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20 anos depois, os Blind Zero continuam a sonhar

20 anos depois, os Blind Zero continuam a sonhar

 

Na noite de 29 de Janeiro de 2016, os Blind Zero fizeram um concerto especial na Casa da Música do Porto. Para comemorar os 20 anos do lançamento do primeiro disco, “Trigger”, a banda portuense juntou fãs, amigos, jornalistas, agentes, produtores de espectáculos e ex-companheiros de estrada para tocar o disco na íntegra. E o serão acabou em apoteose, com a confirmação plena para quem assistiu que os Blind Zero são uma força viva da música e cultura portuguesa.

Ponto prévio: conheço o Vasco Espinheira (guitarrista e co-fundador dos Blind Zero) há mais de 20 anos. Aliás, ele é um colaborador habitual do Blog Mundo de Músicas, portanto obviamente não tenho um ponto de vista distante sobre a banda e os seus méritos. Se eu fosse um jornalista e este blog fosse um jornal, eu teria de escrever este texto de forma imparcial, objectiva e rigorosa. Mas não é, por isso, este texto é parcial, subjectivo e pouco rigoroso!

O tempo e o espaço

A noite estava plácida e convidativa a reflexões. O típico nevoeiro tripeiro pousou sob a Rotunda da Boavista, conferindo uma atmosfera peculiar e misteriosa para todos os que se dirigiam ao edifício imponente da Casa da Música. Num momento de nostalgia, olhei para todo o cenário envolvente e fiquei breves minutos a pensar em como tudo aquilo era diferente há 20 anos atrás.

Na verdade, já passei nesta zona centenas de vezes desde que foi alvo de uma profunda remodelação urbanística, mas nunca tinha parado para pensar em como tudo se transformou para (muito) melhor. Onde agora é a Casa da Música, outrora existia um terminal de autocarros da STCP, por exemplo. O trânsito caótico, as obras intermináveis, o jardim descuidado e lamacento, e até mesmo a anarquia que atraía gente perigosa para o meio dos arbustos, tudo se transformou neste local.

Contudo, notei emocionado que essa transformação não alterou o encanto e a magia de sempre daquele espaço icónico. A essência da beleza da Rotunda da Boavista jaz no jardim, onde está retratada de forma eterna o espírito e a alma da cidade do Porto. E essa beleza continua intacta através dos tempos. Ali, mesmo no meio da maior praça da cidade, a Praça Mouzinho de Albuquerque (vulgarmente conhecida como Rotunda da Boavista), está o meu ícone preferido da cidade: o Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular.

Poderoso, triunfante e elegante, o leão que derruba a águia no topo do obelisco comemora a vitória da união entre ingleses e portugueses contra o exército de Napoleão. É um retrato perfeito da razão pela qual a Cidade Invicta nunca quebrou face ao todo poderoso Imperador francês: as gentes do Porto sempre tiveram uma mente aberta a outras culturas e influências, sendo capaz não somente de as aceitar e absorver, mas também de adaptar e criar algo novo com muita alma, garra e espírito de luta. Foi isso que fizeram ao aceitar a ajuda dos ingleses para derrotar os exércitos de Napoleão: as pessoas do Porto sonharam e acreditaram que podiam vencer o homem que dominava grande parte da Europa. E triunfaram!

A cidade do Porto como inspiração musical

No início dos anos 90, a região do Grande Porto borbulhava de jovens aspirantes a músicos. Existiu sempre na cidade uma forte tradição cultural, que se manifestou em diversas artes através de nomes que posteriormente foram consagrados a nível nacional em várias áreas. Na música, o Porto também sempre mostrou talentos de variados géneros musicais: GNR, Rui Veloso, Táxi e Trabalhadores do Comércio marcaram a década de 80, por exemplo.

Na altura não acontecia na cidade apenas um movimento musical, mas vários em simultâneo: existiam as bandas mais ligadas ao metal, outras mais ao punk, e depois o movimento rock, que foi sobremaneira influenciado pelos sons de Seattle. Entre as bandas que nasceram na época, os Blind Zero (fundados em 1994) eram mais uma a encarnar o espírito portuense de fazer as coisas.

No início deste movimento espontâneo mais conotado com o grunge surgiram ainda outros grupos muito promissores, como os No Creative Solution e os Cosmic City Blues (fundados em Vila do Conde) numa primeira fase. O epicentro deste movimento era a sala de ensaios Poltergeist, o local precisamente do primeiro ensaio dos Blind Zero (e de muitos outros grupos já agora), conforme recordou o vocalista Miguel Guedes a meio do concerto na Casa da Música.

Foi uma fase vibrante na cidade: existiam concertos todos os fins-de-semana, criaram-se concursos e festivais de música, como o Termómetro Unplugged (cuja primeira edição consagrou como vencedores um novo grupo… os Blind Zero em 1994) e o festival Noites Ritual. A malta ia abanar a cabeça ao som de rock electrizante, puro, cru e duro, criou-se um público e uma agitação própria da juventude, num misto de rebeldia e desbunda que marcou a comunidade artística tripeira.

O curioso é que um movimento deste género são se cria por vontade própria de esta ou aquela banda, antes acontece quando vários factores e circunstâncias confluem na mesma direcção. E foi isso que aconteceu na cidade com o surgimento de escolas e lojas de música, salas de ensaios e um circuito de festivais, concertos e locais onde as bandas começaram a tocar e a criar o seu público. O bar Comix em Cedofeita, ou o Palha d’Aço e Meia Cave (ambos na Ribeira do Porto), e mais tarde o Hard Club, eram apenas alguns dos sítios onde habitualmente circulavam as bandas e os adeptos de música portuenses.

Num meio tão pequeno todos se misturavam, todos se conheciam, todos se influenciavam mutuamente: músicos, roadies, técnicos de som e de luzes, fãs, produtores de espectáculos, agentes. Era uma indústria a crescer e auto-sustentar-se. Acompanhei de perto este conjunto de músicos e o seu rápido crescimento. Vem desde essa altura a minha convicção que, conforme defendia o famoso crítico musical Lester Bangs, uma banda ou um artista (e a sua personalidade e, portanto, a sua obra) nunca é composta somente pelos músicos que a integram, mas sim por toda e qualquer pessoa que rodeie os seus elementos, assim como pelo espaço que a rodeia.

Mas também constatei que por detrás de tudo tem de existir um grupo de pessoas que sonham em fazer algo de especial, que estão motivadas para fazer música, para exteriorizar o que e como sentem através da arte sonora. Acima de tudo, tem de existir quem acredite que é possível chegar ao público fazendo a música que realmente adora fazer, pelo puro prazer de criar arte.

 

Posteriormente, ao longo da década de 90, outras bandas pioneiras e originais surgiram na cena musical do Porto mais influenciada pelo movimento grunge, com destaque para os Ornatos Violeta e os ZEN, apenas para falar em dois grupos que chegaram a atingir estatuto de bandas de culto. Todos tinham estilos diferentes, mas diversos pontos em comum: o público, a cidade, os técnicos e outros elementos que gravitavam em torno de cada conjunto. Por isso mesmo, existia um fio condutor que norteava as escolhas de cada grupo.

Contudo, a banda que mais rapidamente se notabilizou a nível nacional foram de facto os Blind Zero, muito por via do lançamento do primeiro álbum “Trigger”, que chegou a atingir vendas superiores a 20 mil exemplares. Mais importante ainda foi que esse disco abriu um mercado até então inexplorado: ou seja, foi o primeiro disco de rock cantado em inglês de uma banda nacional a atingir o galardão de Disco de Ouro. Na minha opinião, abriu caminho, por exemplo, para o sucesso massivo dos Silence 4 e The Gift alguns anos depois (obviamente sem retirar qualquer mérito inerente a cada um destes artistas).

Por via desse sucesso, a banda, formada na altura por Miguel Guedes (voz), Vasco Espinheira (guitarra), Nuxo Espinheira (baixo e voz), Marco Nunes (guitarra e voz) e Pedro Guedes (bateria), criou a base de fãs e apoio em todo o país que lhe permite ainda hoje gozar do estatuto de banda de referência no panorama musical português. Desde então, o grupo nunca mais deixou de estar sob os holofotes do público português, mantendo edição regular de discos e realizando muitos concertos.

Blind Zero: Keeping in Wonder

A primeira vez que vi os Blind Zero ao vivo foi na discoteca Via Rápida há mais de 20 anos. Na altura fiquei impressionado: vi uma banda muito organizada, com muita paixão pela música, garra e presença de espírito para agarrar aquela oportunidade e mostrar um conjunto de músicas rock deveras interessante. Senti intensamente que queriam muito triunfar, fazer carreira na música, construir uma obra artística.

Ao longo das últimas duas décadas, assisti centenas de vezes a concertos da banda, constatando a sua evolução natural. Seja em palcos pequenos ou grandes, o grupo sempre se mostrou unido, coeso, perseverante, criativo, inovador e humilde. Na minha opinião foi esse conjunto de características, aliado ao talento para fazer grandes músicas, que fizeram dos Blind Zero um grupo de sucesso em Portugal, com reconhecimento internacional (na cerimónia de entrega de prémios do MTV Europe Music Awards 2003, realizada em Edimburgo, o grupo venceu na categoria Best Portuguese Act).

Talvez inspirados pela maneira de existir das gentes do Porto, também identifico nos Blind Zero a mente aberta a outras culturas e influências, sendo uma banda capaz não somente de as aceitar e absorver, mas também de adaptar e criar algo novo com muita alma, garra e espírito de luta.

Conforme já disse no início deste artigo, a noite de 29 de Janeiro de 2016 estava plácida e convidativa a reflexões. Quando acabou o concerto de comemoração dos 20 anos de “Trigger”, que foi recheado de momentos musicais intensos e electrizantes, incluindo a participação dos dois ex-guitarristas Mário Benvindo e Marco Nunes, fiz uma reflexão muito clara: de todas as bandas que mencionei neste texto referentes aos primeiros momentos do movimento rock da cidade do Porto, apenas os Blind Zero ainda existem e construíram de facto uma carreira de modo contínuo até à actualidade. Infelizmente, porque eram excelentes e fazem falta à música portuguesa, nem os Ornatos Violeta, nem os ZEN, sobreviveram até aos tempos atuais.

Por isso mesmo no concerto do passado dia 29 de Janeiro fiquei duplamente impressionado: poderoso, triunfante e elegante aquele grupo de jovens que tinha visto pela primeira vez há mais de 20 anos mantinha intacta a essência da sua crença para fazer música. A banda, que desde há alguns anos integra também Miguel Ferreira (teclados) e Bruno Macedo (guitarra), celebrou de maneira enérgica e apoteótica com um concerto excepcional o lançamento de “Trigger”.

Tocam melhor, muito melhor agora, mais alto, muito mais alto, mas acima de tudo, continuam coerentes, sinceros e honestos naquilo que fazem em cima do palco. Essa essência é agora sublimada com a experiência de anos de estrada, mas também com a humildade de quem faz o que adora. E isso sente-se na plateia.

Ainda os últimos acordes da versão de “Keep On Rocking In A Free World” de Neil Young soavam nas colunas quando tive então claramente a noção de que a principal razão para os Blind Zero serem uma das melhores bandas portuguesas há tantos anos consecutivos tem uma razão evidente: eles sempre sonharam, continuam a sonhar e nunca vão parar de acreditar no prazer supremo de fazer música e construir com passos sólidos uma carreira artística. O facto de terem almejado esta reputação notável mantendo a integridade artística apenas confirma que essa crença valeu a pena. E triunfaram!

Créditos das imagens: as fotos do concerto dos Blind Zero na Casa da Música são da autoria de Cristina Pinto e Pinto, cujo fantástico trabalho podem ver aqui e a quem endereçamos um agradecimento especial!

 

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