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Bastidores: o espírito artístico-feminino de Chico Buarque na voz de Cauby Peixoto

Bastidores: o espírito artístico-feminino de Chico Buarque na voz de Cauby Peixoto

 

A sensibilidade e a capacidade de Chico Buarque escrever músicas no eu-lírico feminino é uma das suas marcas. O poeta leva para as suas canções o espírito do romantismo e do drama vivido por personagens mulheres… Cauby Peixoto compreendeu o sentido de “Bastidores“, dando-lhe vida e emoção.

Um traço marcante na obra musical de Chico Buarque é a sua sensibilidade de captação dos sentimentos, sensações e desejos de uma mulher. Como se quisesse responder à questão básica proposta por Freud, ele se transportou várias vezes para o universo feminino para compor “o que querem as mulheres?”. Não somente o querer de uma mulher foi retratado, mas também o pensar, o viver e o imaginar de uma mulher. O autor não se limitou.

É raridade entre os compositores esta característica tão presente sua obra. “Bastidores” talvez seja o maior e melhor exemplo, pois seu intérprete principal foi um cantor unissex – o camaleônico e versátil Cauby Peixoto. Embora tenha ganhado outras interpretações, como a de seu próprio compositor, e também do refinado bossa-novista João Gilberto, não houve intérprete que melhor tenha sentido tudo o que “Bastidores” pode oferecer – talvez coubesse a Chico somente o trabalho de criá-la, pois sua interpretação se assemelha a de um inventor que não consegue alcançar todo o valor de sua invenção. Na linguagem da Psicologia Analítica, reconhecendo-se que existe um arquétipo do sexo oposto dentro de cada indivíduo, podemos afirmar que Chico compôs com sua Anima (traço feminino na psique do homem) e Cauby interpretou com sua Anima.

Em suas comemorações de 25 anos de carreira, em 1980, foi lançado “Cauby! Cauby!”, disco que trazia “Bastidores” na abertura do álbum.

O espírito da canção é de uma moça que canta em cabaré, que, provavelmente, foi parar naquela vida pelo abandono de um antigo amor. A personagem busca forças em tranquilizantes, relaxantes ou embriagantes, a fim de tomar toda a força para subir no palco:

“Chorei, chorei até ficar com dó de mim

E me tranquei no camarim

Tomei um calmante, um excitante,

Um bocado de gim…”

 

Visivelmente em estado abalado de espírito, ela surpreende-se ao cantar de forma tão bela a ponto de arrancar aplausos fervorosos da plateia de degenerados: “e os homens lá pedindo ‘bis’, bêbados e febris a se rasgarem por mim”.

Em uma observação atenta às várias interpretações do Cauby, foi possível identificar como ele se modificou ao longo dos trinta e cinco anos, em que nunca foi possível deixar de cantar este sucesso, tão exigido pelo público quanto “Conceição”, seu primeiro sucesso. No ano de lançamento, ele estava ostentando seus cinquenta anos de idade e cantava abaixado no palco, com uma perna deitada no chão e a outra dando suporte ao braço que segurava seu microfone (talvez fosse uma tentativa de se aproximar mais do público), com luzes baixas e somente um foco de luz iluminando seu rosto. Dez anos depois estava o mesmo Cauby, porém cada vez mais extravagante: ao lado de Angela Maria, sua amiga e parceira musical, ele alongava os acordes e se permitia “soltar-se” um pouco mais. Já na idade avançada, em homenagem ao compositor no Som Brasil, ele já cantou sentado, porém com uma voz belíssima: sua velhice lhe deu grave na voz, deixando-o mais elegante.

Nos últimos anos de sua vida, “Bastidores” era a única música que ele não precisava ler para cantar. Embora a sua cabeça estivesse cansada e a saúde frágil, mostrando um cantor um pouco distante da realidade, quando a introdução vinha do conjunto que o acompanhava, ele se erguia para frente, sentado em uma confortável cadeira, e interpretava da melhor forma possível. Não raro o público podia vê-lo chorar de verdade, as lágrimas vinham-lhe aos olhos. Ele vivia aquela vida contada em “Bastidores”.

Toda a beleza das suas variadas apresentações de “Bastidores”, ao longo da sua carreira, confirma o que ele disse épocas atrás em uma entrevista “quando canto parece que recebo uma entidade no palco”! Cauby chorava, cantava, transmitia, sentia e vivia aquela mulher que sofria nos “Bastidores”. Só quem o viu cantar sabe como a música é sensível e profunda. Chico também “chorou, chorou”, cantou, compôs, sentiu, imaginou e transmitiu. Na verdade, um captou o outro. Eles entenderam o espírito-feminino, o qual somente a arte permite/consegue expressar-se sem muita recriminação, e até mesmo com louvor e admiração na sociedade.

“Cantei, cantei. Jamais cantei tão lindo assim…”

Feliz foi Cauby Peixoto por viver o feminino de Chico em “Bastidores”.

Feliz foi Chico Buarque por escrever o feminino para Cauby em “Bastidores”.

 

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