi ouvindo a Rádio Nacional que Elis Regina aprendeu a cantar. A voz masculina que mais lhe deixava fascinada era a de Cauby. Elis gravou com o ídolo em 1979, em uma fase em que o cantor lutava para sair do ostracismo. Em seu disco “Mulher”, Cauby complementa a canção “Bolero de Satã”, feita para este encontro de gerações. Sem dúvidas a canção virou um clássico do repertório de Elis Regina. A “pimentinha” ajudou seu ídolo, que um ano depois gravaria um LP de clássicos de artistas renomados (incluindo “Bastidores” de Chico Buarque). Nas comemorações dos 70 anos de Elis, seu filho e produtor convidou Cauby para participar deste projeto em homenagem a sua mãe. Além de cantar “Dois pra lá, dois pra cá”, ele lembrou que sentia muita saudade da amiga, a quem ele costumava ligar para desabafar seus dramas amorosos e receber conselhos.

Elis chama Cauby para cantar “Bolero de Satã” em 1979:

Maria Bethânia

Através do Rádio e da vitrola não se podia saber como o artista cantava senão através da entonação da sua voz. Foi através da observação da interpretação musical de Cauby, analisando todo o sentimento que ele impunha em suas gravações ou interpretações, que Maria Bethânia imaginava o cantor gesticulando com as mãos, correndo no palco, se emocionando de todas as maneiras… No Documentário “Cauby – Começaria tudo outra vez”, do diretor Nelson Hoineff, Bethânia deixa registrado que ele foi seu professor na forma de cantar, interpretar e colocar sentimento nas canções.

A cantora canta “Começaria tudo outra vez”, clássico da dupla Angela Maria & Cauby Peixoto:

Agnaldo Timóteo

Foi imitando seu ídolo nos circos em Caratinga, Governador Valadares e Belo Horizonte, todas cidades mineiras, que o torneiro mecânico foi reconhecido como o “Cauby Mineiro“. Enquanto o astro viajava sempre pelo país e muitas vezes para o exterior, ele defendia as suas canções realizando imitações no rádio. No show de celebração dos seus 50 anos de carreira, Agnaldo Timóteo relembra sua juventude cantando “Onde ela mora”, “Tarde Fria” e “Nono Mandamento”, todos sucessos do seu ídolo, que o acompanha com dificuldade e o elogia dizendo: “Agnaldo é o meu maior fã. Fã e amigão”. Em seu mandato como Vereador de São Paulo em 2006, ele homenageou Cauby com o título de Cidadão Paulistano. Agnaldo entrou no palco das comemorações de 55 anos de carreira de Cauby, emocionando demais o artista com a placa que lhe conferia o título. Para selar a união de Cauby com Sampa, o seu amigo cantou “A Noiva”.

Cauby e Timóteo cantam “A Pérola e o Rubi” e “Tarde Fria”:

Emílio Santiago

Vários encontros ocorreram entre os dois cantores. Quando Cauby comemorava seus 60 anos de música, Emílio dividiu a interpretação da seresta “Meu sonho é você”. Alí estava um importante símbolo – Dick Farney! O músico que também fizera sucesso nos Estados Unidos unia a musicalidade de Cauby com Emílio Santiago. O mais jovem gravou um álbum em tributo ao ídolo em comum, anos antes de falecer precocemente. Cauby faleceu deixando um álbum de interpretação das canções de Dick Farney para ser lançado. Emílio cantou diversas vezes com Cauby e um visitou o repertório do outro. O professor lembrou “Saigon” e o aluno gostava de “Conceição”.

Cauby e Emílio Santiago cantam “Meu Sonho é você” do repertório de Dick Farney:

Tim Maia

Na gravação do programa “Ensaio” da TV Cultura, Tim Maia, o rei do soul music brasileiro, disse que se inspirou em grandes vozes nacionais para moldar a sua voz, muito embora tivesse tido grande influência da música norte-americana – rock, folk, soul e funk. Ele disse que foi ouvindo o estrondoso “Conceiçãããããoooo” que ele decidiu que poderia também exagerar em algumas apresentações, alongando notas e aumentando seu tom.

 

Erasmo Carlos

Segundo a biografia do cantor “Minha fama de mau”, a figura brasileira que o inspirava e inspirava também toda a juventude dos anos 50 era a de Cauby Peixoto. “Seu jeito todo ‘americanizado’ de ser, sua educação e seu carinho com as fãs”, conforme lembrou Erasmo, “era a nossa maior inspiração nacional”. Erasmo gravou a primeira vez em cinema quando acompanhou Cauby em “Minha sogra é da polícia”. Erasmo Carlos dividiu os back-vocais junto de Roberto Carlos, Carlos Imperial e Arlênio, enquanto Cauby entoava o rock em inglês “That’s Rock”, do playboy Imperial. Erasmo disse em 2007, quando lançou seu segundo disco de encontros “Erasmo Convida 2”, que gostaria de ter cantado com seus dois ídolos Cauby Peixoto e João Gilberto, mas por problemas de agenda o encontro não aconteceu e o álbum saiu sem suas participações.

Erasmo interpreta “Eu sonhei que tu estavas tão linda”, famosa na voz do ídolo:

Raul Gil

O cantor e apresentador Raul Gil lembrou que no início de sua carreira a imitação de Cauby era a que mais agradava ao público. Em bares, restaurantes e churrascarias, Raul imitava seu ídolo e era aplaudido de pé. O apresentador realizou diversas homenagens ao artista, dentre elas um programa especial onde cantou com Cauby “Conceição” e convidou artistas para prestar depoimentos emocionantes. Em seu programa após o falecimento do cantor ele disse que “se foi a maior voz do Brasil“. Lembrou que Cauby era seu “professor” de música e se emocionou relembrando momentos que deixaram saudades.

Raul Gil imita Cauby cantando “Conceição”:

Elymar Santos

Nos anos 70, Elymar procurou o ídolo no camarim e o apresentou uma canção que gostaria de gravar. Cauby disse que ele poderia gravar e que faria sucesso sim, mas sugeriu que ele fosse mais além, que falasse em um vocabulário mais “safadinho”. Elymar recebeu como ordem o conselho do mestre e compôs “Taras e Manias”, seu maior sucesso. Os cantores se encontraram várias vezes, cantaram juntos em variadas ocasiões. Em uma homenagem que Cauby recebia de Faustão, que realizava seu sonho de cantar no Canecão (antiga e tradicional casa de shows carioca), Elymar dividiu com o professor a música “Ninguém é de ninguém”.

Elymar canta três sucessos do repertório de Cauby em um Pout-Porri: NEGUE/ PENSANDO EM TI/ NINGUÉM É DE NINGUÉM:

Michael Sullivan

Em um documentário-musical, o compositor prestou uma homenagem a Cauby Peixoto. Segundo Michael Sullivan, ele encontrou o artista na porta de uma casa de shows em Recife nos idos de 1960. Cauby desceu de um carro preto, olhou para ele e disse: “Vá para o Rio, lá você vai fazer muito sucesso. Aqui não é lugar pra você”. Ele então recebeu aquilo como uma ordem! Foi para o Rio e, apesar das dificuldades iniciais, passou a integrar um grupo de jovem guarda e começou a compor para vários artistas. De acordo com as crenças, Michael Sullivan diz que Cauby foi inspirado pelo Espírito-Santo, que falou através da sua voz.

Michael Sullivan fala de Cauby em seu documentário:

Sidney Magal

Após ver Cauby na televisão nos anos 1960/70, que o jovem carioca decidiu que poderia assumir o visual exótico. Depois de já existir Cauby Peixoto com seu estilo extravagante e ainda surgir os Secos & Molhados com toda a sua contra cultura, ele não hesitou. O cantor relembra em todas as ocasiões que a vez em que mais ficou nervoso no palco foi quando Cauby ganhou o Prêmio da Música Brasileira em 1993, junto da amiga Angela Maria. O ídolo o convidou de surpresa para subir no palco para dividir a interpretação do clássico “Conceição”. Segundo Magal, esta foi uma verdadeira prova de fogo. Magal pela primeira vez cantava para uma platéia exclusiva de artistas. Aliás, todo professor gosta de testar seus alunos!

Márcio Gomes

Em seu álbum “Márcio Gomes canta Francisco Alves”, de 2001, o jovem artista cantou em dueto com seu ídolo Cauby. Francisco Alves era o nome de adoração em comum entre os dois. Cauby imitava Francisco Alves quando criança e fez seu repertório em cima daquilo que o antigo admirado havia cantado. Os dois se encontraram e deixaram brilhante o clássico “Eu sonhei que tu estavas tão linda”, de Lamartine Babo e Francisco Mattoso. Cauby costumava receber o jovem em seus shows no Rio de Janeiro. Ele cantava e conquistava as senhoras da plateia do veterano. Márcio Gomes é um cantor popular de voz potente e estilo clássico que ganha espaço na mídia e na vida musical dos cariocas, já tendo público fiel nas tardes e noites da cidade maravilhosa.

Márcio Gomes homenageia Cauby cantando “Bastidores”:

Pela qualidade de seus eternos “alunos”, além de sua voz poderosa, sua obra e seu jeito todo próprio de ser, Cauby Peixoto ficará para a posteridade, lembrado sempre pelo seu canto.

 

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