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Ben Harper em odes à emoção e paixões à flor da pele

Ben Harper em odes à emoção e paixões à flor da pele

 

“Professor, professor, é verdade que vai entrevistar o Ben Harper?” Que sim, que ia, mas será que era motivo para tanto alvoroço? “Por favor, leve-me consigo. Sou a maior fã dele, adoro a forma como se entrega à música, a maneira como a guitarra parece prolongar-lhe o corpo, poeta de consciência que penetra em mim com as cores da humildade e da excelência, como se algo de divino acontecesse quando ele dedilha a guitarra e canta”; e a  Renata, aluna da Escola Superior de Jornalismo, a debitar paixão por todos os poros, a saliva curta de tanto procurar enaltecer os atributos do ídolo, quase tangível pela oportunidade. “Nem sabe como lhe fico grata”.

Seguimos para as bandas do Coliseu do Porto onde o músico aguardava dentro de um autocarro inglês, volante do lado contrário, dois andares. Chegou com a carapinha em desalinho, ensonado, tão simples e recatado que a aluna pareceu desfalecer.

Recordo-me de ter ouvido magníficas histórias que falavam de todos nós, de sentir a magnitude da sua presença como se estivesse possuído por uma doçura, íntima, que só quem ama em permanência conhece. Enquanto falávamos ia penteando o cabelo com um enorme pente de pau, distraidamente, leve como quase ninguém.

Naquela segunda casa que o levava de país em país, cidade em cidade, concerto em concerto, comportava-se como se estivesse sentado à lareira de uma velho casario de campo. “Quando se anda tantos meses seguidos na estrada, o autocarro passa a ser o nosso outro lar. Tenho que me reajustar quando volto à vida doméstica”.

 

A aluna, a Renata, cada vez mais apegada àquele momento, para ela quiçá divino, pergunta-lhe se o pode fotografar e perante a boa vontade foi mais longe: “será que podia tocar qualquer coisa para nós?”.

“Talvez possa apresentar-vos uma melodia que está em estado primário, que ainda não levantou voo”. Pousou o pente, pegou no violão que repousava num dos bancos e na quietude do momento deu início a uma ode de emoção. Discreto, embalou-nos com a melodia, a Renata encadeada pela luz que parecia irradiar magia, a mesma da paz dos mosteiros. Há neste homem uma fé que ele mesmo não sabe nem quer explicar.

“Algo de tão especial que as palavras nunca se aproximam de uma definição do que sinto”. Porque é fé o que se vê e ouve. “Talvez mais tarde possa deixar voar esta canção até aos ouvidos de outros”, pronuncia ao terminar o último acorde, nós arrepiados, parecendo também voar, voar com a trova, nua, despida de estrelato, brilhante como luz.

 

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