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António Variações: o barbeiro que nos engatou com a sua canção

António Variações

António Variações: o barbeiro que nos engatou com a sua canção

 

António Variações. Trata-se de um dos nomes mais famosos da história da música portuguesa. Nascido no Fiscal, uma pequena aldeia do concelho de Amares, em Braga, o homem que viria um dia a adotar o nome artístico António Variações foi batizado pelos seus pais como António Joaquim Rodrigues Ribeiro.

A escolha deste nome artístico tão peculiar foi um dia explicada pelo próprio artista. “Variações é uma palavra que sugere elasticidade, liberdade. E é exactamente isso que eu sou e que faço no campo da música. Aquilo que canto é heterogéneo. Não quero enveredar por um estilo. Não sou limitado. Tenho a preocupação de fazer coisas de vários estilos.”, explicou o artista numa entrevista à imprensa.

Sendo o quinto dos dez filhos de Deolinda de Jesus e Jaime Ribeiro, António passou a sua infância em Fiscal. Os estudos aconteceram na escola local e o tempo livre era passado com os amigos e os pais no campo. Entretanto, o amor pela música vai surgindo e manifestando-se de diferentes formas, principalmente durante as romarias e os espectáculos de folclore locais.

Como era muito frequente na época, António termina os estudos aos 11 anos e embarca logo para o mundo do trabalho. Em Caldelas, começa a trabalhar num negócio local de quinquilharias, mas não tarda a perceber que não tem muito jeito para o ofício. A vida pacata do campo começa a esgotá-lo. O pequeno António percebe que quer fazer algo mais da vida do que Fiscal lhe pode dar. Assim, muda-se para Lisboa aos doze anos e começa a trabalhar num escritório.

Chegada a maioridade, cumpre serviço militar, deixando a metrópole para servir em Angola. Pouco depois de regressar, Lisboa parece afinal já não ter muito espaço para si e decide viajar para o Reino Unido, mais precisamente para Londres onde, à falta de melhor emprego, aceita lavar pratos num colégio. É por 1976 que regressa a Portugal, mas não por muito tempo: Amesterdão é o país que o acolhe alguns meses mais tarde e onde surge a oportunidade que procurava para aprender o ofício de cabeleireiro e barbeiro.

António Variações: da tesoura ao microfone

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Este é um importante capítulo da vida e estilo de António Variações. Quando regressa a Lisboa, já um homem diferente, começa a viver uma espécie de vida dupla: de dia é barbeiro mas de noite é à música que se entrega. Com um grupo de música chamado Variações, começa a dar alguns espectáculos na capital e a ser reconhecido pelo seu estilo excêntrico e muito próprio. É esse mesmo estilo que hoje recordamos.

Cores, formas originais e muitos elementos de adorno, como brincos e penas, marcam a imagem de António Variações. De forma a dar um passo para solidificar a sua carreira musica, o artista prepara uma maquete de músicas para apresentar à editora Valentim de Carvalho. Sem surpresa alguma, consegue assinar um contrato. Estávamos então em 1978.

 

Como se veio a provar, os contactos com profissionais do mundo da música e os seus clientes na barbearia abriram as portas da notoriedade para António Variações. Em fevereiro de 1981 surge pela primeira vez na televisão, no programa Passeio dos Alegres apresentado por Júlio Isidro, que o convida ainda para algumas emissões da Febre de Sábado de Manhã na Rádio Comercial.

dar-e-receberEntretanto, em Julho de 1982, já assumidamente sob o nome António Variações, edita o seu primeiro single. Ainda que tivesse assinado o contrato quatro anos antes, foi apenas neste ano que lançou o seu primeiro álbum, interpretando  Povo Que Lavas No Rio – êxito imortalizado por Amália Rodrigues – e Estou Além, um inédito de sua autoria. Um ano depois sai o LP – Anjo Da Guarda – que o conduz ao estrelato nacional.

Depois de inúmeros concertos na época estival, sobretudo em festas e romarias de aldeias e outras pequenas localidades, volta a entrar em estúdio. Entre 6 e 25 de Fevereiro de 1984 grava o seu segundo e último LP, com o nome Dar e Receber.

E é assim que nos aproximamos do fim: esta é uma história que termina já no seu início. Em abril de  1984, António Variações aparece pela última vez em público no programa televisivo A Festa Continua, uma vez mais apresentado por Júlio Isidro. Será a única interpretação no pequeno ecrã das faixas do novo disco.

Pela altura em que este é editado e chega às lojas portuguesas, o artista encontra-se internado no Hospital Pulido Valente. O motivo para tal internamento foi um problema brônquio-asmático. É aí, na sua cama do hospital, que constata o fenómeno da célebre Canção de Engate, incluída no seu segundo LP, e que o tornou famoso.

No dia 13 de julho, depois da sua saúde se deteriorar gravemente, António Variações morre na Clínica da Cruz Vermelha para onde tinha sido transferido a pedido da família.


 

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