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Benjamin Clementine: de sem-abrigo a vencedor do Mercury Prize

Benjamin Clementine: de sem-abrigo a vencedor do Mercury Prize

 

Benjamin Clementine é o mais recente menino bonito da crítica. Rendidos à diferença estilística do músico, são vários os jornais, blogs e revistas especializadas que têm escrito as mais elogiosas palavras em relação ao cantor e poeta. Originalidade e indefinição de géneros são as principais características usadas para o definir, mas sempre que o nome vem à baila, é impossível não mencionar as suas origens.

Se porventura nos visita de Paris ou se lá esteve há alguns anos atrás, então é possível que a voz de Benjamin Clementine não lhe seja completamente desconhecida. Agora comparado a nomes como Nina Simone, Antony Hegarty e Édith Piaf, o jovem de apenas 27 anos fez-se artista nas ruas de Paris, atuando para quem o quisesse ouvir. O palco era um qualquer cantinho numa estação de metro e as canções eram aquelas que lhe vinham à cabeça na altura.

Mas antes de chegarmos a Paris, recuemos um pouco mais no tempo. Filho mais novo de uma família com cinco crianças, Benjamin Clementine nasceu em Londres e passou uma parte da infância com a avó. Na escola, era vítima de bullying, motivo que o levou a refugiar-se nos livros. A poesia levava-o para longe dali, fascinando-o pelo vocabulário erudito que tentava incorporar no seu dia-a-dia.

Quando tinha 11 anos, Joseph, o irmão mais velho, compra um piano e Benjamin começa a fazer as primeiras experiências nas teclas. Com o tempo, o interesse do irmão transitou para outro instrumento, mas o mais pequeno continuou a tocar. Enquanto isso, lá em casa, ouvia-se a Classic FM, uma emissora radiofónica de música clássica, pelo que ao fim de alguns meses o jovem Clementine percebeu que o pop o aborrecia. Decidiu, então, aventurar-se pelas composições do francês Erik Satie.

Durante os cinco anos que se seguiram, o músico continuou a praticar, atividade que conciliava com a escola. Apesar do brilhantismo, o talento para o piano não se traduzia em sucesso escolar: aos 16, reprova em todos os exames – todos, exceto o de literatura inglesa. Por volta da mesma altura, discussões familiares levam-no a sair de casa para se instalar em Camden Town, uma zona de Londres conhecida pelo ambiente alternativo.

Com 19 anos, dá-se uma mudança pouco planeada e, quase sem dar por ela, Clementine estava a dormir nas ruas de Paris, subsistindo à custa das atuações em bares, em hotéis ou no metro. Profissões precárias nas limpezas ou como auxiliar de cozinha em restaurantes (um nome catita para aquilo que realmente fazia), permitiram-lhe acomodar-se em hotéis baratos, partilhando o quarto com desconhecidos.

Sempre que era obrigado a dormir em beliches, fazia questão de ficar no andar de baixo. Isto porque só assim conseguia guardar os seus pertences em segurança por baixo da cama. Entre esses pertences, encontravam-se uma guitarra e um teclado baratos que tinha conseguido comprar com o pouco dinheiro amealhado. Foi através destes instrumentos que compôs os primeiros originais e onde percebeu que estava na altura de transpor para as letras as suas próprias experiências.

Benjamin Clementine dentro do metro de Paris

 

Benjamim Clementine: “la révélation anglaise des Francos

Depois de cerca de quatro anos nas ruas, Benjamin Clementine consegue finalmente saltar à vista de alguém do meio musical, mas tal só aconteceu por mero acaso. Quando um agente regressava a casa de um concerto, encontra-o a tocar e convida-o para uma reunião no dia seguinte. Pouco depois, Clementine é apresentado àquele que seria o seu futuro manager e, mais tarde, durante o Festival de Cannes, é apresentado a Lionel Bensemoun, um nome importante no meio musical francês.

 

Do contacto surgiram novas oportunidades. Num curto espaço de tempo, Clementine já tinha a agenda preenchida, crescendo em popularidade como “la révélation anglaise des Franco”. A primeira atuação naquilo que podemos consensualmente apelidar de um grande palco aconteceu no final do ano de 2012, no festival internacional Rencontres Trans Musicales. A partir daí, nunca mais parou.

O início de 2013 foi celebrado com um contrato discográfico que, em junho desse ano, viria a dar à luz a Cornerstone, o primeiro EP do artista. Seguiram-se as apresentações ao vivo em programas de televisão, as versões acústicas e, naturalmente, a reação da crítica. As palavras não podiam ter sido as melhores: logo após a atuação no Later… With Jools Holland, David Smyth disse que a forma de cantar de Clementine lhe fazia lembrar a de Nina Simone em Ain’t Got No, I Got Life, mas numa forma completamente diferente.

Benjamin Clementine - Cornerstone - Later... with Jools Holland - BBC Two HD

 

Com Cornerstone a arrebatar a crítica, parecia a Clementine que o próximo passo a dar seria a gravação de um álbum completo. Obrigações contratuais impediram-no de avançar e opções estratégicas por parte da editora fizeram com que o músico se mantivesse com uma exposição aquém do seu potencial. Durante mais ou menos dois anos, voltou-se para a poesia e para a composição, revisitando muitas vezes os período em que viveu nas ruas.

Em janeiro de 2015, depois de ter lançado Glorious You – segundo EP – , sai finalmente o primeiro álbum de estúdio, o também aclamado At Least for Now. Promovido principalmente na Europa, o disco é um sucesso e mais uma vez volta a receber grandes aplausos. Entre eles, destaca-se o do ex-Beatle, Paul McCartney, que confessa ser fã da forma de cantar de Benjamin Clementine.

Apesar de já estar longe de ser um nome desconhecido, o grande boom de Clementine só aconteceu recentemente. O motor por detrás dessa explosão foi o Mercury Prize, prémio que recebeu em 2015 e que fez com que andasse nas bocas do mundo. Superando nomes aclamados e reincidentes, o cantor levou para casa o maior galardão da música britânica, colocando-se a par de outros vencedores como os Arctic Monkeys ou PJ Harvey.

Como seria expectável, mais uma vez a história de Clementine saltou para os jornais, que resolveram falar também sobre o lado interventivo. Recentemente o cantor manifestou-se contra os atentados terroristas que aconteceram em Paris, homenageando as cidades onde passou a infância e onde cresceu musicalmente numa atuação de London.

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