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Adriana Calcanhoto fez-me perder o tino à conversa

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Adriana Calcanhoto fez-me perder o tino à conversa

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Adriana Calcanhoto aguardava-me pacientemente no Mistura Fina, piano-bar da Lagoa, Rio de Janeiro, a pele tão branca e sedosa e os olhos tão azuis que ninguém diria que é brasileira, mesmo que do Sul. Fato, gravata e ténis, jeito doce e tímido, levantou-se, delicada, e apertou-me a mão com sobressaltada firmeza. Encontrámo-nos para a que seria a sua primeira entrevista para Portugal e logo perspectivei que aquela jovem com trejeitos feministas rapidamente alcançaria o estrelato.

Dizia-me então que não se considerava uma cantora nem para grandes salas nem para a penumbra de um qualquer bar, que não era “mais uma voz daquelas simpáticas que evocam as velhas dissonâncias da bossa nova”. Pareceu-me uma intelectual em permanente estado de alerta.

Acabada de chegar do seu primeiro concerto fora do Brasil, em Buenos Aires, Adriana Calcanhoto mostrou-me um jornal argentino, o La Nacion, onde se afirmava que “não é desatinado imaginar que se Elis Regina vivesse transitaria hoje pelos mesmos caminhos que Calcanhoto”. Adriana não gosta de comparações e, mesmo que na altura estivesse a dar os primeiros passos, disse-me que estava farta que a comparassem a Elis.

“O meu pai, Carlos Calcanhoto, o Canhoto, foi baterista dela. Ensaiavam lá em casa e é claro que ficava ouvindo-a, fascinada. Mas isso não quer dizer que seja, como toda a gente parece insinuar, a sua herdeira. Sou tão herdeira de Elis como sou herdeira de Luís Melodia, Vinícius de Moraes ou Roberto Carlos”, disse.

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Reparei que desviava os olhos frequentemente dos meus. De repente, a mesma doçura, como se estivesse a falar para si mesmo: “Não quero ascensão social nem valores materiais. O que pretendo é divertir-me. E isolar-me”.

Voltei a encontrar Adriana Calcanhoto da primeira vez que veio a Portugal, menos freios ou amarras, como se tivesse saído de um deserto onde esteve só e o destino sempre a quis. Dos seus olhos soltava-se já um brilho mesmo que fosco, diluído na sensação de aparente reserva.

Naquela tarde no Porto vi a sua expressão ainda mais clara, revelando uma peculiar sensibilidade, sofisticada inteligência e discernimento. Estava igualmente vestida com fato, gravata e ténis, a mesma companheira ao seu lado. Alguém me segredou que, por debaixo da mesa, tinham as mãos entrelaçadas, que se acariciavam os dedos mutuamente. Deixei-me excitar pela ideia e quase perdi o tino à conversa.

 

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